Nas pequenas coisas

No trem lotado de uma quinta-feira chuvosa, onde olhares se cruzam e uma disputa mental de quem está mais exausto acontece, um caminho entre os corpos é aberto para a passagem de um homem, que a vida o fez também ser chamado de pai, com um menino cadeirante, felizmente chamado de seu filho.

Claramente vegetativo, o garoto não anda, não fala, e sabe-se lá se escuta. As limitações físicas são visíveis, mas o sorriso é o mais evidente. Aliás, o sorriso do menino só não é mais revelador que o brilho dos olhos do pai ao animadamente contar ao filho sobre a tão esperada novidade: “É bom se preparar, em garotão! Segunda feira começa na escola nova, e aí não vai ter pra ninguém! Quero só ver nossa casa, logo vai tá cheia de amiguinhos e até namoradinhas” — e o garoto sorria, mais com os olhos, do que com os lábios.
Entende-se que nessa “escola”, é bem provável que o garoto não vá para aprender a fórmula de baskara, nem a diferença entre prótons e nêutrons. Mas com toda essa ternura, fica claro que pouco importa o que aprenderá fora de casa — o essencial ele já tem.

Nada o menino fala, tudo ele entende. Nada ele responde, tudo ele expressa.Nada tenho a ver com isso, mas tudo eu sinto.

Ah, o amor. Ele se manifesta mesmo nas cenas mais simples.