Meu abuso sexual
priscilavanti
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A primeira vez que a mão de um homem invadiu meu corpo eu tinha apenas 10 anos de idade. Era magrinha, mirrada, não tinha bunda, não tinha peito. Estava a caminho da aula de natação, sozinha, como era comum naquela época. A escola ficava a duas quadras de casa. Eu caminhava despreocupadamente quando avistei um homem de cabelos longos vindo em minha direção. Difícil definir sua idade depois de tantos anos, mas chutaria algo em torno dos vinte e poucos. Jovem, porém um homem. Ele estava apenas caminhando em direção ao seu destino, como tantas outras pessoas. Era meio da tarde, sol alto. Não senti medo algum ao avistá-lo de longe. Foi só quando nos aproximamos e ele começou a andar na minha frente que senti a tensão me envolver, embora não soubesse muito bem porque. Tentei desviar, mas ele foi mais rápido, se encostou em mim pela frente, enfiou a mão por cima da minha bermuda e me apalpou com força. Levei um susto, dei um pulo pra trás e saí correndo em direção à escola de natação.

Um pouco mais tarde, com 11 ou 12 anos, um padre amigo da família que frequentemente se hospedava em casa quando vinha a Porto Alegre, numa noite em que dormia em um colchão no chão do meu quarto, começou a se masturbar na minha frente. Não, ele não pensou que eu estivesse dormindo. O abajur estava aceso, estávamos conversando quando de repente ele tira o pênis ereto pra fora das calças. Fiquei consternada, virei o rosto para o outro lado, fingi dormir na inocência de que ele acreditaria. Mas ele não queria que eu dormisse. Ele queria que eu assistisse o que ele estava fazendo. Estendeu sua mão livre e começou a tocar meu braço com força, insistindo pra que eu virasse de volta e repetindo incessantemente Larissa… Larissa… Larissa… Odiei meu nome por muito tempo depois disso. Me senti culpada. Fui eu quem sugeriu que ele dormisse no meu quarto. Eu gostava dele. Éramos amigos, apesar de ele ser um adulto. Ele conversava comigo de igual pra igual e, assim como eu, gostava de dormir ouvindo música. Eu confiava nele. PUTA QUE PARIU, foi ele quem batizou a mim e aos meus irmãos. Como não confiar? A culpa era minha, eu havia feito alguma coisa para provocar aquela situação. Depois de um tempo, troquei a culpa pela negação: não havia motivo pra drama, afinal, ele não tinha me machucado nem me feito mal algum, não é verdade? Não, não é! Ok que ele não me machucou fisicamente, mas a partir dali toda vez que ele vinha visitar eu sentia muito medo. Dormia trancada em meu quarto e muitas vezes segurava o xixi a noite inteira temendo ir ao banheiro. Mesmo depois de adulta, enquanto eu morava com meus pais, sempre que ele vinha o sentimento era de pânico. Demorou muito pra eu entender que isso significava que ele havia me feito mal sim! Que aquilo que aconteceu uma única vez me fez sentir psicologicamente e sexualmente vulnerável por um longo período de tempo. Só depois de adulta pude compreender que eu havia sim sido vítima de violência sexual.

Depois disso veio uma adolescência repleta de mãos de desconhecidos apalpando minha bunda e seios na balada, porque era assim que a coisa funcionava, a garota que não quisesse ter seu corpo violado deveria ficar em casa. Era o preço a se pagar para ter uma vida social. Nessa mesma época teve aquele professor da academia que ofereceu uma carona, passou a viagem inteira apalpando meu corpo e tentou me agarrar com tanta intensidade no momento em que paramos em frente ao meu prédio, que chegou a deixar marcas no meu braço. Foi uma longa luta até eu conseguir me desvencilhar do seu corpo e descer do carro. Recentemente teve o show ao ar livre em que o cara, usando o pretexto da aglomeração, encostou atrás de mim e ficou roçando seu pênis na minha bunda, e toda vez que eu mudava de lugar, alguns segundos depois o sentia ali novamente.

São tantas as violências diárias que sofremos, são tantas as coisas das quais nos privamos simplesmente por sermos mulheres, que dói quando lemos comentários que culpabilizam vítimas de abuso e justificam homens abusadores. Dói saber que pra denunciarmos esses abusos, temos que estar dispostas ao julgamento daqueles que estão prontos pra colocar em duvida o que a gente tem pra dizer. Dói saber que esses julgamentos não vêm apenas de homens, mas também de mulheres. Dói o fato de que, por mais que saibamos que a culpa nunca é da vítima, por mais que tenhamos plena convicção disso ao confortarmos outras mulheres, quando acontece com a gente, ela - a famigerada culpa - sempre aparece de onde quer que esteja escondida pra sussurrar nos nossos ouvidos que podíamos ter feito algo para evitar o acontecido. Dói porque além da culpa há a vergonha de falar sobre isso, expor situações que nos ferem tão intimamente. Dói porque eu tenho quase 36 anos e ainda não consegui me livrar dessa vergonha, o que me faz desabafar aqui, nos comentários do teu texto, algo que ainda não tenho coragem de expor nas minhas próprias redes. Dói porque sei que pra cada mulher que denuncia publicamente os abusos que sofre, inúmeras outras são abusadas e ninguém fica sabendo. Porque não é fácil falar. É importante, mas nada, nada fácil.

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