Sorte mesmo é ter um pouco de azar

Larissa Rosa
Nov 4 · 4 min read
Yaaaay!

Cada um está lutando suas batalhas pessoais, por isso precisamos ser mais doces uns com os outros. Está certo, a gente tenta, mas nem sempre conseguimos porque cansamos de ver gente que não se dá conta da sorte que tem. Pior, que ainda fica reclamando por bobeira. Entra na sua cabeça uma coi­­sa dessas?

Na minha sim. Porque das três, uma. Ou a pessoa teve sempre tudo muito fácil e algo que parece pouco para nós a desestabiliza. Ou ela sempre teve tudo muito difícil (força, guerreirxs!). Tem também as pessoas do meio, que eu chamaria de felizardos. As que às vezes dão sorte, às vezes azar. E é uma baita sorte ter algum azar. No entanto, o que não existe em nenhum lugar do mundo inteirinho é quem não tenha pro-ble-mas. Porque não ter problema, em si, já é um grande problema. Saca?

Pensa comigo. Somos seres comparativos. Sabemos que a comida não está boa hoje porque ontem estava melhor. E conseguimos apreciar quando ela está acima do padrão, seja porque o restaurante tem estrelas Michelin ou porque a avó caprichou aquele dia. A promoção no trabalho, a formatura, o convite para passar o final de semana na praia só são especiais porque são raros. Até um dia de calor é assim. No Nordeste, é muito possível que eles apreciem mais uma tarde de chuva porque quase sempre está tão quente.

Vivi dois anos e meio na Europa e pude entender que valia a pena passar por tantos meses de inverno rigoroso porque sempre desembocavam num verão de piqueniques e passeios ao ar livre, quando as ruas lotavam de cadeiras e pequenas mesas em frente aos cafés e restaurantes, e um turbilhão de bicicletas, patinetes e skates se entrecortavam pelas calçadas. Carrinhos de bebê surgiam por toda a parte.

Em Paris, crescia significativamente o número de gente correndo à beira do Rio Sena. Era também a época em que os barcos péniche estacionavam por ali abrigando bares que reabriam exclusivamente para a temporada, ladeados por food trucks e pick-ups e seus DJs. Os jovens passavam no mercado para comprar suas bebidas baratas e compartilhá-las sentados nos degraus das imensas escadarias ou nos gramados espalhados por toda a cidade. Muitos preferiam andar trechos a pé, diminuindo o fluxo nos metrôs.

Foto de George Kourounis via Unsplash
Foto de George Kourounis via Unsplash

Era tempo de Paris-plages, quando a prefeitura colocava areia e cadeiras de praia nas bordas dos canais e do rio para dar a sensação de férias aos que não podiam se ausentar da Capital. O Jardin des Tuileries, bem como tantos outros parques e praças, era invadido por pessoas vestidas com roupa social e seus sanduíches na mão na hora do almoço — não dava para desperdiçar aquele sol! E tinha turista saindo pelo ladrão, mas tudo bem, era verão! Até os cisnes dos lagos estavam mais felizes.

Como tudo na vida, o verão só pode efervescer assim porque dali a pouco acaba, dando lugar às reuniões de amigos mais escassas, dentro de bares escuros ou das casas, onde há calefação e aparelhos de raclette e fondue. Se a gente não tem surpresas ruins, sustos desagradáveis, conflitos em geral, como é que a gente pode distinguir um dia bom de um dia ruim? Como é que a gente reconhece um dia excelente? Por que que a gente lutaria para uma vida melhor?

Eu vou mais além. Se não existisse a morte, não teríamos pressa, não teríamos motivação para fazer o que gostaríamos. Deixaríamos tudo para depois. Estagnaríamos. A gente só valoriza o que pode acabar. Morte também é sorte.

É importante viver o vendaval para apreciar a calmaria. Se não temos com o que comparar, tudo é sem mais. Aquela pessoa que, aos nossos olhos, reclama sem razão, não passou pelo vendaval para apreciar o privilégio da sua calmaria. Mas o sentimento dela é igual: frustração, dor, rejeição, solidão, agonia, medo, tédio. Todos sentimos igual. Então quando a amiga magra reclama que está se sentindo gorda e você olha e não vê nada, a insegurança que ela sente é real. Quando alguém que ganha mais que a gente se queixa que está sem grana, a preocupação que ele sente é real. Seria bacana que eles se dessem conta de algo que você já entendeu, que estaria ótimo ter aquele corpo ou aquela quantidade de dinheiro, mas, para eles, não é. Porque as perspectivas são diferentes. E as expectativas também.

Fácil e difícil são termos muito relativos, afinal, temos sensibilidades diferentes em distintas áreas. Às vezes alguém que se posiciona muito bem em reuniões de trabalho se frustra porque não consegue comunicar seus sentimentos dentro em casa. Ou alguém que faz esportes radicais começa a tremer e suar frio na hora de falar em público. Falta coragem? Depende para quê. Duas pessoas podem ter o mesmo problema e senti-lo em grau distinto, tem a ver com estofo. A vida vai preparando a gente. Para isso ou aquilo.

Existe sim quem vá para Nova Iorque todo ano e sinta a mesma coisa que você na sala de espera do seu dentista. É entediante porque o acesso é muito fácil. Parece injusto mesmo. Mas, no fundo, não é. Todo mundo tem problema. E tem um sabor especial conquistar algo pelo qual lutamos muito.

Só não vamos olhar a versão fatiada da vida dos outros nas redes sociais, nos sites de fofoca, ou até nas conversas superficiais com amigos menos próximos. A gente escuta uma coisa e pensa que o pessoal vive num mar de rosas — isso NÃO existe. Não é possível vermos tantas celebridades em clínicas de reabilitação ou se suicidando e continuarmos achando que famosos têm vidas perfeitas.

O que você prefere então? Não passar nenhum perrengue e viver num tédio eterno? Ou olhar para seus infortúnios como contrastes que te ajudam a agradecer e aproveitar tudo o que você tem de bom? Eu prefiro ter sorte e azar. Mas… mais sorte que azar, claro.

Sorte para nós!

Larissa Rosa

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Desde criança quis ser escritora. Só me faltava escrever.

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