Relatório 07 — A ineficiência dos sistemas de fiscalização e acompanhamento qualitativo de obras públicas e de desvarios sentimentais (obras privadas).

  1. JUSTIFICATIVA

Enceno estar redigindo um relatório sobre alguma obra inútil do governo, apontando os defeitos na execução pelo construtor, disfarçando em frases ambíguas que a questão também é de projeto e nem ventilando a possibilidade de que o defeito essencial seja mesmo do sistema de contratação e fiscalização de obras públicas, regido pela lei 8666, pelas orientações dos tribunais de conta, por gestores preocupados com os prazos eleitorais, por fiscais mal remunerados de fim de carreira, enfim, que o grande problema da grande obra pública é que ela existe para o lucro do empreiteiro, e que, por solidariedade e gratidão, o Estado empenha-se (às vezes até literalmente) em alternar-se no papel de rufião e rapariga de uma farsinha deveras custosa: inventa-se o não necessário e daí, move-se mares e montanhas (às vezes literalmente) para executá-lo, melhor, apenas começar a executá-lo. Para um bom treinamento de coaching sugiro estudar uma obra pública. Vem funcionando pra mim: tenho conseguido não pedir demissão.

2. METODOLOGIA

Enceno concentração, e, sobretudo, enceno que não estou chorando, que não sou histérico. Começo a me perguntar porque diabos minhas escolhas me levaram a essa sobreposição de cárceres em tantas camadas, uma cebola com pétalas de convenções sociais mal administradas. É um sufoco, e viver tem sido assim, um resfolego de vez em quando para ultrapassar com sofreguidão as horas, os dias, as semanas, até a velhice, e, por favor, só mais ao longe, a morte.

3. CONSIDERAÇÕES GERAIS 
 
Já bastante assoberbado, por falta de algo melhor a fazer, me deu na cabeça (de forma oculta e misteriosa: defendo-me: são mecanismos inconscientes, sobre os quais não possuímos controle racional) de me enredar, enovelar em trama afetiva novela das seis (clichê no. 7). Sabemos: mera carência egoica de desejar o desejo, porque no fim isso nos diz que somos amáveis e especiais, seja lá o que isso signifique, muito provavelmente, que precisamos de um testemunho para certificar nossa existência (clichê no.8), o testemunho do Outro no qual temos nos construído e individuado por diferenciação primordial (clichê no. 9).

A coisa toda é que enquanto escrevo esse relatório, sinto pequeninas punhaladas aqui no estômago, como se uma adaga ficasse me cutucando em um compasso ritmado que se diverte na dor sincopada. Talvez seja a memória do corpo, da carne, assinalando inadvertidamente que, há oito ou nove horas atrás, eu gozava um gozo forte repleto de terror, porque meu plano ardilosamente — ingenuamente — previamente maquinado era de que o sexo acontecesse entediante — previsível — repetitivo (inutilmente aconteceu), pois esse desejo é o desejo que preciso aniquilar antes que ele me aniquile, como vem fazendo: aniquilando qualquer vestígio de alegria banal ou de gentileza para com o meu espectro aniquilado ao espelho que me revela, dessa forma, quase aniquilado.

A mente racionaliza, corta e cauteriza. Mas é inútil: preciso continuar a fingir que não marejo, porque a cada 17 punhaladas na barriga sinto desesperadamente uma vontade de suspirar e me deitar sob a cama, como quando adolescente, entupido de soberba e autocomiseração, me punindo e me odiando em todas as partes, pois sou incapaz de ser amado pelo outro, essa é minha deficiência constitucional, esse é meu grande fracasso. Esse mini-surto dura aproximadamente 20 segundos, após isso a respiração se normaliza e as mini punhaladas recomeçam na cadência da polca, apesar de que, de tão ridícula, deveria soar como a do maxixe.

4.0 ANÁLISE DOS RESULTADOS

Difícil escrever sem soar melodramático o que é simplesmente patético.

A ilusão engendrada pela vontade é aquela do condão de imprimir na sua carne o mesmo desejo e afeto que senti sentia sinto, whatever.

No reflexo da tela preta e brilhosa do celular minhas bochechas estão rubras e meus olhos se inundam involuntariamente em plena sala fria (ar condicionado torado), sutilmente elegante, uma sala de um palácio, habitada por serpentinhas deselegantes e medíocres que disfarçam suas sinecuras com relatórios como este que supostamente estou escrevendo.

5.0 RECOMENDAÇÕES GERAIS

O que eu sinto quando digo ter saudades e você apenas sorri ironicamente, e eu estou sentado e você é tão maior de pé? só assim pra você ser maior que eu, penso, divertidamente.

Não arranho minhas faces, o impulso já alivia. Preciso e quero estar bonito, em todo caso, para algum outro (caso).

6.0 CONCLUSÃO

Transmutar todo o desprezo em machismo soft como um alquimista que safadamente transforma algumas frases feitas do Augusto Cury em sentenças lacanianas recheadas de mistério hermético apenas para me convencer de que no fundo você não me merece, pois é menor que eu.

Mas é que a carne e o oco do estômago estão convencidos mesmo é do contrário: eu seria feliz se você me amasse(clichê no. 1). Tão convencidos que já deliram julgando-se quase capazes de amar você sem nada em troca(clichê no. 5), como uma beata pudica que estremece de tesão ao ver o jesus indiferente na cruz, absorto em sua própria dor.