Minha série, ninguém sai!

Todo viciado em séries sabe que, ao terminar uma série, vai se deparar com a difícil decisão de escolher outro título para dedicar seu tempo (porque ninguém vai querer passar um dia sem sofrer os dramas do mundo dos seriadinhos, né?). Mas e quando os episódios acabam, mas o limbo emocional parece não ter fim? Você está simplesmente conectado demais à história, aos personagens, ao vocabulário característico e até mesmo ao cenário para riscar mais essa da sua watchlist e partir para a próxima.

Você tentou não se apegar, mas daí a trilha sonora também mexeu com você e as favoritas já estão na sua playlist diária. No plano de fundo do celular e do desktop, na foto de capa das redes sociais, lá está ela: seja uma imagem do seu ship favorito ou algo misterioso e icônico que só quem assiste reconhece. Você prometeu para si mesmo que não iria pesquisar demais sobre os bastidores pra facilitar a despedida, mas quando se deu conta já seguia todos os artistas no Instagram e sabia o nome de seus filhos e animais de estimação. É, você falhou na missão de seguir em frente.

Então você tenta perpetuar o universo da série em outra pessoa, indicando-a para aquele amigo em que você confia o suficiente para compartilhar dessa experiência com você. Agora você tem alguém para trocar figurinhas sobre o assunto, por quanto tempo quiser! Mas ainda não é o suficiente. Nem todas as fanfics do mundo cobrem o buraco que aquele casal OTP deixou. Então você toma medidas drásticas: assiste tudo de novo. E novamente, avaliando episódio por episódio. E mais uma vez, anotando todas as referências. Por fim, você já sabe de cor e salteado a sequência dos fatos, os easter eggs e até algumas falas. No fundo, tudo o que você queria era ter o gostinho de assistir um episódio inédito novamente…

A série que você terminou era Gilmore Girls, exibida originalmente entre 2000 e 2007. Estamos em 2016, mas poderia muito bem ser 2006 para o universo televisivo, pois, quase dez anos depois, um revival produzido pela Netflix está a poucos dias de ir ao ar. A pergunta que não quer calar é: O que queremos encontrar quando buscamos algo para assistir? Será realmente “algo novo”? “Algo diferente, nunca visto antes”? Gilmore Girls é apenas uma entre várias outras histórias que recebeu ou está cotada a receber uma continuação nos próximos meses.

Vários fãs se mostram completamente empolgados com a notícia, mas alguns vêem a tentativa de trazer a série de volta como algo fadado ao fracasso. É aquele ditado: “Em time que está ganhando, não se mexe”. Acontece que a onda de revivals que vem crescendo de uns anos pra cá já se mostrou mal sucedida em algumas investidas, como em “Heroes Reborn”, de 2015. Ainda assim, a memória dos fãs continua imersa no laço tão carinhoso que criaram com a série original, fazendo com que qualquer oportunidade de reviver a sensação de ter um novo episódio para assistir pareça surpreendentemente excitante.

A galera fã de “Full House” já ficou dividida quando a sitcom clássica dos anos 80 ganhou um spin-off também produzido pela Netflix este ano. A Fox também aderiu à nova moda e decidiu trazer Michael Scofield de volta às telinhas em 2017, com um revival de “Prison Break”. Além disso, a emissora está trabalhando num spin-off de “24”, intitulado “24: Legacy”. Bem aí já nasceu um conflito com os rumores de que o icônico protagonista Jack Bauer seria substituído por um personagem mais jovem… É, não dá pra agradar a todos.

Bem, ficar carente de séries é possivelmente o pior que pode acontecer pra quem mergulha de cabeça no mundinho criado por elas. Mas, ao mesmo tempo, esse nível de envolvimento com história nos deixa enciumado quando alguém vem querer mudar algo que já estava bom, ótimo, perfeito. E aí, o que você acha dessa onda de revivals e spin-offs tomando conta da TV? Enaltece ou empobrece a memória das nossas séries queridinhas?

Texto originalmente publicado em 24/11/16, em: https://goo.gl/FP4Nc8