André Grabois: A História de um Desaparecido Político

[Esse foi o trecho que escrevi no livro-reportagem “Desaparecidos: A Vida de Quem Fica”, feito em conjunto com meus colegas de faculdade como TCC.]

Foi uma despedida tensa. A tarefa da esposa de André era a mais difícil: locomover-se em uma área de conflitos, correndo o risco de ser presa ou atacada. Ficando na selva, escondida dos helicópteros militares que rondavam a região do Rio Araguaia, no norte do país, seria menos perigoso. Já fazia cinco meses que ninguém havia morrido, e André não queria que a mulher que carregava seu filho no ventre, fosse a próxima.

Mas o trabalho dela precisava ser feito. Além do mais, quando Criméia voltasse, ele finalmente conheceria o bebê, que nasceria em melhores condições. Ele a entregou nas mãos de um colega militante, e a viu partir, rumo a uma viagem cheia de percalços até São Paulo.

E assim se despediria o jovem casal. Para sempre. André não chegou a conhecer seu filho, e não pode ver sua mulher mais uma vez. O destino tinha outros planos para a vida daquela pequena família, que mal havia começado.

***

Quando a vida política de André começou

André Grabois nasceu em 3 de julho de 1946. Era filho de dona Alzira da Costa Reys, e de Maurício Grabois, um dos líderes do PCdoB (Partido Comunista do Brasil). Foi no Rio de Janeiro, onde nasceu, que André estudou o primário e o ginásio. Já nessa época, por influência do convívio com militantes comunistas, começou a interessar-se por política.

Em 1964, chegou a ditadura. Seu pai começou a ser perseguido, e por isso André entrou na clandestinidade, aos 17 anos. Sabia que a vida não seria fácil depois disso. Em 1967, viajou com outros militantes para a China, onde se capacitariam militar e politicamente. Nessa viagem, teve seu passaporte (falso) apreendido sutilmente pela CIA em um dos aeroportos. Uma cópia do documento foi enviada ao DOPS: André estava “marcado”. Depois que o passaporte foi devolvido a ele, com um “desculpas pelo erro”, o grupo sabia que tinha algo errado. Como todos tiveram seus passaportes analisados, acharam mais seguro, na volta, entrar de forma clandestina ao Brasil. E foi o que fizeram.

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André no Araguaia

André chegou em 68 na região do Araguaia. A ideia era criar uma zona de refúgio no local, e fazer ações em cidades menores. Eles reconheciam que não era possível resistir nas zonas urbanas, já que nelas, a concentração de militares era maior. Por isso, era necessário agir a partir do campo. Zé Carlos, nome falso que André usava, era o comandante do Destacamento A.

No ano de 69, chegou à região a moça com quem André ficaria por três anos. Conheceu Criméia, que vinha de São Paulo. Ela sempre quis ficar no campo, e a chegada do AI-5 fez a sua vontade aumentar. Os dois se conheceram, se gostaram, e pouco tempo depois, já estavam namorando. No entanto, a direção do partido não gostou dos dois juntos: era o que chamavam de “peia”, outro nome para “obstrução”. Para os líderes, uma das maiores complicações de um relacionamento seria a gravidez, que deixaria o movimento com um membro a menos, e uma vida a mais para cuidar, no meio de uma situação como aquela. Mesmo assim, o pai de André, também da direção do PCdoB, não os impediu. O casal continuou vivendo junto. E Criméia engravidou.

Enquanto a mulher trabalhava também cuidando da saúde dos moradores, André era comerciante, e ficava na roça, plantando, colhendo, subsistindo. A caça fazia parte do treinamento guerrilheiro, assim como a sobrevivência naquele lugar, quase isolado. Moraram em casas simples de palha e pau-a-pique. Esse era o dia a dia deles no Araguaia.

- Ele era muito brincalhão. Nas festas, fazia mágicas para crianças, levava-as para passear de barco, ou ir a alguma praia nadar.

Nas horas livres, André também gostava muito de desenhar. Fazia charges e caricaturas que ironizavam a vida deles, as gafes, as besteiras que aconteciam. Quando alguém ia ao banheiro, provavelmente encontraria, entre os papéis higiênicos e pedaços de jornal, algum desenho do jovem, que os colocava lá, por diversão.

***

A última caçada de Zé Carlos

Em abril de 1972, os militares chegaram massivamente na região. Depois que Criméia foi para São Paulo, alguns meses depois dos militares chegarem à região, a luta pela sobrevivência continuava. André sabia que era um dos mais procurados, já que comandava um destacamento. Houve muitos confrontos, e os soldados iam às casa dos moradores do Araguaia para receber informações; às vezes, também recebiam alimentos. Lá, havia dois tipos de pessoas: os que forneciam informações aos militantes sobre os militares, e os que forneciam informações sobre os militantes aos militares.

Era o dia 14 de outubro de 1973. Zé Carlos, juntamente com os guerrilheiros Nunes, João, Zebão e Alfredo, foram buscar farinha em um depósito na região. Esse último queria muito que o grupo fosse com ele buscar alguns porcos que estavam próximos ao local, em uma roça. Mas Zé Carlos estava certo de que o Exército poderia muito bem ter uma emboscada pronta para pegá-los no lugar.

- A gente não vai morrer pela boca.

Mas no final das contas, eles decidiram passar lá na volta, caso não houvesse nenhum problema no caminho. Acabaram mudando de ideia, e foram buscar os porcos primeiro. Era de manhã, por volta das 9 horas, quando mataram os animais a tiros e os levaram para algum lugar limpo, a fim de cortar os pedaços.

Enquanto isso, alguns militares estavam descansando na mata, a certa distância dali. Não era perto, mas também não era longe o suficiente para que os tiros não fossem ouvidos por eles.

Depois de pelar os porcos e improvisar uma forma de carregá-los, já que o peso da carne quebrou as alças das mochilas, os militantes estavam prontos para buscar a farinha. Já iam saindo daquele lugar, quando um barulho estranho os alertou. João achou que fosse uma palha de coqueiro caindo no mato. Mas nunca esteve tão errado.

Assim que ouviram os tiros, os militares partiram na direção que julgavam ser de onde o som veio. Viram um grupo de homens com roupas e armas da Polícia Militar. Elas haviam sido roubadas em um posto policial na Transamazônica, alguns dias antes. Foi uma ação notória: os guerrilheiros incendiaram uma ponte na rodovia, e humilharam um sargento, obrigando-o a ir andando até uma cidade próxima usando apenas uma cueca. Para aqueles militares na floresta, deve ter sido incrível encontrar alguns participantes da ação ali, pegos de surpresa, carregando carne de porco. Abriram fogo contra eles.

Desprevenidos, Zé Carlos, Nunes, João, Zebão e Alfredo caíram na mira das metralhadoras furiosas dos agentes da repressão. Não conseguiram nem pegar suas armas para se defenderem. João foi rápido o suficiente para escapar e contar essa história depois. Os outros, segundo o Exército, foram todos mortos e enterrados em uma cova rasa, próxima ao local.

Mas se a história dos militares é verdadeira ou não, ninguém sabe. Depois de algum tempo, as covas foram procuradas, mas nada foi encontrado. A única certeza é que o jovem militante Zé Carlos, de nome verdadeiro André Grabois, não voltou para casa. Não reencontrou a mulher, não conheceu seu filho, não teve seu corpo encontrado e sepultado.

André desapareceu.

***

A mulher e o filho

Criméia Alice Schmidt de Almeida entrou na militância política logo cedo, aos 12 anos. Era o ano de 1958, pouco antes do começo da ditadura. Ainda havia uma certa liberdade de expressão, quando começou a participar de manifestações em prol da reforma agrária e melhorias na educação, em Belo Horizonte, onde morava. Naquele tempo, o sistema agrário na região era baseado em latifúndios: grandes pedaços de terra, muitas vezes grilada, pertencente a poucas pessoas, de grande poder. Com isso, o trabalho escravo e a distribuição injusta de terras eram pautas frequentemente abordadas nas manifestações. Quanto às escolas, a maioria era pública, e elas eram quase exclusivas da elite, já que os filhos de camponeses iam trabalhar logo aos cinco anos de idade.

- Eu consegui entrar na escola pública por esforço, porque não era fácil, e os professores também eram seletivos. Se o aluno se esforçava, eles ajudavam. Se era filho de camponês, e não tinha perspectiva, eles deixavam de canto.

Tinha também quem entrasse na escola pública graças a “maracutaias”: era um filho de senador, deputado, que conseguia vaga graças aos favores que o pai podia cobrar. Infelizmente, ao contrário desses jovens, o pobre que entrava por mérito incomodava a muita gente.

Em 1964, quando a ditadura chegou, já não tinha como ser de esquerda e não ser militante. No mesmo ano, Criméia sofreu um inquérito policial militar, acusada de organizar um movimento universitário, embora, na época, não estivesse na universidade. Com isso, ela foi para o Rio de Janeiro clandestinamente, onde entrou para o curso de enfermagem na UFRJ.

***

A primeira prisão de Criméia

O XXX Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), ocorrido em um sítio na cidade de Ibiúna, a 70km de São Paulo, foi palco de uma das mais notórias ações da repressão contra estudantes. O evento tinha como objetivo eleger o novo presidente da organização.

- Todo o processo de organização do evento foi muito conturbado. Além de você viver na ditadura, e a UNE ser clandestina, havia muita disputa no movimento estudantil.

Criméia, que naquela época fazia parte do PCdoB do Rio de Janeiro, apoiava Luís Travassos, que concorria contra José Dirceu. Por esse motivo, ela teve muitas dificuldades em chegar até o congresso, já que a maior parte dos estudantes que tinham detalhes sobre o evento apoiavam Dirceu, e havia uma certa hostilidade entre os dois lados.

- Você chegava em São Paulo, e alguém da sua tendência [política] falava: “olha, gruda nesse fulaninho aqui, porque ele é da tendência do Zé Dirceu, e ele vai”. Então você grudava na pessoa e era: “não te largo enquanto você não me levar lá!”

Assim, ela conseguiu ir até o Congresso, em um carro com mais quatro pessoas. Chegando lá, a situação do local era precária. Uma fazenda, num dia frio e chuvoso. As lideranças ficavam em casas, mas os demais participantes foram colocados, todos molhados e amontoados, em abrigos cobertos de lona.

- Eu descobri um curralzinho de ovelha e fui pra lá, na segunda noite. Não contei pra ninguém, e fiquei lá embolada com os carneiros, bem quentinha. Era fedido, mas quentinho, e coberto.

Criméia estava já sentada na locação principal, onde o congresso estava prestes a começar, quando os militares cercaram a área e renderam os estudantes. Na fila para serem colocados em ônibus e levados para a capital, a jovem sabia que deveria ficar junto com as mulheres da sua mesma tendência política. Ela caía no barro escorregadio, e ficava deitada, esperando a fila passar, até que aparecesse uma mulher. Aí, Criméia se levantava, e perguntava de qual estado ela era (para assim, saber de que lado ela estava). Quando encontrava alguém que apoiava Travassos, orientava a fazer a mesma coisa.

E assim foi. Suja de barro, e com os militares reclamando, Criméia conseguiu juntar uma turma, que acabou indo no mesmo ônibus. Lá dentro, elas decidiram que precisavam denunciar a prisão de alguma maneira, sem levantar suspeitas. O esquema era o seguinte, distrair o policial, verificar se tinha algum batedor por perto, e levantar na janela uma plaquinha, onde lia-se em batom: estudantes presos. Se algum batedor aparecesse, quem estivesse de vigia chamava o nome de alguma menina, e a placa era escondida novamente.

- Quem viu ou não viu, eu não sei te dizer. Mas quando chegamos ao DOPS, tinha um monte de gente lá.

No DOPS, Criméia estava na fila para fichamento junto com uma colega. A primeira sugeriu que as duas trocassem de lugar, assim as fotos e digitais ficariam invertidas. Então, quando o policial chamou uma, a outra foi, e vice-versa. Os policiais não desconfiaram de nada, mas isso deu problema para eles alguns anos depois, quando Criméia tornaria a ser presa.

Passaram uma semana no Presídio de Tiradentes, em São Paulo. No final desse período, foram levadas de avião ao Rio, onde ficaram encarceradas por mais uma semana, em um presídio feminino. Não houve torturas, apenas xingamentos e humilhações por parte dos militares:

- O diretor obrigava as presas a chamá-lo de “paizinho”, e vestir o uniforme, que era parecia escolar: era sainha azul, camisetinha branca, sapatinho. Eu falei: “olha, não vou te chamar assim porque você não é meu pai, e não vou vestir esse uniforme porque não estou na escola”.

Criméia ficou com a mesma roupa que usava quando foi presa, suja de lama, dura e fedendo, até conseguir outras vestimentas, trazidas por parentes de outras mulheres presas. Na cela, que tinha cerca de trinta pessoas, as beliches ficavam encostadas umas às outras, e o calor carioca de outubro só piorava as condições. Quando finalmente a liberaram, Criméia voltou a estudar normalmente.

Mas aí chegou o AI-5.

E Criméia não quis ficar para assistir. Ela já tinha conversado com o PCdoB anteriormente, sobre ir para o campo, onde começariam as lutas da esquerda. E eles concordaram em enviá-la para lá.

***

A ida e a vida no Araguaia

Logo no começo de 79, Criméia veio para São Paulo, iniciar sua jornada para o “campo”, que ela não sabia onde era. Foi recebida por membros do partido em um daqueles encontros em que você entra e sai de olhos vendados, por motivos de segurança. Eles lhe entregaram uma passagem de ônibus, cujo destino ela só saberia quando chegasse na rodoviária. Na primeira parada, um homem pagaria seu café: era um contato que a ajudaria na viagem.

- Clandestinidade é a pior coisa do mundo. Você tem que ter uma relação de confiança.

Chegando na rodoviária, Criméia viu para onde iria: Anápolis, em Goiás. Foi uma noite de viagem. Quando o ônibus parou pela primeira vez, pediu um café, esperando que o contato aparecesse. Ele apareceu. Era o homem que estava sentado do seu lado no ônibus. Provavelmente as passagens foram compradas juntas e ninguém percebeu. Seu nome era Paulo Rodrigues, e posteriormente, ele também desapareceria no Araguaia.

Já em Anápolis, os dois se encontraram com João Amazonas, militante da guerrilha. Criméia ficou com João. Fizeram compras que seriam levadas para abastecer os guerrilheiros, e partiram de ônibus rumo a Imperatriz, no Maranhão. Foram três dias viajando em estradas de terra enquanto a luz do sol durava, e parando para descansar à noite, em barracões de palha que existiam ao longo do caminho.

- É aqui?

- Ainda não.

Viajaram mais um dia inteiro de barco, e finalmente chegaram ao Araguaia. Lá, foram para a casa de André Grabois, uma das lideranças da guerrilha. Foi quando Criméia o conheceu.

Durante o tempo em que ficou lá, a jovem foi orientada a se passar por uma pessoa do interior, para não levantar suspeitas em caso de espiões: falar pouco, ouvir muito, e aprender bastante. Trabalhou na roça, no comércio e como agente de saúde, já que havia começado a faculdade de enfermagem. Começou a atuar nessa área depois de um caso interessante:

- Logo que cheguei, fui convidada a sentinela (velório) de uma senhora que morava na região. Levei café, polviho, pois o povo de lá era pobre, e como era um velório, queria dar minha contribuição. Cheguei lá, ela ainda estava viva. A sentinela era porque ela já estava morrendo. Aquilo me chocou muito. Fui conversar com a futura defunta (risos), e ela falou que tinha uma doença maligna, da qual não ninguém. Nunca tinha tratado malária, mas olhei a bula e fui tratar a mulher. A primeira coisa que fiz foi dar um remédio para febre. Ela disse: “Nossa, como tô ótima, você vai me curar!”. Comecei a dar os outros remédios, e ela se curou. Aí eu virei uma “curandeira”. Me tornei agente de saúde, e cuidava das pessoas.

Outro trabalho de Criméia eram as idas e vindas entre a cidade e o campo. Em 72, veio para São Paulo, onde teria o filho, e depois voltaria ao Araguaia. Chegando aqui, permaneceu na casa de sua irmã, Maria Amélia Teles (ou Amelinha). Como não podia sair, ficava cuidando dos sobrinhos, Janaína e Edson, de cinco e quatro anos. Mas seria por pouco tempo.

***

Prenderam Criméia novamente

Era final de dezembro, do mesmo ano em que Criméia chegou a São Paulo. César Teles, marido de Amelinha, precisava levar um amigo a um ponto. Os pontos eram locais de encontro com uma data e hora estabelecidos com antecedência, onde militantes trocavam informações, ou simplesmente confirmavam que estavam vivos e em liberdade. Ela decidiu ir junto, pois o marido estava doente. Observaram os arredores, como era sempre feito, e não encontrando nada estranho, deixaram o amigo próximo ao local. Mas tinha algo errado: alguém da resistência entregara o ponto, e os policiais já estavam a postos. O casal foi preso, embora parecesse, a princípio, que eles estivessem sofrendo um assalto, já que os militares estavam disfarçados.

- A gente sempre achava o seguinte: se não volta, é porque foi preso, foi morto, então a polícia pode chegar.

Eles não voltaram pra casa. Criméia estava lá com as crianças. Ela não tinha dinheiro, não tinha para onde ir, e pior: não sabia onde estava, já que a casa de Amelinha era um “aparelho” da resistência, ou seja, quem estivesse lá como protegido não deveria sair, e quando o fizesse, era com uma venda nos olhos. O local funcionava também como uma gráfica. Já sabendo que tinha algo errado, Criméia começou a destruir arquivos, jornais, tudo o que julgou como importantes. Foi a noite inteira queimando documentos, jogando-os na privada, fazendo o possível para destruir o que desse.

Com a iminência do perigo, as crianças foram orientadas a não dar qualquer informação a estranhos.

- Não dá pra explicar grande coisa a crianças de cinco anos. Eu ainda falei: “mesmo que eles venham com balinha, não dá papo”.

No dia seguinte, um casal estranho chegou à casa. Eram simpáticos, diziam ser do PCdoB, e alegavam que César havia sofrido um acidente e estava hospitalizado. Vieram com balinhas. Perguntaram se Criméia era babá dos pequenos, e ao que ela confirmou, começaram a fazer perguntas a eles. Quando um respondeu astutamente com um “não vou falar”, o tempo fechou, e toda a simpatia dos visitantes se esvaiu. O homem que fazia as perguntas ficou irritado, e outros homens, esses armados, entraram na casa. Grosseiramente, pegaram os três, e os colocaram no banco de trás de uma viatura. O assento estava cheio de jornais. Incomodado, Edson reclamava que tinha algo o machucando. Eles tiraram os jornais e encontraram metralhadoras, provavelmente esquecidas lá pelos militares. Rapidamente, elas foram tiradas de lá, e o trio foi levado para a OBAN (Operação Bandeirante, um dos centros de informação do Exército).

Chegando lá, não deram muita bola para Criméia, já que ela seria apenas uma babá, e levaram as crianças para reconhecer seus pais, já completamente desfigurados pela tortura que sofreram durante a noite. Os pequenos, para não serem abandonados ou levados para a FEBEM (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor), foram entregues a um cunhado de César, parente militar da família, que morava em Belo Horizonte.

A gravidez não foi um impasse para os torturadores executarem seu trabalho, tanto físico quanto psicológico. Inclusive, o próprio coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que dava as ordens, participou das sessões de tortura que a gestante sofreu.

- Eles sabiam que eu estava grávida, por isso não levei choque nas áreas íntimas, só nas mãos e nos pés, muito espancamento na cabeça, palmatória nas mãos e nos pés. Na barriga não, porque se a criança morresse, alguém poderia denunciar.

A ideia que Criméia teve em 68, quando foi presa no Congresso de Ibiúna, mostrou-se eficaz. Só depois de alguns dias os militares conseguiram identificá-la como uma das mulheres presas no evento, e supostamente participante da Guerrilha do Araguaia. Já que as investigações sobre o caso corriam em Brasília, a gestante foi enviada para lá, onde nasceria seu filho.

O nascimento de João Carlos

O parto foi um dos momentos mais difíceis que Criméia passou.

- A bolsa rompeu à noite. Avisei ao carcereiro que [a criança] já ia nascer, e eu precisava ser levada ao hospital. Com aquele líquido escorrendo, as baratas andavam pelo meu corpo.

Eles demoraram muito. Ao amanhecer, um médico do Exército chegou à cela para examinar Criméia. Ela rejeitou, pois não havia condições de conduzir o exame naquele local. O médico concordou, e depois de mais espera, chegou a ambulância que levaria a gestante até o Hospital de Base.

- Eu não sou torturador. Sou professor de obstetrícia da UnB, e você não está em trabalho de parto. Você é marinheira de primeira viagem, não sabe.

Mas Criméia sabia muito bem. Nos dias como agente de saúde no Araguaia, realizara vários partos, e tinha certeza de que o seu estava a caminho. Mesmo assim, o médico lhe aplicou uma dose de benzetacil, e pediu que ela fosse removida para a enfermaria. No entanto, ela foi levada de volta à cela.

Perdendo as esperanças, a futura mãe já se preparava psicologicamente para realizar o parto lá mesmo, sozinha, quando um preso comum da cela vizinha, encarcerado por tráfico de drogas, lhe sugeriu algo:

- Olha, se você não fizer escândalo, eles não vão te tirar daí. Então, começa a gritar que tá nascendo, que você tá morrendo de dor, e a gente grita junto.

E foi o que ela fez. Na cadeia é assim: quando um começa a gritar, o outro ouve, e grita também. E por aí vai. Depois de muito barulho, no final da tarde ela finalmente foi levada ao Hospital de Guarnição do Exército. O obstetra, Dr. Trindade, examinou a gestante:

- É, você está em trabalho de parto mesmo. Mas, como não estou de plantão, só vou fazer o seu parto amanhã à noite.

- Mas meu filho pode morrer nesse meio tempo.

- Isso não tem importância. É um comunista a menos.

O médico pediu que aplicassem nela um soro que retardaria o parto para o dia seguinte. Relutante, Criméia foi amarrada à maca, para que os enfermeiros conseguissem colocar o soro na veia dela. A ideia era, depois que eles saíssem, arrancar a agulha, e assim impedir o parto. Mas não seria fácil desamarrar-se sem levantar suspeitas, já que havia um soldado fortemente armado na porta. Com algumas dificuldades, ela conseguiu puxar o fio do soro e arrancá-lo com os dentes. Ficou toda molhada com o líquido, mas o efeito retardante do remédio foi cortado.

Já de madrugada, Criméia avisou que o bebê estava nascendo, fato confirmado por uma enfermeira. Foi chamado o obstetra, e quem apareceu foi o mesmo Dr. Trindade de algumas horas atrás, que havia alegado não estar em seu plantão. Começaria o parto, junto com mais barbaridades.

- Ele fez o epísio para o nascimento. Com as contrações, e tudo o que estava acontecendo, nem senti. Depois que nasceu, ele foi fazer a sutura, sem anestesia. Eu sentia uma dor terrível, e comecei a entrar em estado de choque por causa dessa dor.

Logo depois, eles aplicariam dolantina (um tipo de analgésico) em Criméia. Mais uma vez, ela não aceitou.

- Eu tenho que estar ligada. Até agora não vi meu filho, só ouvi o choro. Esses caras ficam ameaçando ficar com ele. Ainda não sei se é menina ou menino.

Ela lutou muito contra eles para não ser medicada. O guarda da porta apontava a metralhadora, como se uma mulher que acabou de dar a luz fosse capaz de dominar e matar vários médicos. Mesmo arrancando a agulha do braço toda vez que a enfermeira conseguia colocá-la, Criméia ficou afetada pela pouca quantidade de remédio que recebeu. Permaneceu consciente o tempo todo, mas não tinha forças nem para falar. Ainda assim, já no quarto, recebeu a visita de militares que faziam várias perguntas, para as quais ela não conseguiu dar resposta.

Foram 52 dias no hospital. Nesse meio tempo, ela também teve que brigar muito para conseguir ver o pequeno João Carlos. Nos primeiros dias, ele era levado até ela poucas vezes, não podia ser amamentado, e foi tratado de uma infecção nos olhos, provavelmente causada pelas complicações (quase propositais) do nascimento.

- Eles vinham me interrogar e eu respondia: “não vou falar nada enquanto meu filho não estiver em segurança.”. Aí eles diziam que iam levá-lo para a FEBEM, e tiravam-o de mim por dois, três dias. Depois disso, traziam ele com diarréia, vômitos.

Como João Carlos era o único bebê do berçário, Criméia pediu que ele ficasse com ela o tempo todo. Depois de um tempo, eles aceitaram, mas o esquema era o mesmo: quando haviam brigas entre ela e os interrogadores, a criança era tirada dela por um tempo. Quando era devolvida doente, eles diziam:

- É você que está torturando o seu filho, porque não está falando nada.

Ao final dos 52 dias, os militares avisaram Célia, tia de Criméia, sobre o bebê. Ela o levou para Belo Horizonte, e Criméia foi enviada de volta à cela, no Pelotão de Investigações Criminais, onde ficou por mais um mês.

Criméia em liberdade

Certo dia, ela foi levada em um carro por três agentes, vestidos de civis, para um lugar. Criméia achou que seria executada, a julgar pelos trajes deles. Mas na verdade, ela estava sendo libertada, graças a uma intervenção quase divina:

- Fiquei sabendo que a Anistia Internacional procurava o bebê de uma mulher que havia sido presa grávida.

Um advogado, que Criméia nunca chegou a conhecer, ficou sabendo do que acontecera com ela. Ele buscou a ajuda de um bispo no interior de São Paulo, que denunciou a prisão à Anistia Internacional, fato que ela só ficou sabendo em 1994:

- Na prisão eles veem homem, mulher, jovem, idoso, mas gravidez é um negócio que marca muito. Em qualquer convenção, por mais simples que seja, a prioridade são sempre as crianças e as grávidas. É a preservação da espécie, um direito natural. Se tiver um salvamento, a prioridade de quem faz o salvamento é a criança, a gestante, e depois a mulher, porque é mãe, pela dependência que as crianças têm da mãe. Sempre se faz isso.

A denúncia fez com que ela fosse libertada, depois de cinco meses de sequestro, sob alegações dos militares que o bebê era muito pequeno. Criméia não sofreu processo algum (pois seria fácil a defesa de uma grávida, e a Guerrilha do Araguaia “não existiu”, segundo eles), e foi escoltada até a casa da tia Célia, em Belo Horizonte.

- Olha, os comunistas querem matá-la, então não deixa ela sair, não deixa ela atender telefone.

A tia caiu no conto do vigário, e obedeceu. Os militares fizeram ela acreditar que a sobrinha corria um risco grande, e por isso tinha que tomar cuidado. A militante acabou em cárcere privado: não tinha documento, não tinha emprego, e estava fora da cidade onde tinha conhecidos.

Criméia sabia que precisava fazer alguma coisa para conseguir burlar a vigilância da tia e refazer sua vida. Numa madrugada, resolveu tentar ligar para um antigo colega de colégio, Atanagilde, que ainda morava em Belo Horizonte. Ele não era de esquerda, e tinha um pai delegado. Por sorte, o número de telefone ainda era o mesmo. A jovem pediu que ele aparecesse na casa da tia, sob o pretexto de buscar informações sobre Criméia e Amelinha. Como Atanagilde não tinha qualquer envolvimento com a esquerda, a tia consentiu na visita, e depois que o colega reencontrou Criméia, que “por acaso do destino” estava na casa, conseguiu permissão também para levá-la para passear. E foram nesses “passeios” que a militante conseguiu tirar novos documentos, e reorganizar sua vida.

Com a ajuda da tia, Criméia começou a procurar por Janaína e Edson, que ainda estavam com o tio militar. Até então ela não sabia disso, mas sabia que havia a possibilidade, já que, para os militares, deixá-las com outro militar seria mais confiável.

- Como ele negava, eu fui até lá, e encontrei as crianças.

O tio não deixou Criméia levar as crianças, e ameaçou denunciá-la de sua inidoneidade várias vezes. Por isso, enquanto não tinha meios legais de ficar com elas, Criméia pediu para ficar com os sobrinhos aos fins de semana, levá-los para passear. O militar concordou, desde que ela não revelasse que Amelinha e César estavam presos.

Mas ela falou. Para as crianças, os pais haviam entregue eles àquelas pessoas, então elas precisavam saber a verdade. Logo no primeiro dia ela explicou tudo, contou que o primo deles havia nascido, e os jovens aproveitaram para dizer que eram maltratados pelo tio.

- Eles dormiam em um quartinho trancado. Tinham medo, de noite não podiam levantar para fazer xixi, e temiam que ninguém voltasse lá para abrir a porta no outro dia.

Criméia orientou eles a não deixar que ninguém soubesse que ela contou tudo sobre os pais. Eles guardaram segredo, até onde deu. Um dia, o tio estava batendo em um deles, quando ouviu:

- Você faz isso porque meu pai tá preso, mas o dia que ele sair…

A essa altura, os documentos para a custódia das crianças já estavam quase prontos. Ela pegou Janaína e Edson para levá-los a um passeio. Falou que iria com eles passar as férias na fazenda de um amigo. E nunca mais devolveu-os.

A ditadura continuava firme e forte. Criméia queria voltar ao Araguaia, mas sabia que não era possível. Os planos de voltar para lá com o filho foram por água abaixo depois que ela foi presa, já que os militares estavam vigiando seus passos a todo momento, desde a saída da prisão. Durante todo esse tempo, não teve nenhuma notícia sobre o marido.

No entanto, no final de 73, alguns agentes foram à casa em que deixaram Criméia. Apresentaram-lhe um livro com várias fotos. Alguns rostos eram conhecidos, outros não. O de André estava lá: foi quando ela soube que tinha alguma coisa errada. Eles não disseram nada, apenas queriam que ela reconhecesse aquelas pessoas, o que ela não fez. A foto de André era aquela de quando ele foi para a China fazer treinamento: eles estavam monitorando o guerrilheiro desde 67. Em meados de 74, Criméia finalmente soube que seus instintos estavam certo. Ouviu, em uma rádio albanesa (comunista), que houve um combate no Araguaia, em que guerrilheiros foram pegos desprevenidos no meio do mato. André estava no combate. Não se sabia nada sobre o destino dele.

Depois disso, Criméia viveu em vários lugares, “vários tipos de vida”. Foi para São Paulo viver com a irmã e o cunhado, já soltos. Foi para o Rio de Janeiro, depois para São Paulo novamente, onde voltou a estudar enfermagem. Pediu transferência para Paraíba, e lá terminou o curso, em 79. Conseguiu um emprego na área em São Paulo, e por aqui ficou, onde exerceu a profissão até a aposentadoria. Com a anistia, as coisas ficaram mais brandas, e a vida, menos difícil. Mas André ficou em sua memória, e nada do que aconteceu seria esquecido.

***

Justiça

Em 2005, a família de Criméia e Amelinha entrou com uma ação civil declaratória, a única do gênero, contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável pelas torturas. Eles ganharam o caso, e o coronel foi o primeiro oficial militar reconhecido pelo Governo como torturador da ditadura militar.

Em 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos e a Organização dos Estados Americanos julgou o Caso Araguaia, em que os militares brasileiros reprimiram duramente os militantes de esquerda que planejavam uma revolução socialista na região norte. O Estado Brasileiro foi responsabilizado pelo desaparecimento de 70 pessoas e a impunidade em relação aos crimes cometidos na época. Foi condenado a, entre outras coisas, investigar, processar e sancionar todos aqueles que foram responsáveis pelos desaparecimentos. Até hoje, os familiares aguardam pelo cumprimento da pena.

A justiça pelo desaparecimento de André tarda a acontecer. No entanto, ainda que ele seja esquecido pelo Estado, Criméia sempre se lembrará do jovem alegre que conheceu e amou. E João Carlos jamais se esquecerá de que seu pai morreu lutando pela vida e pela liberdade.

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