Lagoinha, Carlos Prates e Bonfim agora são patrimônios históricos de Belo Horizonte

Imóveis com construções historicamente culturais do bairro Carlos Prates. Respectivamente nas ruas, Tremedal, Tremedal, Lambary e Espinosa — Fotos de Elisa Senra.

Os bairros Lagoinha, Carlos Prates e Bonfim, na Região Noroeste da capital mineira, foram tombados pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte na quarta-feira, 21 de dezembro de 2016. A justificativa para o tombamento patrimonial é a proteção e preservação do acervo arquitetônico, que é de grande relevância para a história da cidade.

O tombamento de bairros protege edificações que são de extremo valor para a história da capital mineira. Há ainda a implantação de regras para as novas construções nos bairros. Mas se engana quem pensa que o tombamento está ligado somente a preservação de imóveis, há também a preservação de patrimônio material e imateriais.

O patrimônio material é formado por um conjunto de bens culturais classificados como: arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico e belas artes. Cidades como Ouro Preto (MG), Carlos Prates (MG), Olinda (PE) e Paraty (RJ) são alguns exemplos.

Os bens culturais imateriais estão relacionados às crenças e às práticas. Desta forma podem ser considerados bens imateriais: cotidiano das comunidades; manifestações literárias, musicais, rituais e festas que marcam a vivência coletiva da religiosidade, do entretenimento e da vida social. Festa do Círio de Nossa Senhora de Nazaré (PA), a feira de Caruaru (PE), o frevo e a capoeira, são alguns exemplos de bens imateriais.

Segundo o presidente da Fundação Municipal de Cultura (FMC), vinculado a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Leônidas Oliveira, “o tombamento pelo patrimônio histórico representa um desenvolvimento para a cidade”.

Praça 12 de Dezembro, tombada, no bairro Carlos Prates — Fotos de Larissa Andrade.
Paróquia Nossa Senhora das Dores, tombada, no Bairro Lagoinha — Foto de Elisa Senra.

História

Nos primeiros anos da nova capital de Minas Gerais, a região da Lagoinha serviu como polo de fixação para os imigrantes que não conseguiram se instalar dentro dos limites da Avenida do Contorno. Entre as décadas de 1910 e 1920 foi introduzido um ramal férreo, que permitiu o desenvolvimento comercial na região.
 
 O bairro do Bonfim abriga o Cemitério do Bonfim, o mais antigo da cidade. Fundado no em 1897, lá se encontram lápides esculpidos por artistas italianos. Além do cemitério, observa-se no Bonfim um grande número de residências e prédios comerciais que seguem traços arquitetônicos diferenciados, o que o distingue de outros bairros de Belo Horizonte. Assim também ocorre no Bairro Carlos Prates, que também é contemplado pelo projeto.

O perímetro tombado passa também pela Pedreira Prado Lopes, adere o lado direito da avenida Antônio Carlos, no sentido Centro, passa pelo Bonfim e chega ao Carlos Prates.

“A história de Belo Horizonte começou por aqui. A Lagoinha foi o primeiro bairro operário da então nova capital de Minas, e estamos felizes com o resultado”, destaca Teresa Vergueiro, presidente do Movimento Viva Lagoinha, iniciativa que luta pelo reconhecimento da importância histórica do bairro.
“Faremos reuniões com os moradores para que entendam melhor sobre esse processo. Há muita vantagem em ter a edificação tombada”, garantiu o presidente da FMC, Leonidas Oliveira.
Imóvel tombado serve como local para bar no bairro Bonfim— Foto de Mike Faria

Opiniões divididas

Uma das pessoas que ainda precisa de orientações sobre o tombamento é o mestre em Filosofia e morador do bairro Carlos Prates, Thiago Teixeira, que mesmo apoiando o tombamento, ainda tem muitas dúvidas e inseguranças quanto a medida.

“Acredito que todo processo de preservação da nossa memória é louvável. Contudo, torço para não sofrermos com preços exorbitantes, dos imóveis e do básico no cotidiano. Espero também que se resgate o cuidado com a segurança e trânsito do bairro que, a cada dia, se tornam problemas mais agudos. Além disso, o funcionamento do aeroporto me preocupa.” ressalta.

Quanto ao funcionamento do Aeroporto Carlos Prates, continua com os voos normalmente. Não tendo sido tombada, não houve nenhum tipo de mudança ou alterações no aeroporto que iniciou suas atividades em janeiro de 1944 a fim de receber a aviação geral de pequeno porte e helicópteros, além de ser um pólo formador de profissionais da aviação.

Já o aposentado José Dias, e morador do Carlos Prates há 13 anos, não concorda com a medida que não foi previamente anunciada aos moradores.

“Não fui informado por nenhum veículo de comunicação interna do bairro. Apenas pelas grandes mídias, depois que o tombamento já tinha acontecido. Eles (órgãos responsáveis) parecem não dar a assistência necessária para manter e conservar os imóveis tombados. Aqui no bairro parece que só uma casa foi reformada, e as ruas continuam mal cuidadas”, afirma.

Segundo Leonidas Oliveira, “a divulgação da medida foi feita nas mídias da Prefeitura de Belo Horizonte, além do dossiê completo que está no site da PBH” contou.

O aposentado José Dias, na porta de sua casa, observa o movimento da rua Lambari, no Carlos Prates.

Condições

Com o tombamento, regras para novas construções no perímetro da Lagoinha, Bonfim e Carlos Prates deverão ser respeitadas. A altimetria, por exemplo, é uma delas. A definição levará em conta a proximidade de bens culturais, topografia e visibilidade da Serra Curral.

“Varia de 7 a 27 metros, dependendo da área onde será erguida a edificação”, explica o diretor de Patrimônio Cultural, órgão vinculado à Fundação Municipal de Cultura, Carlos Henrique Bicalho.

Outra diretriz apresentada é a restauração dos imóveis que foram reformados clandestinamente e tiveram a construção original modificada. As estruturas originais deverão ser recuperadas. Porém, o diretor afirma que são menos de dez unidades nessa situação: “Vamos averiguar e tomar medidas necessárias para a regularização de tudo”.

Padaria Flôr de Lys, com arquitetura histórica cultural, também foi tombada no bairro Carlos Prates — — Fotos de Larissa Andrade

Dificuldades no registro da Associação de Bairros

No Carlos Prates, os moradores enfrentam o problema da falta da associação oficial, o que dificulta a assistência com as demandas e necessidades a serem discutidas e melhoradas. No entanto, ela é uma espécie de pessoa jurídica, formada pela reunião de pessoas que se organizam com uma finalidade específica, comum, e sem fins lucrativos, conforme estipula o artigo 53 do Código Civil.

No caso das associações de moradores, a sua finalidade essencial é atuar nas áreas culturais, desportiva e, ainda, a recreativa, visando a representação junto aos órgãos públicos, na busca por melhorias ou relato de problemas sociais.

Ela “nasce” com a inscrição do seu ato constitutivo no registro, no caso, o Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas da comarca em que a Associação tem sede. O ato constitutivo é a Ata de Fundação, junto ao Estatuto Social, documento que estipula as regras internas da Associação.

Segundo Mara Andrade, participante do grupo de moradores e amigos do bairro Carlos Prates, a associação poderia estar registrada, mas qualquer alteração geraria novos custos e apenas por este motivo, a oficialização fica difícil.

‘‘Quanto a aumentar o número de membros, não temos pessoas interessadas em participar. Algumas participam das reuniões, mas não se interessam em fazer parte do grupo. O nosso grupo ainda não é registrado por falta de membros, pois somos só cinco pessoas’’, acrescenta ela ao relatar a dificuldade de formar um conjunto de pessoas para coordenar a associação.

Já Lorraine Ferreira, moradora do bairro há dois anos e estudante de arquitetura e urbanismo da PUC Minas, conta que fez seu trabalho de conclusão de curso (TCC) sobre o bairro Carlos Prates e ainda que participou apenas de uma reunião do grupo formado pelos habitantes do bairro.

‘‘A associação não é oficial, é um grupo de moradores e amigos que se uniram para discutir e tentar trazer melhorias para o bairro’’, comenta ela ao mostrar a situação atual da associação formada na região.
O repórter Mike Faria, enquanto analisa o dossiê de tombamento dos bairros — Foto de Elisa Senra.

Carlos Prates tem destaque no carnaval de BH

O bairro Carlos Prates chama atenção pela sua arquitetura antiga. Mas, desde 2010, o bairro tem marcado presença no carnaval de Belo Horizonte, com o bloco “Por Acaso” e desde 2015 com o bloco “Pisa na Fulô”.

“Por Acaso” já foi vencedor quatro vezes e sempre traz temas referentes à cultura de BH. O bloco foi criado em 2008, mas se destacou em 2010. Nesse ano o bloco fez ensaios abertos no Carlos Prates, com grande participação dos moradores da região.

Enquanto o bloco “Por Acaso” tem como objetivo realizar grandes desfiles, o bloco “Pisa na Fulô” tem outra intenção. Desde 2015, o grupo se reúne em praças abandonadas do bairro. “É um lugar mal iluminado e perigoso à noite, porque é um ponto de uso de drogas”, Fernando Soutto, morador da região.

Com isso o objetivo do bloco é trazer movimento para esses locais e fazer com que a população desfrute os espaços públicos.“Queremos revitalizar a praça. Por isso, a gente espera que o bloco seja da comunidade, e não de uma multidão de fora”, diz Christiano de Souza regente do bloco, que fundou o grupo a partir de uma oficina de percussão.

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Reportagem de Elisa Senra, Larissa Andrade e Mike Faria. Disciplinas Jornalismo Especializado e FotoJornalismo — 3º período de Jornalismo da PUC MINAS.
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