Wilco: uma música por disco
Aconteceu. Na quinta-feira, dia 6 de outubro, eu saí da casa do meu irmão às 18h, peguei um Uber e cheguei ao Circo Voador por volta das 18h20. Fui a primeira a chegar à fila do show mais esperado dos últimos 11 anos e pude ficar debruçada no palco em frente ao vocalista. O Wilco, que não vinha ao Brasil desde 2005, finalmente parou de torturar as pessoas e resolveu fazer três shows de uma vez. Aquele ali era o primeiro. E o único que eu iria assistir.

O nervosismo e o frio na barriga que senti foram bem parecidos com os que me afligiram quando fiz as seleções de mestrado e doutorado. Uma sensação de que tudo convergia pra um momento específico que parecia enorme quando descrito em números (em geral os shows deles têm 2h30, o que é bastante), mas que na verdade iria voar quando começasse.
Foi também o primeiro show que fui assistir sozinha, o que explica talvez minha tentativa desesperada de fazer amigos na fila (se tem alguém lendo que estava lá, desculpa mesmo) — no fim, não hesitei em abandoná-los na hora que o show começou e ficar ali vivendo aquilo por mim mesma.
Acho que já temos relatos suficientes pra dar conta do que foi o show, então dá pra resumir bem rapidinho: setlist maravilhoso, banda impecável, público sensacional. Foi basicamente isso. Mas também foi muito mais. E embora tenha encontrado compatibilidade entre várias coisas que senti e o que li por aí, acho que cada um tem também sua experiência individual. A minha pode ser resumida num acontecimento muito simples que não precisa ter muitos rodeios: eu chorei.
“Ah, Larissa, mas você é chorona”. Sim e não. Pra show, estou mais pro não. Normalmente fico arrebatada de felicidade e rindo igual besta. Não que eu não tenha feito isso (Jeff deve ter rido de mim em algum momento), mas o grande momento do show pra mim se resume a ouvir o acorde inicial de Jesus, etc, agarrar o palco e gritar com todas as minhas forças enquanto chorava. Foi delicioso.
(Pra entender minha maluquice: http://bit.ly/2ds1Hlc)
Saí do show com uma leveza absurda no peito. Acho que coloquei muita coisa pra fora com aquele grito. Não sei nem nomear o quê. Desde então estou obcecada com textos sobre o show e sobre a banda, e hoje li um texto que fazia uma seleção das músicas essenciais deles, por assim dizer, escolhendo uma por disco. Como eu discordei de algumas escolhas (embora o texto seja muito bom!), e ainda não tinha escrito sobre o show, e preciso continuar falando sobre o assunto com pessoas que estejam interessadas (porque a maioria das pessoas que eu conheço não está), resolvi fazer a minha lista pessoal. Bora lá.
A.M. (1995): Box full of letters
Mais do que qualquer coisa, essa música marca a sonoridade deliciosa desse disco. Acho impossível passar batida por ela quando ouço o cd, embora ele seja o mais distante do estilo de música que curto e ainda tenha uma pegada bem country.
Minha parte favorita: I just can’t find the time / to write my mind / the way I want it to read
Being there (1996): Misunderstood
Talvez esse seja o caso mais incrível de músicas que mudam do estúdio pra versão ao vivo. Em shows, Misunderstood é uma das canções mais potentes da banda e envolve o público de forma única, mas no cd não é tão interessante sonoramente falando. Mas escolho ela tanto pensando na versão ao vivo quanto na letra, que é uma das minhas favoritas.
Minha parte favorita: you’re back in your old neighborhood / the cigarrettes taste so good / but you’re so misunderstood / there’s something there that you can’t find / you look honest when you tell them a lie / you’re so misunderstood
Summerteeth (1999): Can’t stand it / A shot in the arm
Impossível escolher uma! Can’t stand it carrega uma simbologia enorme pra mim, por ter sido a primeira música que ouvi do Wilco, além de ter uma guitarra potente e uma letra também maravilhosa, o que compartilha com A shot in the arm. Sem dúvida são as melhores músicas do cd, que tem ainda outras maravilhosas, como Via Chicago e Summerteeth.
Minha parte favorita: you know it’s all beginning / to feel like pretending / no love’s as random as my love / I can’t stand it || the ashtray says you were up all night / and you went to bed with your darkest mind
Yankee Hotel Foxtrot (2002): I am trying to break your heart
Não escolhi Jesus, etc porque já falei sobre ela aqui e todo mundo já sabe que ela é minha música favorita (não do cd, não da banda, mas da vida). Então escolhi essa que foi uma das primeiras que ouvi e que acho que representa muitíssimo bem o auge do Wilco: barulho e letras que não fazem sentido, mas que ao mesmo tempo fazem. Não é uma música fácil de se gostar se você está ouvindo a banda pela primeira vez, mas não conheço um fã que não tenha ela entre as favoritas.
Minha parte favorita: I wanna hold you in the Bible black pre-dawn / you’re quite a quiet domino / burry me now / take off your band-aid cause I don’t believe in touchdowns / what was I thinking when we said hello?
A Ghost is Born (2004): Company in my back
Essa é uma escolha difícil porque eu não tenho muita ligação afetiva com esse álbum. Ignorei a existência dele no início da minha relação com a banda e só fui ouvir depois, quando já era apaixonada pelo YHF e pelo álbum seguinte, então ele ficou meio perdido ali no meio. Mas essa é uma música que eu sempre gostei e pra mim ela traduz muito bem a capa do disco: ela é simples, com poucos elementos, e um elemento forte em destaque. A voz do Jeff, rouca e engasgada, é o centro da música e está extremamente afinada com a letra.
Minha parte favorita: you learn so slow, old radiant beauty / I’ll curve my flight / under your bended knee / and I will always die
Sky Blue Sky (2007): You are my face
Que DISCÃO DA PORRA™, esse. Ele e o YHF disputam o primeiro lugar no meu coração. Ele tem uma pegada bem mais calma, embora ainda carregue muito da melancolia dos discos anteriores. Mas é como se a tristeza assentasse e ficasse à vontade. E isso resulta em músicas maravilhosas, como Impossible Germany, Either way e Hate it here. Mas que musicão da porra que é You are my face. A letra, a melodia, as guitarras inesperadas, tudo. Tudo.
Minha parte favorita: I trust no emotion / I believe in locomotion
Wilco (The Album): I’ll fight
Esse disco não me pegou muito, mas essa música é daquelas que parecem ter sido pensadas especificamente para virarem hinos em shows. A letra é primorosa e, assim como Company in my back, a estrela é a voz do Jeff, que é uma das minhas vozes favoritas do mundo.
Minha parte favorita: And you’ll sing to yourself / the rising falling melody / that you could never read / without the choirs’ lead / still alone and lost in deep / and your soul will not be free
The Whole Love (2011): Art of almost / Dawned on me
Não consigo escolher só uma porque acho que essas duas representam dois lados do Wilco que me agradam muito. Art é barulhenta como as músicas do YHF e do AGIB, e pouco focada na letra, enquanto Dawned lembra os momentos mais pop de Summerteeth.
Minha parte favorita: I heard a faint old age true love / but I had other ways to help myself / like calling I could open up my heart and fall / and I blame it all on dust, the art of almost” || “I’ve been young / I’ve been old / I’ve been hurt / and consoled / heart of coal / heart of gold / so I’m told
Star Wars (2015): The joke explained
Confesso que não tinha ouvido esse cd até anunciarem o primeiro show no Brasil — mas não sei por que, já que sou dessas que marca data de lançamento na agenda. Ele é um dos que menos gosto, mas essa é uma música que sempre se destacou pra mim, não tanto pela letras mas muito pela sonoridade, que às vezes me lembra Bob Dylan.
Minha parte favorita: oh but if I had known / if I had known / if I had known / I would have never believed
Schmilco (2016): Someone to lose
Ao contrário do Star Wars, eu baixei o Schmilco assim que foi lançado e me dediquei a ouvir religiosamente. Embora o primeiro contato tenha sido frio, talvez pela pegada bem acústica, ele foi aos poucos crescendo na minha mente, a ponto de eu pular minhas músicas favoritas pra ouvir as novas. Quero (e vou) escrever um texto desenvolvendo minha ideia sobre o álbum, mas por enquanto digo que ele tem letras lindas (embora pesadíssimas), embaladas por melodias deliciosas que grudam na nossa cabeça. E embora eu tenha várias favoritas (ouçam Happiness e Nope), acho que essa é por muito pouco a melhor.
Minha parte favorita: I’m so confused / I can’t move / I can’t even try / I hope you find / someone to lose someday
No dia seguinte ao show, eu postei no twitter e no facebook basicamente o mesmo texto: algumas coisas precisam ser ditas bem claramente pra que todos entendam, e uma delas é que Wilco é a melhor banda da atualidade. Não é minha favorita, mas é a melhor. Assistir ao show foi uma confirmação e revisitar a discografia nesse texto foi outra. Wilco é a melhor banda da atualidade. Apenas aceitem.
Não resisti e criei uma playlist com as minhas favoritas de cada cd. Deixei muita coisa de fora porque senão coloco o álbum todo, mas ficou assim: