V de Verdade

Foto de Anfiska Pritchard
“Entre o certo e o errado, existe um caminho. Te encontro lá”. Rumi

Decidi estrear minha contribuição pra este blog com esta frase do poeta sufi Rumi, que explodiu minha mente. O que é certo e o que é errado? A verdade é uma ilusão? Um lugar seguro culturalmente, da qual compartilhamos conscientemente? O que perdemos quando nos encerramos em uma verdade absoluta? E que lugar é este que Rumi descreve como um tentador ponto de encontro?

De primeira, esta frase do Rumi me soou como um convite para me libertar do peso de carregar uma verdade absoluta. De ter sempre uma resposta. De não me permitir escutar verdadeiramente outras verdades. Me provocou a pensar no que eu perco quando adentro qualquer experiência com um ponto de vista blindado e petrificado. De tudo que eu posso viver com medo de ser inconsistente.

Segundo a Teoria U, uma metodologia que aborda a co-criação de soluções sitemicas para problemas complexos, nosso modelo mental é a chave para que possamos transformar a nós mesmos e o mundo. Em outras palavras, precisamos tomar consciência das nossas crenças limitantes, abrir a mente e o coração a outros pontos de vista, com escuta ativa e empatia, para assim deixar emergir o novo e um ponto de vista verdadeiramente coletivo e criativo.

Alguns amigos também ofereceram outras reflexões sobre a frase de Rumi, e permiti combiná-las para ampliar essa troca.

_A armadilha da verdade nos levaria ao julgamento. Se definimos o que é certo e errado, é muito mais fácil julgar a nós mesmos e aos outros. A verdade absoluta então nos censuraria e nos afastaria do que é diferente.

_Esse julgamento nos colocaria que é errado mudar de opinião, ser inconsistente e paradoxal, e perderiamos a chance de ser um metamorfose ambulante (e um maluco beleza).

_Ao aceitar que nunca estamos totalmente certos ou errados poderiamos nos perdorar mais quando erramos, e não nos aprisionariamos em uma única verdade.

_O lugar da dúvida é saudável e tá tudo bem assumir que não temos todas as respostas. Fomos ensinados que não podemos perder ou errar, mas sabemos o quanto aprendemos com nossos erros. Uma ideia que pode parecer “errada” muitas vezes nos leva ao caminho de uma boa idea. Esse modo “beta” de viver é o que nos permite evoluir, prototipando e iterando o tempo todo.

_Não existe um único caminho da verdade pra todos, cada um faz a sua jornada e ela deve ser autentica, fazendo sentido pra voce. Precisariamos nos libertar de verdades impostas pela cultura predominante.

_A vida muda o tempo todo e nós tambem, as experiencias vão ampliando nossas perspectivas.

Mas e se a minha verdade não for igual a do outros? O que é esse ponto de encontro que Rumi descreve, entre o certo e o errado?

A rigidez e muitas vezes nosso ego nos impede de ampliar nossos horizontes e ouvir e ver o outro. Parece que a gente se encontrar genuinamente com o outro quando a gente abre o coração e se liberta das nossas verdades absolutas, com desejo de escutar e acolher o que nos é diferente, assumindo que não somos os donos da verdade.

Esse encontro no meio do caminho é pra mim a abertura do amor. Uma “zona desmilitarizada”, onde a gente descansa da guerra entre um lado e outro para viver o meio-termo, o equilíbrio. Neste processo, confiar em si e no outro é fundamental para experimentar e errar.

Mas como viver sem certezas? Segundo a Teoria U, temos dificuldade de desapegar de nossas opiniões e crenças devido as vozes do julgamento, do ceticismo e do medo. Mas a beleza da evolução parece estar no que deixamos morrer e no que deixamos nascer, no fechamento de ciclos. Nossa abertura para desapegar das crenças, pensamentos e julgamentos é o que permite o novo emergir.

Talvez o caminho mais fluido de se viver esse mundo VUCA — volatile, unpredictable, complex and ambiguous, seja nos preparar para mudar junto com ele, assumindo que referencias antigas já não servem mais pra antecipar esse futuro complexo e exponencial. O passado não é mais um lugar seguro.

Cabe a nós termos consciência das nossas crenças limitantes, das nossas verdades que nos afastam do eu, das verdades empurradas pela cultra que estão em desconexão com nossa essência, do ego que nos afasta do outro…e a generosidade de nos permitir mudar de opiniao, para talvez entao chegarmos a esse tal caminho com a nossa unidade, que acredito que Rumi falava.

Que tenhamos muitas verdades, e que duvidemos de todas!

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