Como prevenir o bullying online com um comentário no Facebook

Tradução livre do artigo Want to help prevent online bullying? Comment on Facebook de Nadia Goodman no IDEAS.TED.COM.

Como editora de mídias sociais do TED, eu tenho visto muitos comentários desagradáveis. Já vi homens e mulheres adultos ridicularizarem uma menina de 14 anos por causa do vestido que ela escolheu. Já os vi se dizerem revoltados por causa de uma linda mulher trans. Em cada “talk” sobre raça, eu os vi atirar comentários racistas. Mas nada tinha sido tão ruim como os comentários que recebemos quando publicamos o TED Talk de Monica Lewinski, O preço da Vergonha. Pelo menos no começo.

Quando Monica falou no TED2015, realizado em março, em Vancouver, o público na sala a recebeu calorosamente e com generosidade. Muitos que tinham reservas foram tocados pela palestra dela. Nós vimos essa gentil, vulnerável e forte mulher que queria ser ouvida — uma mulher que sabia o que estava em jogo pelas vítimas da humilhação pública e que esperava profundamente que entendessem a mensagem dela corretamente. Por ser alguém assustada por anos de abuso público, nós demos a ela um espaço seguro.

Quando publicamos a palestra dela na internet alguns dias depois, a segurança que tínhamos criado saiu pela janela.

Tão logo o “talk” foi para o Facebook, em um tempo insuficiente para que alguém realmente tivesse visto os 20 minutos de vídeo, os comentários foram invadidos por virulência e ódio. Pessoas a chamavam de “puta” e “uma vagabunda”, faziam piadas sobre chupar pau, e diziam que ela merecia a humilhação porque “vergonha é uma parte importante de como moldamos nossa cultura.” Atacavam o caráter dela, a aparência, as escolhas e até o direito dela de viver. Um comentarista a culpou pela derrota da Al Gore em 2000 e pelos ataques de 11 de setembro.

Eu normalmente sou casca-grossa para comentários desagradáveis. Nessa profissão, a gente tem que desenvolver isso, embora, naturalmente, eu me orgulhe muito pouco de ter comentaristas que dizem para eu enfiar uma arma na minha boca e explodir minha cabeça, como já aconteceu no passado. Mas nada me preparou para isso. Um bombardeio de negatividade derrubou minhas defesas, expondo um lado tão cruel, sem sentimentos e implacável da humanidade que elevou a minha sensação de vazio existencial.

Enquanto eu lia centenas de comentários odiosos, eu de repente percebi que eu estava sendo submetida a uma pequena fração do que Monica vivenciou todos os dias desde que tinha 24 anos, essencialmente todos os dias de sua vida adulta. Eu só posso começar a imaginar como esses comentários cheios de ódio devem ter afetado profundamente o amor-próprio dela. Nós todos percebemos nossa auto-estima abalada quando nos sentimos insultados ou desrespeitados. Mas ter o mundo inteiro te insultando na sua cara — por 17 anos? Isso é um outro nível de abuso.

Quando meu chefe me perguntou como iam os comentários, eu caí no choro. Aquele momento profundo que Monica tinha tido com nosso público ao vivo havia sido destroçado, e eu estava batalhando para manter o espaço seguro dela.

Ainda assim, nós perseveramos. Tínhamos três pessoas monitorando os comentários, e nós fomos deliberadamente agressivos com a moderação.

O foco da palestra dela era o perigo do bullying digital; o que nós seríamos se simplesmente fornecêssemos um fórum de alto nível para os “haters” a atacarem violentamente?

Nós deletamos quaisquer comentários que atacassem, desrespeitassem ou a humilhassem, e nós respondemos os comentários positivos para que eles fossem puxados para cima do tópico no Facebook.

Claro, algumas pessoas não entenderam. Uma mulher ficou furiosa porque estávamos deletando os comentários “anti-Monica”, como se fosse aceitável atacar quem Monica é, como pessoa. Outros acharam que nós estávamos censurando a liberdade de expressão, uma liberdade que eles parecem sentir que não deve satisfação ao dano que pode fazer a outro ser humano.

Então, uma coisa interessante aconteceu. Depois de horas gastas promovendo os comentários positivos e removendo os mais brutos, a corrente começou a mudar. As pessoas começaram a escrever coisas como “Mulher forte. Minha primeira reação foi negativa antes até de clicar no link — então percebi que esse era exatamente o ponto e a razão dela ser a pessoa perfeita para dar essa palestra”. Ou “Política à parte, eu respeito o fato que a senhorita Lewinsky agora está exigindo escrever a própria história. Nós deixamos que a vergonha silencie nossas histórias com muita frequência”. A enxurrada de comentários cruéis secou pouco a pouco.

No caso de Monica, nos tomou muito mais tempo e trabalho, mas geralmente é assim que lidamos com os comentários negativos. Quando nós deixamos claro o que é ou não é aceitável, o tom realmente muda. As pessoas que querem compartilhar comentários reflexivos começam a se sentir bem-vindas, e as pessoas que querem semear ódio começam a perceber que não são. Isso pode não mudar a reação das pessoas, mas com certeza muda a amostra das vozes que escolhem falar.

Eu penso nesse momento de mudança radical como a imunidade do grupo. As vozes positivas, quando há suficiente delas, mantém as abusivas afastadas, como a população majoritariamente vacinada protege aqueles que não são. Juntos, nós temos o poder de proteger os mais vulneráveis entre nós.

Esse fenômeno é a mensagem de Monica em ação. Ela nos pede que sejamos “upstanders”, para falar por e defender aqueles que são vítimas da cultura da vergonha. Ninguém merece ser a “letra escarlate”* e quando nós fazemos as pessoas pagarem um preço público pelas ações privadas, nós demonstramos uma falha radical na empatia. Quando nós falamos por elas, com algo simples como um comentário de apoio no Facebook, nós deixamos claro que nossa cultura não é um espaço para vergonha e humilhação pública.

Tem uma linda fala de Monica nessa palestra:

“Nós falamos muito sobre o direito da liberdade de expressão, mas precisamos falar mais sobre nossa responsabilidade com a liberdade de expressão.”

É tempo de assumirmos essa responsabilidade.

*A expressão significa um símbolo visível de que uma pessoa fez algo errado, um estigma. Tem origem no costume puritano que exigia que de pessoas que cometeram adultério usassem um A vermelho como colar como pena pelo que tinha feito.

Imagem via iStock, por Emily Pidgeon/TED.
Publicado originalmente no
ideas.ted.com em 27 de Março de 2015.