Uma coisa que as mulheres fazem todos os dias e você não sabe

Texto original publicado em inglês por Gretchen Kelly. Tradução livre por Larissa Brainer.

Tem uma coisa que acontece sempre que falo ou escrevo sobre questões das mulheres. Coisas como formas de vestir, cultura do estupro e sexismo. Eu recebo comentários: Não existem coisas mais importantes para se preocupar? Isso é realmente um problema? Você não está sendo sensível demais? Tem certeza que você está sendo racional sobre isso?

Todas. As. Vezes.

E todas as vezes eu fico frustrada. Por que não entendem?

Eu acho que descobri a razão.

Eles não sabem.

Eles não entendem abrandamento. Minimização. Submeter-se quietamente.

Poxa, mesmo as mulheres vivendo, nós nem sempre temos consciência disso. Mas já fizemos.

Todas nós aprendemos, seja por instinto ou por tentativa e erro, como minimizar uma situação que nos faz desconfortável. Como evitar deixar um homem bravo ou nos colocar em perigo. Todas nós, em várias ocasiões, ignoramos um comentário ofensivo. Todas nós banalizamos uma investida inapropriada. Todas nós engolimos a raiva quando fomos diminuídas ou condescendentes.

Não é bom. É repulsivo. Degradante. Mas fazemos porque não fazer pode nos colocar em perigo, ou nos fazer ser demitida ou chamada de puta. Então, normalmente escolhemos o caminho de menor precariedade.

Não é algo sobre o qual falamos todos os dias. Não contamos aos nossos namorados, maridos e amigos sempre que acontece. Porque é tão frequente, tão onipresente, que se tornou algo que simplesmente administramos.

Então, talvez eles não saibam. Talvez não saibam que na tenra idade de 13 anos, fingimos que não vemos um homem adulto encarar nossos peitos. Talvez não saibam que homens da idade dos nossos pais nos abordam enquanto trabalhamos no caixa. Eles provavelmente não sabem que o cara na aula que nos chamou pra sair mandou mensagens agressivas só porque não aceitamos os convite. Eles talvez não tenham consciência que nosso supervisor regularmente dá um tapinha na nossa bunda. E certamente não sabem que na maioria do tempo nós sorrimos, com dentes trincados. Que nós desviamos o olhar ou fingimos não ver. Eles provavelmente não têm ideia do quão frequente são essas coisas. Que isso virou rotina. Tão previsível que nós quase nem notamos mais.

Tão previsível que nós monotonamente ignoramos e minimizamos. Sem demonstrar nossa raiva reprimida, o medo e a frustração. Um rápido sorriso amarelo ou risada sem graça vai nos permitir continuar o dia. Nós abrandamos. Nós minimizamos. Interna e externamente, nós minimizamos. Temos que. Não dar de ombros iria nos colocar em modo de conflito mais amiúde do que a maioria de nós sente que pode aguentar.

Aprendemos muito cedo como fazer isso. Não nomeamos ou rotulamos essa atitude. Nós sequer consideramos que outras garotas estavam fazendo a mesma coisa. Mas estávamos nos ensinando, nos tornando mestras na arte do abrandamento. Aprendendo por observação e cálculo de risco quais deveriam ou não ser nossas reações.

Nós repassamos um rápido checklist mental. Ele parece volátil, bravo? Há outras pessoas em volta? Ele parece ponderado e está só querendo ser engraçado, ainda que sem noção? Dizer algo vai refletir na minha reputação na escola/no trabalho? Em questão de segundos nós determinamos se vamos dizer algo ou deixar passar. Se vamos chamá-lo à realidade ou virar para o outro lado, sorrir polidamente ou fingir que nós não vimos/ouvimos/sentimos.

Isso acontece o tempo todo. E não é sempre claro se a situação é perigosa ou benigna.

É o chefe que diz ou faz algo inapropriado. É o cliente que segura a gorjeta fora do alcance até que nós nos curvemos sobre ele para "abraçá-lo". É um amigo que bebeu demais e nos encurrala para um momento "amigos com benefícios" mesmo que tenhamos deixado claro que não estamos interessadas. É o cara que fica com raiva porque rejeitamos um encontro. Ou uma dança. Ou uma bebida.

Nós vemos acontecer com nossas amigas. Nós vemos acontecer em tantos cenários e instâncias que se tornou a norma. E nós realmente não pensamos sobre isso. Até aquele momento que chegamos perto de uma situação arriscada. Até que ouvimos que aquele "amigo" que nos encurralou foi acusado de estupro um dia depois. Até que o chefe cumpre a promessa de nos beijar na véspera de Ano Novo, quando ele nos encontra sozinhas na cozinha. Essas vezes marcam. São aquelas em que talvez nós contemos para nossos amigos, nossos namorados e maridos.

Mas e todas as outras vezes? Todas as vezes que ficamos nervosas e desconfortáveis mas nada mais aconteceu? As vezes em que apenas deixamos pra lá e não pensamos duas vezes.

É a realidade de uma mulher no nosso mundo.

É banalizar machismo porque sentimos que não temos outra opção.

É se sentir fisicamente mal porque temos que "levar na boa" para ficar na boa.

É sentir humilhação e arrependimento de não ter cortado o cara, aquele que parecia intimidante mas provavelmente não faria nada. Provavelmente.

É pegar o telefone, dedo em cima do botão "Ligar" quando estamos andando sozinhas à noite.

É posicionar nossas chaves nos dedos para o caso de precisarmos de alguma arma quando sairmos do carro.

É mentir e dizer que temos namorado para que um cara aceite o "Não" como resposta.

É estar em um bar/show ou qualquer evento com muita gente e ter que virar para procurar o babaca que acabou de meter a mão na sua bunda.

É saber que mesmo que nós o encontremos, talvez não diremos coisa alguma.

É andar por um estacionamento e educadamente dizermos "Olá" quando um cara passa e diz "Oi". É fingir não ouvir enquanto ele berra conosco por não ter parado para continuar a conversa. "O quê? Você é boa demais para falar comigo? Você tem algum problema? Puta".

É não falar a nossos amigos e nossos familiares ou maridos porque é um fato da vida, uma parte do cotidiano.

É a memória daquele dia que fomos abusadas, assediadas ou estupradas que assombra.

São as histórias que nossas amigas nos contam, de coração partido e em lágrimas, daquela vez que foram abusadas, assediadas ou estupradas.

É perceber que os perigos que nos perseguem toda vez que temos que escolher confrontar essas situações não existem só na imaginação. Porque nós também conhecemos muitas mulheres que foram abusadas, assediadas ou estupradas.

Me ocorreu recentemente que muitos caras podem não ter consciência disso. Eles ouviram falar de coisas que aconteceram, eles provavelmente devem ter visto em alguns momentos e interferiram para impedir. Mas eles possivelmente não têm ideia do quão frequentemente isso acontece. Que isso determina muito do que nós dizemos ou fazemos e como fazemos.

Talvez tenhamos que explicar melhor. Talvez precisemos parar de ignorar isso dentro de nós mesmas, de minimizar em nossas próprias mentes.

Os homens que dão de ombros ou desconversam quando uma mulher fala sobre machismo na nossa cultura? Não são maus. Só não viveram nossa realidade. E nós não falamos dessas coisas cotidianas que presenciamos e vivemos. Como eles poderiam saber?

Talvez os bons homens nas nossas vidas não tenham ideia que nós lidamos com esse tipo de coisa regularmente.

Talvez seja tão normalizado que não tenha nos ocorrido que podemos contá-los.

Me ocorreu que eles não sabem o escopo disso e não entendem nossa realidade sempre. Então, sim, quando eu sou fico brava depois de algum comentário sobre o vestido justo de alguma menina, eles nem sempre entendem. Quando eu perco a cabeça por causa do machismo diário que vejo, testemunho, assisto… quando estou ouvindo as coisas que minhas filhas e as amigas delas estão vivendo… eles não percebem que isso é uma pequena parte de um iceberg bem maior.

Talvez eu esteja percebendo que não se pode esperar que os homens entendam quão onipresente o sexismo diário é, se não falamos a eles e apontamos quando acontece. Talvez eu esteja começando a perceber que homens não tem ideia que mesmo para entrar em uma loja as mulheres ficam na defensiva. Temos que estar atentas, subconscientemente, do que nos cerca e quaisquer possíveis ameaças.

Talvez eu esteja começando a entender que apenas dar de ombros e não fazer disso um problema não vai ajudar ninguém.

Nós abrandamos.

Nós somos precisamente cientes da nossa vulnerabilidade. Conscientes de "se eles quisessem"? Que aquele cara do estacionamento poderia nos subjugar e fazer o que quisesse.

Homens, isso é o que significa ser mulher. Somos sexualizadas antes mesmo que a gente entenda do que se trata. Nos transformamos em mulheres enquanto nossas mentes ainda são inocentes. Ganhamos olhares e comentários antes mesmo de aprender a dirigir. De homens adultos. Nos sentimos desconfortáveis mas não sabemos o que fazer e seguimos a vida. Nós aprendemos muito cedo que confrontar toda situação que nos faz encolher é muito possivelmente nos colocarmos em perigo. Nós temos consciência que somos menores, o sexo fisicamente mais fraco. Que os meninos e homens são capazes de nos subjugar se quiserem. Então abrandamos e minimizamos.

Desse modo, na próxima vez que uma mulher falar sobre cantadas de rua e como elas incomodam não ignore. Ouça.

A próxima vez que sua esposa reclamar sobre ser chamada de "Querida" no trabalho, não dê de ombros apaticamente. Ouça.

A próxima vez que você ler sobre ou ouvir uma mulher apontar uma linguagem sexista, não a diminua por isso. Ouça.

A próxima vez que sua namorada te contar que o jeito que um cara falou a fez se sentir desconfortável, não deixe pra lá. Ouça.

Escute porque sua realidade não é a mesma que a dela.

Escute porque as preocupações dela são válidas e não exageradas.

Escute porque a realidade é que ela ou alguém que ela conhece pessoalmente foi em algum momento abusada, assediada ou estuprada. E ela sabe que sempre há o perigo de acontecer com ela.

Escute porque até um simples comentário de um homen estranho pode causar arrepios de medo nela.

Escute porque ela pode estar tentando fazer com que a experiência dela não seja as das filhas dela.

Escute porque nada ruim pode vir do fato de ouvir.

Apenas. Escute.

Este texto foi publicado originalmente em inglês por Gretchen Kelly. Tradução livre por Larissa Brainer.