Esse é um daqueles textos que a sua interpretação fala mais sobre você do que dele mesmo

Saindo do restaurante e pronta para seguir viagem, tenho uma surpresa: no meio da terra fosca, um brilho dourado insistia em reluzir. Quase que engolido pelo solo, um anel com três pedrinhas brilhantes e aro amarelo chamou minha atenção. Dentro dele havia uma gravação “Simone ❤ Betinho”. Não era um simples anel, era uma aliança.

“Mãe, olha! É uma aliança!”, disse eu. Com certeza Simone ficou furiosa com algo que Betinho fez e tinha despachado sua aliança ali na hora da briga. Isso sempre acontece, consegui até imaginar a mulher descobrindo uma traição, talvez; tirando o anel do dedo e jogando no chão. Betinho teria ficado tão atônito com aquela cena, que mal percebeu que a aliança caríssima que havia comprado três anos atrás estava, naquela hora, no chão. Ele tentou ir atrás dela, mas Simone já havia entrado no carro do casal, dado a partida e deixado Betinho a pé no meio da BR. Eu já adorava Simone, era mulher de atitude.

“Ih, coitado de quem deixou isso cair aí”, disse meu pai. Deve ter tirado a carteira do bolso e não percebeu que a aliança estava lá também. Por um descuido deixou o anel cair no chão e o perdera. “Mas se estava no bolso era porque já ia aprontar. Lugar de aliança é no dedo”, minha mãe queixou. Simone provavelmente se encontraria com um amante no restaurante. Ela saiu de casa com a aliança no dedo, tirou-a no meio do caminho e, ao chegar ao seu destino, estrategicamente localizado na BR onde não tem muito movimento, deixou cair do bolso a prova do crime ao pegar a carteira. Para o meu pai, Simone era distraída. Já minha mãe, a achava muito mau caráter.

“Quem chama Betinho? Que espécie de nome é esse?”, dessa vez quem dizia era minha irmã. Betinho não era nome para se colocar em uma aliança, essas coisas são sérias, não pode colocar o apelido. Por que não colocou Beto? Roberto? Alberto? Ou seja lá qual for o nome da criatura. Bet️inho era, no mínimo, inadequado. Só por aí já dava pra ver que uma das pessoas não estava levando o relacionamento muito a sério. Beto/Roberto/Alberto, vulgo Betinho, não era uma pessoa muito séria e madura para minha irmã. E isso não era lá um problema muito grande.

“Mas o que a gente faz com isso?”, perguntou minha mãe. “Vamos levar pra casa e vender”, respondeu meu pai. “Ou a gente pode fazer um post no Facebook para procurar a pessoa que perdeu” sugeriu minha irmã. “Ah, vocês quem sabem…”, disse eu enquanto experimentava em qual dedo o anel se encaixava melhor. Ou seja, nenhuma conclusão.

O que aconteceu depois foi que resolvemos ir embora com o anel. Junto da aliança, levávamos várias versões de Simone e Betinho. Várias histórias possíveis. Levávamos esta crônica. Até que a aliança deu certo no meu dedo anelar da mão esquerda. Será que fica caro mudar meu nome para Simone? Bom, isso eu não sei, mas vai ser difícil achar um Betinho com que eu possa me casar.