Miopia
Cais da Elis começou a tocar. Eu acendi a luz do quarto pra começar a escrever, mas parei na janela pra ver os pássaros dançarem pra mim. Eu sempre faço isso, desde quando eu tinha 8 anos e me mudei pra cá, eu gosto muito da vista da minha janela. Nas férias de escola, eu passava as noites acordada pra poder chegar de manhã e começar a fotografar os passarinhos nas árvores do vizinho. Eu nunca gostei do canto deles e já fui chamada de insensível por isso. Mas a delicadeza de todos me encantam. Parei na janela e o pôr-do-sol tá rolando lá fora, minha hora preferida do dia. Mal notei e comecei a chorar, é lindo demais. Vi as andorinhas e as maritacas voarem e passarem pelo horizonte lindo que eu vejo daqui, um campo cheio de árvores. Às vezes eu imaginava que eu era uma versão gigante de mim mesma que caminhava por ali e pegava as árvores com as pontas dos dedos. Eu sempre me imaginei ali e nunca fui pra lá, talvez eu nem vá, porque não sei onde fica. Isso me frustra. Assim como todas as vezes em que eu estive sem óculos e não pude enxergar esse horizonte e essas árvores. Eu odeio ter miopia, mas odeio ainda mais não me lembrar de olhar pra lá.
