Quando nós viramos nossas próprias inimigas

A competição entre nós mulheres está arraigada no pacote de costumes que recebemos desde a infância. Essa rivalidade quase visceral se propaga em peças publicitárias, em ensinamentos dentro de casa, em filmes, desenhos animados, livros de literatura. Parando para refletir constatamos que a lista é realmente longa.

Eu me lembro daquele sentimento de “tenho que ser mais do que ela” constantemente e isso foi realmente cruel durante a minha adolescência. Essa máxima foi um instrumento de controle recorrente entre ex-namorados, dessa forma meu ciúme era provocado conjuntamente com a errônea certeza de que os homens que estavam comigo eram maravilhosos por gostarem de mim, já que haviam outras mais bonitas do que eu.

Com o meu ingresso na universidade conheci uma palavra interessante e por mais problematizável ela seja em certos contextos, para algumas coisas ela foi revolucionária: SORORIDADE. Sim, eu comecei a entender, mesmo que timidamente, a importância das mulheres terem empatia umas pelas outras. Sempre culpei muitas mulheres pelo fracasso dos meus relacionamentos heterossexuais, quase me esquecendo do papel da figura masculina naquelas situações.

Ainda estou trilhando o caminho da desconstrução e confesso que lá no fundo, quando bate aquela pontinha de ciúmes, ainda corro para bisbilhotar a vida da “outra” com aquele perigoso intuito de encontrar aspectos favoráveis para a minha própria pessoa. Sigo no aprendizado de me impor quando necessário, de não deixar que me inferiorizem e hoje já percebo um desprendimento maior se comparado aos meus surtos de insegurança.

Essa semana me deparei com uma situação engraçada, um outro rolo do meu affair atual deu às caras nas minhas redes sociais, esses acontecimentos já figuravam entre lembranças de um passado não tão distante na minha vida. Como num passe de mágica elas voltaram à boiar na superfície, aí eu vim escrever um “textão” né, essa minha mania de problematizar tudo às vezes rende umas lições interessantes.

Embarquei na onda de bisbilhotar o perfil alheio buscando entender o acontecimento, até mesmo porque estava relativamente satisfeita com a recente capacidade de administrar os lances afetivos que adquiri. Por mais que o primeiro impulso fosse o de me provar algo, consegui ser fria com aqueles sentimentos. Constatei que a menina é muito bonita e apesar de possuir características físicas que sempre me geraram insegurança, não me senti pior.

Isso mesmo, não me inferiorizei! Vasculhando aqueles cantos desconhecidos eu senti compaixão, uma certa vontade de conversar sobre o todo. A moça bonita, que para mim sempre foi ameaçadora, agora estava ali do meu lado, era como se eu quisesse abraçá-la para dizer : miga, você não está sozinha. Eu torço muito pra que ela um dia possa conhecer o feminismo, não é um movimento perfeito não, tem muitas coisas erradas inclusive, mas talvez seja muito importante para libertar as asinhas de um pássaro que ainda não sabe que pode voar.

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