Fazendo as pazes com minha amiga Constância

Constância é uma mulher madura, em todos os sentidos que você pode entender com essa definição e, principalmente os que você não pode.


Ela tem cabelos longos grisalhos e fortes, nunca os cortou por vontade própria (não podia se esperar algo mais coerente para uma pessoa com esse nome ). Quando criança chorava na cadeira do barbeiro ou quando sua mãe insistia em podá-los — Era assim que ela se sentia, uma árvore sendo podada. Na adolescência ganhou o direito de decidir sobre suas madeixas e, nunca mais mudou um fio de lugar, nem ousara pintá-los, não tinha apelo fashion ou crise que a fizesse mudar.

Só agora com a idade, que os fios brancos vieram iluminar aquela densa escuridão de sua abundante madeixa. E ela não luta contra eles, assim como nunca lutou contra o tempo, ela nunca se opõe a corrente da vida.

Foi hoje olhei seu rosto, numa foto e, não sei porque me espantei ao perceber que o tempo quase não passou para ela. Tem gente que é assim parece que vai ter a mesma idade para sempre — às vezes até parece que rejuvenesce — ela é assim e, tenho para mim que descobri o segredo, só agora : é sua serenidade.

Estou tentando lembrar, para te contar, quando foi a última vez que nos vimos. Mas acho melhor começar do começo!

Constância e eu, como tudo começou.

Eu bem adepta de dramas, intensas variações de humor, profundos sentir desde a unha do pé até o apertar dos olhos para escorrer a última lágrima, não vivo sem um drama por uma semana pelo menos, crio alguns só para poder encenar minha melhor interpretação do sofrer. Quanto a ela, só respira fundo quando algo desagrada e tudo a sua volta se congela. Quando feliz, seu sorriso vem dos olhos, sendo mais expressivo que minhas maiores gargalhadas.

esse é o segredo, quase nenhuma ruga.

Já dá pra entender como somos diferentes, não sei nem como construímos uma amizade, digo amizade mais nem sei se é a melhor definição para o que temos, não é o tipo de amizade comum. Talvez por convivermos desde a minha infância, nossas histórias vão se ligando de um jeito que é maior que a gente, maior que nossa afinidade- que na maioria das vezes é nula, diga-se de passagem. Andamos sempre paralelas, sempre tão distantes, mas lado a lado, ao alcance dos olhos e, com certeza foi por insistência dela, que até hoje nos falamos.

mas quando crianças eu quem insistia.

Quando criança ela era a última amiga que eu recorria para brincar, ela não gostava de corridas, disputas, não gostava de passar trote, e perdia horas arrumando os brinquedos ao invés de sair de fininho como uma criança normal faria — Ai, como ela me irritava! mas o mistério do seu olhar sempre me intrigava, ela parecia estar em outro mundo por diversas vezes.

Eu era fogo, com os pés na terra, e cabeça nas nuvens, e era lá nas nuvens que eu sempre a encontrava. Eu me via na obrigação de salva-la, sacudi-la de seu marasmo, eu insistia porque achava que ela deveria ser mais ativa como eu, ser mais criança. Os adultos, acirravam as comparações — Seja mais como fulana, seja menos como ciclana! Num jogo que só servia para deixa-los em paz e, não terem que lidar com nossas personalidades tão difíceis de administrar.

Ela não era muito de arriscar nem experimentar, parecia decidida para tudo ou as vezes só fazendo por fazer. Eu era decidida também, mas mudava de decisão a cada estação, tinha um hobby por mês, uma nova paixão por ano.

Quando fui sem ela.

Começamos as aulas de ballet juntas mas logo vi a turma do jazz e pareciam ter passos muito mais livres. Tomei a decisão de mudar de turma quando a professora falou a palavra “disciplina” pela primeira vez — Fugi. Lembro de falar para ela que ia mudar e, ela responder que ia continuar (previsível). Sei que ela não gostou da novidade, tínhamos feito tudo juntas até então, ela teria que fazer novas amigas — que para ela era um peso para mim era a parte mais legal.

Foi assim que começamos a construir parte das nossas vidas uma sem a outra.

Assim comecei as aulas de jazz, e na mesma época as aulas de natação também — porque além de mudar de ideia toda hora eu também gostava de fazer tudo ao mesmo tempo — Depois tive que escolher entre um ou outro e, minha paixão pela água desde que criança era a dica certa que esse era o caminho, disse adeus à dança. Lembro de me sair bem nas provas mas as aulas eram sempre muito cedo. Na real o verdadeiro motivo lembro bem, aos 11 anos meus ombros largos não pareciam uma característica feminina atraente (tenebroso ter uma percepção disso nessa idade) e continuar a natação seria moldar um corpo que eu não seria aceito pelos meninos — tchau natação.

Foi quando abriu aula de capoeira na escola e,eu tinha certeza que tinha nascido com ginga para aquilo, jogando meu corpo num mortal, tocando berimbau e cantando na roda. Mas esse tiquedum -dum, só durou até eu descobrir que meu animal favorito (da vez ) era o cavalo. Iniciei as aulas de equitação, me sentindo uma amazonas, corajosa domando um animal selvagem e competindo em provas, com certeza eu tinha me encontrado.

Na mesma época também comecei a construir meu gosto musical, e os cds de “sandy e junior” não paravam de tocar na sala, eles eram a segunda voz dos meus primeiros shows na sala, para os encontros de família. Estava clara minha vocação para a música (ou era a melhor solução para os ouvidos dos espectadores) e assim foi, em 2 meses de aula de canto, tão curto ensinamento quanto meu talento.

Talvez minha arte fosse mais silenciosa e foi ai que comecei minhas aulas de pintura mas, todas aquelas regras sobre pintar o fundo primeiro, esperar a tinta secar e continuar no outro dia — ninguém tinha me falado que dava tanto trabalho aquelas pinceladas do Van Gogh — era demais para minha paciência, eu queria mais é ser uma impressora a jato das imagens da minha cabeça.

Alguns anos se passaram no meio de todas essas tentativas

No final de cada dia, eu chegava depois de todas essas aventuras e tentativas e contava para Constância, que quase nunca tinha novidades e era uma boa ouvinte, talvez por isso. Me fazia bem compartilhar minhas frustrações entre cursos abandonados pela metade e o começo de novas aventuras que prometiam superar as anteriores. Para ela, sei que era quase como ler um livro antes de dormir, “ desventuras em séries de Larissa”.

Enquanto eu me perdia cada vez que achava que tinha me encontrado, Constância, tinha dado sequência as aulas de ballet. Eu já estava com 16 anos, com uma vasta experiência multidiciplinar de coisas pela metade, que não me dava um título de nada e, ela vestia a tão desejada sapatilha de ponta, ela era bailarina.

Eu entendi, Constância.

Foi no caminho para uma de suas apresentações que ela me convenceu a retomar o ballet, estava ajudando nos preparativos da sua fantasia e me dirigi para a entrada da platéia e ela para a coxia — Ano que vem você vem por aqui ta!?, ela disse — Eu aceitei mas, dessa vez eu estaria em outra turma, não era mais possível alcançá-la

Então no ano seguinte, nos apresentamos no mesmo festival, ela era a principal personagem. E foi nesse dia, que comecei a entendê-la, consequentemente aprecia-la e, fatalmente me distanciar.

Olhei ela no palco e, não era mais aquela menina sem-graça de poucos amigos e pouca conversa. Aquela que dizia que tava tudo bem, não tinha preferência pelo suco com ou sem açúcar, com gelo ou sem gelo, que dizia tanto faz. Aquele “tanto faz” que ela dizia, me revoltava, “ como alguém pode ser tão em cima do muro?” , eu sempre cheia de opiniões, gostos, posicionamentos, provocações, brigas achava que a graça estava na variação.

Quantas vezes eu a provocava — Desembucha, fala, pede, faz alguma coisa menina! — Por vezes como mãe mandona, e noutras como irmã caçula pentelha.E agora eu sei, que aquelas coisas todas não eram importantes, minhas tempestades eram realmente em copo d’ àgua, me envergonhei de mim.

Agora vejo, que ela tem uma alma antiga, ela soube tudo antes de mim, ela sempre fez exatamente o que quiz, mesmo sem bater o pé, e eu nunca soube o que queria exatamente.

Esse foco ou assertividade, dela é algo difícil de entender, não que ela sempre tenha razão, não que ela não tenha tido seus desafios e falhado por vezes mas , ela sempre soube a hora de ir e a hora de parar, tão consciente de si e de suas verdades. Eu tentava me encontrar e, ela nunca tinha se perdido. Eu vi a sabedoria de Constância, em ficar, em ser ela mesma, em manter

Mantenedora, era isso que me vinha a cabeça naquela hora em que eu começava a decifra-la. Lembrei daquela mochila velha que ela tinha desde o tempo da escola, que por vezes tentei jogar fora insistindo em comprar-lhe uma nova de presente — Não desperdice seu dinheiro, eu gosto dela, ainda está boa.

Posso apostar que ela ainda tem, até hoje, o allstar vermelho que compramos juntas. O meu joguei fora, quando comecei a usar salto e ir para festas, o dela deve estar lá, cheio de histórias, remendado, o que dá mais charme ainda à ele. A jaqueta jeans, com minha assinatura e rabiscos. A bota caramelo de couro que ela comprou numa loja de produtos pecuários (gosto peculiar), que fica mais bonita conforme o tempo passa, assim como ela.

Quando eu a entendi, ela me olhou como se tivesse se apresentado pelo primeira vez. Eu não pude lidar com ela, me afastei.

No ano seguinte, entrei para faculdade de moda — teria algo melhor para alguém tão inquieta como eu? — mudei para a cidade grande e ela ficou. Fez faculdade de letras — brinquei que o ponto alto da sua profissão seria a mudança das regras ortográficas, uma dose de maldade nos lábios selou nossa ultima conversa.

Aceitei, Constância.

Anos se passaram, por alguma vezes meu mundo girava tão rápido que precisava de abrigo e queria correr para a casa dela — um pequeno sítio da família que ela tomava conta.

As vantagens de ser tão previsível como ela, é que eu sabia que iria encontrá-la se fosse sábado na hora do almoço, seu dia preferido para cozinhar para amigos e familiares. Não fui, só imaginei.

Teve um dia que até acabei indo, como se nada tivesse acontecido, como que não lembrasse que tinha algo mal resolvido, como pecadora diante de um padre, eu desabafava sobre mim mesma, ela me aconselhava, me pedia calma, paciência, disciplina e eu prometia seguir, mas agente sabia que minha natureza não erra essa.

Essas palavra nunca me acompanhavam por muito tempo.

Eu sempre quiz mais, eu queria viver todas as emoções que existem, conhecer o mundo, ter mil historias de amor, queria viver como nos filmes de ação, com romance e com comédia, e suspense, e tudo ao mesmo tempo e, pra já. Eram tantos desejos em mim, e eu tentei tantos. Culpa da imaginação fértil que só sabe plantar mas, não volta para colher.

Talvez a única coisa que eu tenha feito continuamente na vida,foi tentar. Me perguntam quem sou eu? Já não sei responder. Quando olhei para ela, hoje na foto, vejo o sentido dos seus passos, tudo faz sentido nela, para ela, assim como nos ciclos da natureza. E eu tô aqui descobrindo a calma, a pacîencia, a disciplina para encontrar o que faz sentido para mim.

A gente fez as pazes mas não teve conversa. Ela não precisa que eu diga nada, eu é que precisava fazer as pazes com o que sinto sobre mim, e que ela me desperta. Ela só precisa que eu a entenda e, hoje posso dizer que ofereço mais que isso, eu a aceito. E agora sim, somos amigas de verdade e posso expressar o verdadeiro amor que sinto por ela. Posso admitir que, quem eu sou hoje, já não é mais tão diferente do que ela é, e fico feliz por isso.

Que tudo que me irritava nela, eram aspectos meus que eu não conseguia lidar, que no fundo talvez nossa natureza é a mesma, ela descobriu antes que não dá para lutar contra o rio e eu to aprendendo a não discutir sobre o curso que ele toma e só seguir.

O que eu tenho de Constância?

Eu sempre estou tentando! Ainda que desista de fazer uma nova tentativa, pois talvez, seja hora de não tentar mais nada. Eu ainda sim não escapo, de estar tentando algo novo, de novo.

p.s : se não fosse por ela não teria conseguido finalizar esse texto, espero que ela continue me acompanhando!

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