Análise: A Maldição da Residência Hill

“A Maldição da Residência Hill” tem sido muito comentada em redes sociais e não só pelo público de terror. A série traz um roteiro ambíguo com simbolismos e uma semiótica muito singular que se torna necessária uma análise completa.

A Maldição da Residência Hill que chegou na Netflix dia 12 de outubro de 2018, tem uma aprovação de 97% no Google e 92% no Rotten Tomatoes. Série criada por Mike Flanagan e baseada no livro de mesmo nome de Shirley Jackson, de 1959 e é a terceira adaptação de audiovisual da obra. Com um orçamento não divulgado mas especulado em 150 mil dólares por episódio, tem Michiel Huisman, Carla Gugino, Henry Thomas e Elizabeth Reaser no elenco principal.

Para quem gosta de terror, drama, suspense e para quem gosta de tudo isso unido é um prato cheio. A série tem um plot comum, recursos de direção clichês e os jumpscares tem um péssimo timing mas “Residência Hill” nos apresenta uma forma de terror, uma daquelas que te faz ficar carregado, sentido e parte disso se dá ao trabalho do elenco que foi brilhante. Ela fundamenta-se em seguir o lado oposto: sempre vemos os acontecimentos com o sobrenatural mas nunca vemos como isso afeta na vida daquelas pessoas, como eles lidam com os traumas e os demônios que os marcaram. Ao fim dos 10 episódios a sensação é de fazer parte da família Crain mas também a sensação é de ter sido sugada, um grande cansaço e um vento gélido quase cortante.

A série cumpre tudo que propõe, ela causa terror, ela te deixa ansioso e apreensivo, te faz amar e odiar os personagens, te faz sentir uma emoção e tristeza enormes, mas não seria justo não comentar sobre a direção.

“Residência Hill” tem uma estética fria quando fala do presente, muita utilização de azul, os tons mais diversos azulados, quase esverdeados que remetem a um lago ou rio sujo e gelado. Todos os ambientes da série são grandes, espaçosos que dizem muito sobre as lacunas que seus traumas impõe nas vidas dos personagens, até mesmo a casa da Theo, que é basicamente uma kitnet no porão da irmã tem posicionamentos de câmera que dão a impressão de ser um lugar maior assim como o hotel em que os irmãos ficam juntos. Nas cenas de 1992 a estética é quente, os tons são amarelados como se fosse sempre calor mas desde essa época, vê-se o distanciamento se agravar conforme eles ficam na casa mas claro, sem comentar os incríveis plano sequência especialmente do aclamado episódio 6, que é um episódio de mais de 50 minutos e conta com apenas 4 cortes.

A Netflix liberou um vídeo mostrando como foi feito o episódio, os equipamentos, profissionais e técnicas:

Mesmo sendo passada nos anos 90, a direção de arte utiliza peças que trazem um aspecto antigo, muitas vezes até vitoriano para ajudarem a contar a história da casa.


*análise com spoilers*

Algumas frases e cenas são importantíssimas para entender todas as camadas da série. A primeira delas, é quando Olivia diz a Theodora que as mulheres da família são sensitivas, que ela e sua mãe tem “poderes” especiais e o roteiro nos prova isso:

Olivia Crain

A mãe dos Crain tem o poder de se conectar com os mortos. Ela sofre com dores de cabeça cada vez mais intensas e que crescem com maior velocidade a cada momento que ficam na casa, como se ela sentisse uma pressão. Os mortos dizem a ela o futuro dos filhos na cena em que Luke e Nell estão na cama, ainda crianças, falando de um pesadelo hipotético assim como os mortos dizem a ela o que sentir, como quando ela acredita que o marido a vai trair. Isso se deve porque ela pode se conectar com os mortos, essa pressão a faz desassociar da realidade e perder a noção do que é real e do que é um sonho. Sua profissão traz uma conexão única com a casa, ela a evidencia quando diz a Shirl que “uma casa é como o corpo de uma pessoa. As paredes são como os ossos. As veias são o encanamento. Ela precisa respirar. Precisa de luz e fluxo e tudo atua em conjunto para manter a nossa saúde e segurança lá dentro”, isso combinado ao seu poder, a torna a primeira vítima da casa, a primeira a ser levada.

Shirley Crain

A irmã mais velha tem a capacidade de ver a alma deixar um corpo. Não necessariamente a alma mas o momento em que aquele ser torna-se uma memória, um corpo a ser velado, e não mais uma pessoa. Isso acontece nas duas vezes: quando ela está prestes a encarar a morte pela primeira vez e precisa enterrar o gatinho; e quando está preparando a irmã para o velório, esse “poder” é mostrado através de um inseto que sai da boca do corpo quando ela ainda está em negação pelas duas mortes.

Theodora Crain

O “poder” de Theo é o mais óbvio e mais evidenciado durante a série, ela pode sentir passado e presente com o toque, assim como pode sentir sentimentos e desejos e até mesmo a morte ao tocar sua irmã Nell no velório. O que é interessante é que no seu primeiro encontro com sua namorada, ela está sem as luvas e depois de um pesadelo acorda dizendo que “essa menina mexeu comigo”, isso porque ela tem a habilidade de vê-la através do sexo e depois Theo é questionada pela irmã Shirl com o argumento de “não dá para saber tanto sobre uma pessoa com um breve encontro” depois de dizer “ela até que é fofa, mas é um poço de problemas”.

Nell Crain

Nenhum dos “poderes” da família é leve ou amigável, mas da caçula é o mais macabro. Nell tem o poder de ver a própria morte. Desde os seis anos ela foi atormentada pela “moça do pescoço torto” e só descobriu quem era essa moça quando ela se matou e se viu voltar no tempo e ser sua própria assombração.

Todos os fantasmas, não só vistos pelas mulheres, podem ser um retrato de suas mentes, como algo paradoxal, onde os fantasmas causam as doenças mentais e/ou as doenças mentais criam os fantasmas. “Quando você é criança, vê coisas que não estão lá. Quando cresce, aprende a torná-las reais” e a família Crain as fazem. Na série os fantasmas são reais (inclusive esse artigo lista todas as aparições que passam despercebidas) e a casa é realmente amaldiçoada, mas a família Crain não é apenas unida por traumas mas também por doenças psicológicas hereditárias ilustrada até mesmo no poster promocional onde vemos a casa tomar lugar da cabeça de Nell com seus irmãos ainda crianças dando dica do início dos traumas. A mãe e o pai tem sintomas de esquizofrenia, Steven de transtorno bipolar, Shirl de transtorno de ansiedade, Theo, Nell e Luke de depressão, e nos casos dos gêmeos, Nell sofre de paralisia do sono e Luke com dependência química.

Não é só de doenças que os fantasmas de Residência Hill falam. A direção de arte usa peças antigas para mostrar que a casa, a história e os fantasmas são antigos e os fantasmas são utilizados para indicar que certas características humanas acompanham a humanidade, por isso a casa “enlouquece” os moradores independente de quem sejam, porque o que eles representam está presente em todo mundo. Steven diz que: “Quando eu disse que nunca vi fantasmas, não foi bem a verdade. Eu já vi muitos. Só não da forma como imagina. Eles podem ser muitas coisas. Uma memória, uma fantasia, um segredo, luto, raiva e culpa” e ainda completa com “na minha experiência, os fantasmas quase sempre são só o que nós queremos ver”. Na série é dito que “nenhum organismo vivo é capaz de existir com sanidade sob condições de absoluta realidade” e por isso sonhamos, esses sonhos se materializam em fantasmas e isso é o que torna a Hill House “not sane”.


Hill House é uma série que agrada qualquer pessoa que busca conteúdos densos. É um terror brutal que dispensa violência para contar sua história, mas coloca um drama familiar como plano de fundo para aterrorizar. A série utiliza o que já existe em nós para causar medo, como o luto e o medo da insanidade e isso garante o sucesso da série. Ela cresce tanto porque os fantasmas saem da tela e dialogam com nossos próprios fantasmas. Assim como a série é assombrada pelos medos que estão mais enraizados nos personagens, nos tornamos assombrados ao ver na tela os mesmos medos materializados.


Esse artigo passou pela revisão do estudante de psicologia Pedro Augusto.