Lê a notícia na tela do computador com desinteresse. Eleição da Michelle no Chile. Rola a barra para baixo até a última linha, sem ter terminado a primeira. Bufa, fecha a página. Abre a página da escritora favorita para inspirar-se, rola a barra. Escolhe um título que lhe apetece. Lê a primeira linha, a segunda, o parágrafo. Rola a barra até o último, sem ter terminado o início. Expira fundo enquanto apoia a cabeça nas palmas abertas.

Pega a revista de mulherzinha, afinal deve ser só o cansaço. Lê a primeira página, mas essas reportagens só têm uma página. A entrevista principal é com a modelo-rica-malhada que não tem o que falar sobre assunto, então fala de si. Joga a revista pro alto, cai esfacelada no chão. Agarra o jornal, ouvindo o farfalhar das folhas cinza. Percorre as letrinhas pretas que não fazem sentido. Volta. Roubaram as obras de arte de algum lugar. Volta. Foi quando isso? Abandona-o também no piso.

Abre o Word em branco. Branco... Não tem opção de mudar a cor da página?

Escreve uma palavra. Apaga letra por letra, batendo o dedo no teclado, reaproveita só a primeira. Mira a tela do computador, desconfortável. Descobre que o problema é a fonte. Muda Calibri pra Times. Arial. Verdana. Bookman Old Style. Arial. Aumenta 11 pra 12. “Deixa vir o fluxo mental, não reprime”. Escreve dois parágrafos. Relê mudando as vírgulas. Muda um termo ou outro. Desgosta. Afunda o dedo na setinha que aponta à esquerda até o ponteiro engolir a última letra que se tem notícia na folha, não larga o botão, o PC apita, pi, pi, pi, não há mais o que apagar. No fundo quer apagar os próprios devaneios. De repente percebe que o ponteiro não chega lá.

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