Ser mulher é difícil, às vezes é tão penoso que sobra pouco tempo para só Ser. Para aprender a ser gente, antes de ser garota.

Outro dia lendo “O Segundo Sexo”, me surpreendi com a Simone iniciando sua fala questionando se aquela era uma obra ainda necessária, frente aos inúmeros avanços conquistados pelas mulheres no século XX. Avanços como a conquista do “direito” de ter sua força de trabalho comercializada (vulgo poderem ser trabalhadoras formais), maior liberdade sexual, maior participação política, e etc.

O ponto central do livro é a pergunta “o que é Ser mulher?”. Essa conjectura embora pareça simples, carrega inúmeros simbolismos consigo. Dentre eles o fato de termos conseguido identificar que Mulher não é conceito, e muito menos um conceito fechado. Ou ao menos, que aquelas antigas substâncias relacionadas à Mulher, como o mito do Eterno Feminino, poderiam ser imputadas como falsas.

Então, achei curioso como podemos ter a ilusão de que chegamos ao ponto de conquistas tão complexo e tão perfeito, que há nada ou muito pouco a ser discutido. Há muito a ser efetivado, mas discutido? Não né? Já somos “empoderadas”. Já sabemos nosso lugar, estamos prontas para lutar por ele.

O problema é que ser livre, ou ao menos tentar ser, trata-se de aprender a recordar-se, a perceber-se também sobre coisas miúdas. Consiste em aprender a apontar as contradições externas, tanto quanto aprender sobre nossos paradoxos pessoais. Querem um exemplo? Male Gaze. O famigerado “olhar masculino”. Pense no quão sutil é essa percepção. Mulheres sentem-se, constantemente, observadas. Então nos condicionamos a aparentar, mesmo quando caladas, uma certa “áurea” atrativa. Ensaiamos olhares, cruzadas de pernas, postura, tudo para que a nossa imagem seja de alguma forma atraente. Aquele “charme” exigido de meninas em qualquer situação, e quando digo qualquer situação é qualquer uma mesmo (exemplo, a pessoa pode tá lutando, mas porra! Arruma esse cabelo aí), nada mais é que restrição de autonomia. Se vai nadar, entra na água como uma sereia, nada de bomba de canhão. Se está na Academia, bota uma roupa legal, tenta não suar por que é nojento. Joga esse cabelo com charme. Cruza as pernas com jeito. Não deixa a calcinha aparecer. Anda de nariz empinado. Todas essas exigências causam uma autoconsciência exacerbada, que gera auto repressão. É comum que a gente se perca tentando imaginar como estamos aparentando naquele momento.

A gente consegue lembrar que mulheres não podem ganhar menos, exercendo a mesma função, que um homem; que não dá pra medir caráter por roupa; que não podem nos violentar verbalmente ou fisicamente. Mas temos de recordar que não somos obrigadas a construir nossa forma ordinária de intervenção no mundo, a partir de critérios inflexíveis. Não há nada mais antiquado do que seguir uma cartilha de perfeccionismo, quaisquer que seja ela, na sua construção pessoal. É preciso relembrar que não somos enfeite do mundo. Parece muito pequeno isso, mas vejo meninas se perderem tentando entrar em um loop de amabilidade, educação e fofura que é sinistro. Mulheres fodas e fortes tentando ser sutis quando deveriam soltar a leoa que está ali. Não somos feitas para agradar. Ninguém é, homem ou mulher.

Tenho uma amiga maravilhosa (beijos, sua linda!) que me jogou uma verdade incômoda outro dia. Falou que escondo muitas das minhas críticas e revoltas embaixo de uma máscara de “maneirice”, quando poderia e deveria me mostrar, como sou tão logo me apresente. Mas é difícil. Aprendi que mulheres são dóceis, e mesmo sendo péssima desempenhando esse papel, algumas vezes ainda me vejo tentando arduamente. Chego até a sentir uma certa paz momentânea quando consigo. Mas logo tudo rui, e só sinto culpa. Culpa por não conseguir performar aquilo que foi atrelado ao meu gênero, e por ser então uma pessoa incompleta. Deficiente.

Mas, aos poucos, vou descobrindo que abandonando o que prepararam para mim, eu vou aprendendo a ser mais gente. Não assimilando a ideia de feminino, vou construindo a Larissa. E sendo mais gentil e amável até, comigo mesma e com quem realmente importa.

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