Retrato de um Estado Democrático de Direito

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Uma imagem fala mais do que mil palavras por simplesmente ser um retrato de um fato. Segundo Virginia Wolf a fotografia não é um argumento, mas a crua constatação de um fato dirigido ao olho. Por muito tempo, o caráter artístico da fotografia foi desconsiderado. Ela não era recebida como um ponto de vista subjetivo do fotógrafo e sim como um registro objetivo e literal.

A fotografia vem carregada de subjetividade. Ela é a realidade enquadrada e recortada por intenções de alguém que testemunha aquele fato, às vezes de forma consciente, às vezes, inconsciente. Ela é parte do real carregado também de subjetividades que criam uma estética particular.

Através das lentes de uma câmera pode ser capturado o sofrimento do outro, e assim, aproximar quem está longe daquela realidade, tornando-se parte dela. A imagem cria no espectador, muitas vezes, um sentimento de questionar o que acontece no mundo e gerar uma mobilização social. Sentimento vivido pela escritora Virginia Wolf ao escrever Três Guinéus, reflexões sobre a guerra civil na Espanha, após ver num jornal imagens da guerra publicadas. A escritora foi alvo de críticas machistas, alegando que mulheres não seriam capazes de compreender a guerra, críticas que desconsideravam inclusive a participação feminina em diversos conflitos e que a dor causada pela guerra vai além dos fronts.

Quando falamos em guerra quase sempre pensamos em conflitos entre homens distantes de nós, pessoas que são nossos semelhantes e ao mesmo tempo o “outro”. Por vezes, encaramos mais facilmente realidades que nos parecem distante e esquecemos que existe dor entre pessoas bem próximas a nós. Talvez seja doloroso demais imaginar que aquela dor do nosso vizinho está tão próxima que poderia ser qualquer um de nós.

A imagem que trago é um retrato do abuso por parte de autoridades contra manifestantes que reivindicam por direitos. Imagens de uma temática clássica que poderia ter sido concebida em qualquer lugar do mundo, em qualquer época. Escolhi uma fotografia feita durante as manifestações da tradicional passeata do Grito dos Excluídos, que acontece sempre no dia 7 de setembro durante as comemorações do dia da Independência do Brasil, esta foto é em Petrolina, Pernambuco.

Esta imagem representa uma guerra sutil, que se veste de democracia em todo o país. Na teoria o poder emana do povo e o direito a manifestações está protegido pela Constituição de um dito Estado Democrático de Direito, na prática cidadãos que protestam incomodam e por muitas vezes são tratados de forma violenta como na foto acima em que um sargento da polícia e secretário de segurança, vestido de terno e gravata usa spray de pimenta contra uma vereadora da cidade e um líder sindicalista que estavam na manifestação.

Quando escolhi a imagem vi muitas fotografias com a mesma temática na região, estudantes que foram agredidos durante as manifestações de junho de 2013, na ocupação da Prefeitura, existe inclusive uma fotografia do momento em que uma arma de fogo foi sacada contra um manifestante desarmado e cercado por três policiais. Estas imagens revoltam agridem, principalmente, porque do outro lado estão nosso semelhantes e nos chocam por trazer uma realidade que parece ser unicamente pertencente a manifestações nas grandes cidades, essa violência acontece também aqui, ao nosso lado, naquela foto poderia estar qualquer um de nós.

Escolhi a imagem da manifestação do Grito dos Excluídos por que é bastante simbólica. Temos ali um homem engravatado disparando spray de pimenta contra duas pessoas que no primeiro momento não sabemos quem são. Ali estão dois representantes dos interesses do povo uma vereadora escolhida por voto popular e um sindicalista, ambos representam a oposição ao atual governo da cidade, e rapaz de terno e gravata representa o próprio Estado como policial e como secretário de segurança.

A imagem choca pelo retrato da violência contra nós, povo, e contra nossos direitos que em tese são amparados pelo Estado e pela Constituição. Esta é uma imagem entre milhares, que mostra quem representa a lei, quem é o poder que deveria amparar e quem violenta o cidadão. Nesta situação de agressão a quem deveríamos recorrer no caso de violação dos nossos direitos? Quem nos protegeria?

Ali está também representado, simbolicamente, de terno e gravata, como o atual governo lidaria com ideias que se opõem a ele. Cria-se então a sensação de desamparo e autoritarismo, ideias divergentes não são aceitas. A diversidade é aqui agredida. Esta imagem é o retrato de uma violência e a violência em si pelo que está representado.

OUTRAS IMAGENS CITADAS NO TEXTO

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