O trabalho de Deus

“When my cup is empty

Jah gonna keep me strong

When my cup is full

Jah keep me from temptation”

(S.O.J.A. — TRUE LOVE)

Estava ouvindo esta música e refletindo sobre Jah’s work (que é o título de uma música de Ben Harper, inclusive) e é uma expressão comum em músicas de reggae, especialmente do S.O.J.A. (cujo nome significa soldados do exército de Deus) e essa é uma expressão que eu acho massa porque significa o trabalho de Deus, a obra de Deus.

É interessante refletir sobre o trabalho de Deus em nossas vidas porque, geralmente, só pensamos em Deus quando precisamos, literalmente, de um milagre, de uma intervenção divina pra desatar algum nó, que, em regra, é obra nossa.

Essa música que citei no começo fala de amor verdadeiro e do caráter universal que esse sentimento tem. Enquanto a dor nos nivela por baixo, nos horizontalizando, o amor nos nivela por cima, nos verticaliza, nos eleva da terra em direção às estrelas. O amor faz aflorar todo o bem que há dentro de nós para presentear o outro, destinatário de nossa afeição.

No entanto, essa música fala não apenas do amor romântico mas também do amor de Deus por nós e da forma providencial através da qual ele atua. O compositor diz que quando o copo dele está vazio, Deus vai manter ele forte e que, quando o copo dele está cheio, Deus vai manter ele longe da tentação.

Isso é de uma profundidade que eu nem sei se tenho palavras pra explicar. Porque isso resume, em duas frases, basicamente, como Deus trabalha e como deve ser a nossa relação com Ele.

Nos momentos de dificuldade, quando o nosso copo está vazio, quando falta o conforto material que entendemos importante para as nossas vidas, ou, pior, quando falta a saúde ou o apoio daqueles que amamos por incompreensão ou simplesmente porque cada ser humano já está travando a sua própria batalha e às vezes não tem condição de assumir a batalha do outro, até mesmo quando alguém que muito amamos passa para o outro lado da existência. Em suma, quando experienciamos perdas, em regra, fazemos uma pausa existencial (voluntária ou involuntária) para refletirmos acerca de nossas vidas, de nosso papel na vida daqueles que nos são caros e da sociedade em que escolhemos viver como um todo. É nessa hora que entendemos a nossa pequeneza, fragilidade e transitoriedade. Na verdade, a transitoriedade dessa experiência terrena.

É justamente nesses momentos que nos voltamos para Deus, algo tão maior do que nós e cuja compreensão nos escapa por completo. Mas é justamente ao levantar o olhar para o alto, para o céu, para as árvores, para os pássaros e as estrelas é quando perecebemos que uma orquestra sincronizada tão perfeitamente decerto não toca essa sinfonia tão linda que é a vida sem um maestro.

Como Jesus disse, olhemos os lírios do campo, que nem tecem e nem fiam e os pássaros do céu que não plantam nem colhem e tanto os lírios usam belas vestes quanto os pássaros tem alimento abundante. É caso de refletir, não é? Se eles, que são seres que sequer tem consciência de si mesmos, recebem tamanho cuidado de Deus e de Jesus, por quê mesmo que nós não seríamos objeto de semelhante cuidado? Se, por misericórdia divina, galgamos o caminho do instinto para a inteligência para que pudéssemos alavancar o nosso progresso e o desse globo que habitamos, é porque, certamente, estamos sendo dirigidos por inteligências maiores do que nós. Melhor dizendo, por um grande inteligência maior que coordena o trabalho de inteligências menores que vão nos auxiliando nos percalços da vida. Ou seja, Jesus como governador do nosso planeta e os bons espíritos, seus auxiliares invisíveis que trabalham na difícil tarefa de coordenar o progresso da humanidade terrestre (sobre o tema: já leu A Caminho da Luz? De Chico e Emmanuel! Recomendo!).

E, se, na hora do copo vazio, nos voltarmos pra Deus/Jesus? E se decidirmos ler o seu Evangelho de amor e a partir disso pautar a nossa conduta? O peso de uma tomada de decisão dessas, de viver a sua vida seguindo os passos de Jesus, maior exemplo de moral e ética que já passou por esse planeta, passando a pensar antes de agir e pautando suas ações na moral do Cristo, falhando às vezes mas levantando e tentando outra vez sempre, é algo que é indescritível. Porque tudo muda. Na verdade, a gente é que muda. Porque Jesus disse uma verdade muito grande quando disse que é Caminho, Verdade e Vida.

Porque quando decidimos seguir o caminho de Jesus, de viver pautados na verdade é que passamos a viver a verdadeira vida. E quando se diz a verdade, quando se age com verdade, quando nossos pensamentos, atos e palavras são coerentes entre si, quando se busca ser honesto, íntegro e verdadeiro, integridade, honestidade e verdade voltam pra você.

É quando entendemos que não existe copo vazio.

O que existia antes era um coração vazio daquilo de que ele mais precisa. De amor. De amor próprio pra começar a enxergar o que eu preciso e mereço. De amor pelo próximo, pra entender a parte que me cabe na vida do outro, pra compreender como posso aliviar o sofrimento do meu irmão. E, por último mas não menos importante, de amor por Deus porque quando aceitamos que algumas perdas são fruto de nossas próprias atitudes mas que outras vem de um desígnio maior que a nossa mera vontade fruto dos nossos desejos imediatistas e que, assim como tiramos a mamadeira de uma criança que não precisa mais dela ou as muletas de alguém que já reaprendeu a andar, Deus também faz isso conosco para o nosso próprio crescimento.

E é por isso que, na hora do copo vazio, é que ele nos faz fortes. Não apenas por nos amparar com o seu amor incondicional mas também por nos fazer enxergar que somos muito mais fortes do que imaginamos. Deus não nos dá força. Ele faz com que enxerguemos a força, o potencial que temos dentro de nós. E se isso não é uma coisa linda, eu não sei o que é.

O problema é que queremos ser fortes sem treinamento de força. Queremos ser resistentes ao sofrimento sem sofrer. Ser pacientes sem ter a paciência testada. Resultado, sem esforço. A verdade é que na vida não existem atalhos. Ou nos reformamos moralmente ou estaremos continuamente nos deparando com as mesmas situações (mudando apenas as pessoas e os lugares), repetindo atitudes e condicionamentos, errando, errando, errando. E reclamando que o nosso copo está vazio.

Ouvi um áudio essa semana sobre isso. Sobre como erramos, produzimos o nosso próprio sofrimento e de como ainda aumentamos esse sofrimento. Sobre como o sofrer é uma questão de ótica. Sobre como ficamos em situações de que podemos sair mas não saímos, insistindo em calçar sapatos que não nos cabem mais e alegando viver um martírio. Oras, o homem que padeceu o maior martírio individualizado da história da humanidade, que choca só de lembrar, em momento algum queixou-se. Creio que já li isso num texto de Emmanuel. E passei a ter vergonha de fazer drama. Porque tomei consciência de que os momentos de dificuldade acontecem justamente para me fortalecer.

Não importa o que aconteça. Meu copo não está vazio nunca. Porque meu coração não está vazio. Porque o que determina como eu devo viver minha vida sou eu e não as coisas que acontecem comigo ou ao meu redor. A dor faz parte da vida, diz Chico, mas o sofrimento é opcional.

Agora, sobre o copo estar cheio e Deus nos manter longe da tentação. Isso também é importante. Porque, infelizmente, temos a tendência a, quando está tudo dando certo materialmente e emocionalmente em nossas vidas, nos distanciarmos espiritualmente de Deus, de Jesus e da comunidade religiosa a que pertencemos. A buscarmos alegrias instantâneas, prazer e a querer viver de lazer, muitas vezes abandonando o serviço dignificante.

Isso é muito sério.

Esse é o tipo de relação que você quer ter com Deus?

É preciso decidir se você é cristão ou não é. Não dá pra viver religiosidade sazonal. As comunidades religiosas precisam de seus trabalhadores. De pessoas confiáveis e responsáveis que queiram se dedicar ao trabalho na vinha do Cristo, voluntariando seu amor no serviço ao próximo. Então, se você é cristão de fato, que o seja também quando seu copo estiver cheio. Que você não permita que as gratificações instantâneas do mundo seduzam o seu coração e façam você abandonar seus compromissos que antes de serem assumidos com a casa a que você se vincula, foram assumidos com Jesus para a melhoria desse plano, para a implantação do reino do bem aqui na Terra. Isso não é brincadeira.

Não sejamos usufrutuários de serviços religiosos mas sim membros ativos das comunidades a que nos vinculamos, fazendo como o Cristo e servindo sempre. Então, que tenhamos força sempre para dizer aquele não àquilo que traz prazer momentâneo mas consequências dolorosas posteriormente, ou seja, à tentação de que falamos no Pai-Nosso. Que saibamos sempre gerir as nossas vidas para que sejam testemunhos de serviço ao Cristo. E, por isso, testemunhos de amor. Porque Deus nos ama e cuida de nós o tempo todo. Independente do nosso copo estar cheio ou vazio. É só uma questão de aceitar esse cuidado na forma que ele vem.

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