A era da (falta de) comunicação

As pessoas não sabem conversar.

Quando digo isso, não me refiro ao argumento de “hoje-ninguém-conversa-mais-só-ficam-no-celular”. Desde que o ser humano existe, ele arranja um jeito de ignorar o outro. Mas não é disso que eu pretendo falar sobre.

No Twitter, uma das pessoas que sigo levantou uma questão importante. Muitos pais evitam de falar sobre assuntos polêmicos com os filhos justamente por serem tabus. Ah, imagine que euzinha vou falar com meus filhos sobre prostituição. Muito mais confiável que eles aprendam com o mundo, ou então a gente finge que não existe.

Mas calma aí. Como você espera passar os seus valores para o seu filho sem conversar com a criatura? Você, teoricamente, é o referencial dessa criança. Ela precisa de direcionamento. Não tem como você direcionar alguém sem conversar antes. “Ah, mas esse é um assunto complicado…” Justamente por ele ser complicado que deve ser debatido em casa.

Ou você prefere que ele discuta essas coisas com pessoas que você não conhece? Ou você prefere que ele seja influenciado por fatores externos sem ao menos ter outro referencial de confiança? “Ah, mas eu quero que meu filho tenha opinião própria”. Ótimo! Mas opiniões não se formam do nada. É preciso debater, expor ideias. Que tal começar a formar o senso crítico do seu rebento em casa?

Isso também não significa que apenas a sua opinião é a certa. Eu vejo isso pelos meus alunos adolescentes — eles são inteligentes e cheios de ideias. Minhas conversas com eles costumam render mais do que com alunos adultos. Muitos jovens hoje procuram informações fora das grandes mídias, pesquisam, são engajados. Mas por que excluir o ambiente familiar dessas discussões? Pais e filhos tem muito o que aprender uns com os outros.

Outro exemplo de falta de comunicação: relacionamentos amorosos. Eu percebo que 99,9% dos problemas nos namoros e casamentos de pessoas próximas se devem às complicações comunicativas. Se você não falar o que está te magoando, a pessoa nunca vai adivinhar. Se você não for honesto sobre as suas intenções, a outra pessoa vai entender algo totalmente diferente. Ao invés de arrastar um relacionamento, certas situações poderiam ser evitadas com meia horinha de conversa. Mas o pessoal parece ter medo de “DR”, “nossa, que chatice”, “minha namorada só fica falando”… Meu querido, se você não gosta de falar sobre o seu relacionamento com a pessoa, qual o sentido? Se você não gosta de trocar ideias e debater com a pessoa que você teoricamente ama, não é melhor ficar quietinho e sozinho no seu canto? Mas nãaao, é melhor cada um ficar na sua e depois explodirem com tanta discussão. Então tá.

E por fim, algo que eu escuto com frequência e que corrobora os meus argumentos aí em cima: “eu não consigo fazer terapia porque eu não consigo conversar”. Existem mil motivos para uma pessoa não querer se abrir. Eu sei que falar sobre o que acontece conosco para um estranho é extremamente complicado. São coisas íntimas e eu entendo completamente.

Mas a gente pode concordar que vivemos numa era onde não sabemos conversar? Não sabemos expor nossas ideias aos outros, seja sobre algo simples ou algo mais complicado. Vivemos na época do “não se discute x, não se discute y”. E então, quando uma pessoa realmente precisa se abrir, ela não consegue. Aprendemos a engolir nossos sentimentos e a entender nossas opiniões como desnecessárias. A discussão saudável está ficando fora de moda.

Termino esse texto com (mais) uma reflexão: se estamos nos comunicando cada vez menos, nossa capacidade de ouvir e simpatizar com o outro também está diminuindo. Não estamos conseguindo interpretar o outro, entendê-lo. Não sabemos falar nem ouvir. E aí, meu amigo, fica foda.