Aquele túmulo não é seu

Página do meu diário.

A responsabilidade não cai nos ombros de quem deve, e sim nos de quem permite. São os nossos ombros, cansados e curvados, que aguentam o peso. Nós, os mártires, os sensíveis, dotados de compaixão e autoreprovação. O que a literatura não conta é a estupidez de ser mártir. Carregamos tudo de todos, e quem carrega o que é nosso? Aquela mão que te puniu, se culpa? Aquela voz que serve ao deus da humilhação, se culpa?

Não.

Existe um rio de responsabilidade, cujas águas turvas e violentas foram feitas para alguns. E num momento de inocência, nos afogamos — pelo menos duas vezes. Uma pela culpa dos outros; outra pela nossa insensatez. O fundo do rio nunca te esperou. Não é o seu corpo que ele anseia puxar — é o do culpado. A água te expulsa; para ela sua presença é inaceitável.

Você come do prato que te fazem mal. Você deita numa cama torta sem cobertas. As velas do bolo de aniversário não são o suficiente. As cartas não tem o seu endereço. A reunião de família tem o sobrenome errado; o filme está com as legendas trocadas, aqueles alunos na sala de aula não são os seus colegas.

E aquele maldito túmulo, no qual você continua se enterrando, não é seu. Aquele não é o seu nome, nem sua data de nascimento, nem data de falecimento. A família entristecida clama por outro corpo. Existem alguns pedaços de terra prontos para você, mas não esse.

Reivindique o que é seu. Os erros, as crises existenciais, as faltas de consideração. Desde que elas sejam apenas suas. Carregue-as no peito, repense-as, coloque-as no chão para que você cresça. O outro que se vire, que se dane, que se foda.

Essa culpa não é sua e aquele túmulo não é seu.

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