Falar sobre Saúde Mental exige responsabilidade

Lá pelos meados de 2014, eu fiz um desabafo no Facebook. Eu questionei a razão de ser tão simples dizer para os outros que tomo remédios para a tireoide e esconder o fato de tomar remédios psiquiátricos. Esse desabafo virou uma discussão positiva e essa discussão tomou forma de blog: o Falando Sobre Saúde Mental.

Inclusive, foi esse blog que abriu meus olhos e eu finalmente aceitei que a Psicologia me chamava. Infeliz com meu trabalho na área de Publicidade, me lembro de estar sentada tomando café e pensando em pautas para abordar no blog. Passava horas lendo artigos e fazendo pesquisas variadas para montar um post. O prazer que isso me dava era único. A resposta das pessoas ao meu trabalho era única. Enfim, eu percebia que eu poderia ser útil — e que a dor que eu sempre senti poderia ajudar outras pessoas. Com o blog, eu aceitei o desafio que a Psicologia propõe, e cá estou hoje, terminando o terceiro semestre.

Com a entrada na faculdade mais minhas horas de trabalho, eu abandonei o blog. O que, de início, eu acreditava que era apenas devido aos meus horários bagunçados e cheios (quem tenta sair comigo sabe a situação). Mas aí eu percebi que a questão do meu abandono era atrelada a uma questão ainda mais urgente. Falar sobre saúde mental exige responsabilidade. Exige muito, mas muito estudo. E a partir do momento que eu comecei a estudar Psicologia, eu decidi me afastar. Primeiro, eu preciso de formação. Preciso de textos, de orientação, de supervisão. Apesar de eu ter uma boa prática no que se refere à ser uma depressiva emocionalmente instável, é necessário que eu vá além da minha própria vivência. De textos rasos sobre saúde mental a internet está cheia, e eu não quero contribuir com esse movimento.

Não estou dizendo que apenas psicólogos devem falar sobre saúde mental. O ponto não é esse. É necessário que a gente discuta nossas vivências, o nosso dia-a-dia, criar uma rede de sustentação. O problema é quando generalizamos alguma coisa importante e batemos o martelo como regra de saúde mental. Por exemplo: vi no twitter hoje uma pessoa falando sobre a “normalização da tristeza”. Ok, legal. Só que existe um oceano de diferença entre ficar atento aos sinais da depressão e achar que qualquer tristeza é uma crise depressiva. Todo mundo fica triste. É contra produtivo negá-la a qualquer custo — e inclusive isso pode adoecer mais um indivíduo do que o sentimento em si. E é essa falta de nuances, essa falta de senso crítico que me preocupa (inclusive entre estudantes de Psicologia — fiquem aí com essa indireta, mores).

Milhares de textos na internet estão disponíveis falando sobre depressão, por exemplo. Mas como está a qualidade deles? A depressão é um iceberg e as pessoas só falam da pontinha dele. Precisamos ir além do básico, além dos “sites de bem estar” que disparam tratamentos a torto e a direito. É necessário escutarmos quem tem depressão, escutar os (bons) profissionais da área, perceber que cada transtorno mental se apresenta de maneira única para cada um. Existem sintomas gerais? Claro. Mas mesmo assim, estamos falando de seres humanos — a individualidade vem no pacote.

O que eu quero dizer com esse texto enorme? Falar de saúde mental exige uma responsabilidade enorme. Exige muita escuta, muita leitura, senso crítico e empatia. Acredito que com esses elementos, fica um pouco mais fácil enxergar as nuances que vivemos — e, assim, conseguiremos produzir material acessível para o público sem frases de efeito generalizantes. Por isso eu parei de escrever no blog.

Mas fiquem tranquilos — um dia ele volta com força total. E ah, quando ele voltar… ;)

“A saúde mental é tão importante quando a saúde física. Lembre-se disso.” Imagem retirada do site www.livelifehappy.com

PS: Sugiro também a leitura do texto “O que nós queremos com o Setembro Amarelo”, que reflete um pouco sobre o que aconteceu nas redes sociais nessa época. Sim, eu tô sugerindo meu próprio texto, não gostou me processa. bjs