Vocação para eternidade

Arquivo O Globo/15–12–1963

Conheci seu Ernesto no ano passado. Bastante debilitado, me contou um pouco sobre sua história. Nasceu em 1920, filho de pai marceneiro e mãe dona de casa, passou sua infância em Nova Friburgo. Nunca teve irmãos. As gestações de sua mãe nunca vingavam. Ele foi a décima tentativa. Nasceu fraco, mas vingou. Como era filho único, não tinha muito com quem interagir em casa. Na ocasião em que conversamos, me contou a sua única alegria: torcer pelo Flamengo.

No ano em que nasceu, o time foi campeão carioca invicto. O pai, seu Bernardino, jurava que o filho era o responsável pela sorte no campeonato. Quando a família vinha visitar o pequeno Nesto, o pai fazia questão de enrolar o pequeno em uma velha camisa do time, talvez o maior tesouro dele. Assim ele cresceu, grudado no seu Bernardino, ouvindo os jogos na rádio. Seguiu os passos do pai. Não havia paixão maior que a pelo Flamengo.

Anos mais tarde, conheceu uma moça formosa, por quem se apaixonou, com quem casou e eles tiveram filhos. Dona Emília era uma esposa muito dedicada à família, mas tinha um defeito aos olhos do marido: toda a família da esposa, inclusive ela, torcia pelo Fluminense. Não uma, não duas… Seu Alberto me contou que brigaram durante os Fla x Flu da vida inúmeras vezes. Quase acabaram com o casamento mais de uma vez.

Os arranca-rabo só cessaram quando ele ficou acamado. Precisava acalmar o coração, longe de estar forte como nos tempos áureos. Dona Emília o ajudava a levantar da cama quando tinha jogo do Flamengo… Chegou a o acompanhar ao Maracanã, a última vez que ele foi. Ficava ao lado dele, algumas vezes até torcia pelo rival. Era a alegria do marido nos últimos momentos de vida. Só quando não era contra o Fluminense, ou quando prejudicasse o Fluminense. “Aí já era sacanagem, minha filha!”, me contou com lágrimas nos olhos.

Seu Ernesto nos deixou mês passado. Sua dedicada esposa fez questão de me contar que dos 6 filhos, 5 são flamenguistas. Meio decepcionada por não conseguir fazê-los seguir seus passos, meio orgulhosa do trabalho bem feito do marido. Vê os filhos torcendo pelo seu rival, mas lembra do marido. É um pedacinho vivo do amado. Pedaço que fica cada vez mais vivo a cada Fla x Flu e durante os quais ela lembra com amor de todas as brigas que já teve com o esposo. Hoje, com 87 anos, ela só tem uma certeza: nunca deixará de ser tricolor.

Nos últimos dias de vida, mesmo debilitado, o único compromisso que seu Ernesto não perdia era o jogo do Flamengo, toda semana. O último título que viu foi outro Campeonato Carioca, aquele mesmo que seu pai disse que foi o filho o responsável pelo título. Não viu o time perder, nos pênaltis, a Copa do Brasil para o Cruzeiro. Na verdade, pensando bem, viu, sim. Lá de cima, torcendo ao lado de ídolos, abençoando, gritando e apoiando incondicionalmente seu maior amor. Seu Ernesto é o exemplo de torcedor: trocou de casa, de emprego, de cidade, quase trocou até de esposa! Nunca de time. Esse amor nada, nem ninguém é capaz de alterar. Nem mesmo a morte.