Quando a liberdade sexual moderna passou a ser inconveniente para mim

Sabe aquela menina da sua sala que desde pequena causava com os namoradinhos e os beijos escondidos? Bom, nem todo mundo teve alguém assim em sua sala mas se você consegue imaginar como ela seria, pense nela como eu. Sempre fui muito curiosa quando se tratava das coisas que os adultos faziam e do que via na TV. Meus amigos riem quando digo que não sei ao certo quando perdi o BV, mas é verdade. Tragicamente verdade.

Minha curiosidade me levou a ser sempre a garota avançada. Não estou falando disso como uma coisa boa ou de alguma forma me gabando, não se engane. A questão é que para explicar quem eu sou agora, devo voltar. Na terceira série já tinha namorado alguns garotos da sala e beijado duas meninas. Com treze anos ao mudar de colégio fiquei com um garoto no primeiro mês de aula. Naquela época, a menina que ficava com vários meninos era chamada de puta. Nesse termo mesmo. A minha primeira paixão dizia isso de mim várias vezes — mas eu não ligava.

Você pode imaginar então que o discurso do feminismo liberal — o primeiro o qual tive acesso — me contemplou. Aquilo era maravilhoso. Por que os caras podem e eu não? Então mesmo após anos de feminismo identificando vários problemas no lib e me encontrando mais em outras vertentes, eu ainda carregava os velhos costumes. Namorei por três anos sendo monogâmica e quando saí parecia que nada havia mudado. Veja só, eu não condeno esse comportamento, mas hoje não é a escolha que faço.

Eu passei a ouvir dos meus amigos que não tinha padrões, que pegava todo mundo. Eu gostava. Comecei a ouvir indicações minhas para as pessoas vindo de amigos que consistiam basicamente em “aquela que você com certeza pega”. Eles não achavam que estavam me ofendendo e eu também nunca achei. Passei disso para a geminiana que não se apega. Algumas vezes até mesmo ajudei a propagar essa imagem devido ao impulso dos movimentos atuais que pregam o desapego. Era legal, era interessante e seguro.

Mas isso deixou de acontecer. Comecei a perceber que as relações afetivas me eram negadas. Eu conseguia ficar com pessoas mas não conseguia formar laços. Não foi apenas uma e nem duas pessoas que enquanto ficavam comigo perguntaram se estavam sendo muito “grudentas”. Que se eu não gostasse era só falar! Passei a não entender. Eu gostava de afeto e sempre gostei, mesmo quando dizia que não era monogâmica. Mas as pessoas interpretam a ausência de monogâmia como ausência de possibilidade afetiva e essa não era a minha vontade. Reparei que as pessoas voltavam a ficar comigo quando queriam, mas não permaneciam. No final de semana perguntavam se eu estava disponível. Eu saio, fico e volto. E acontece de novo.

Eu não vou dizer que nunca estive nessa fase, que nunca quis isso. Mas essas relações passaram e ser insuficientes e agora eu sou a garota que nunca vai querer uma relação duradoura. A garota que não é para amar ou manter. Sendo uma mulher bissexual é importantíssimo problematizar isso porque não acredito que as pessoas me veem dessa forma só pela minha maneira de mostrar as coisas, mas das conclusões que elas tiram quando percebem que não tenho problema em ficar com várias pessoas em uma noite. Principalmente com diferentes gêneros. Não é novidade que bissexual é vista como bagunça/promíscua.

Tenho me sentido usada, me sentido incapaz de ser amada. Ficando insatisfeita e cansada de relações vazias. Olho ao meu redor e vejo que meus amigos não querem se apegar, não querem amar. Uma geração de pessoas que se dizem emocionalmente frias para não se entregarem e continuarem vivendo uma falsa liberdade que se limita a ter medo de relações e evitá-las. Não existem apenas relações tóxicas e muito menos monogâmicas. Criar laços não vai sempre te ferir — apesar de que isso pode acontecer e é normal — ou te prender. Não deveríamos ter medo de amar e ser amadas.

E foi isso que passei a entender com o tempo. É um discurso bem legalzinho de se propagar o da liberdade sexual, mas não só convém mais aos homens (que continuam a usufruir de seus privilégios), como também nos impede de criar conexões e conhecer pessoas incríveis. Nos envolver. A minha liberdade sexual — e a de todas as mulheres — não deve existir para ser feitichizada ou para o agrado de pessoas que só molham os pés, mas não querem se arriscar a mergulhar.