O gosto da saudade

Alguns dias atrás a vontade de sair de casa tomou conta de mim. Aquela tarde excepcionalmente chuvosa não me impediu de ir até o centro da cidade e, de quebra, dar uma passadinha na livraria.

Na volta, minha mãe e eu resolvemos pegar um ônibus. O tempo não estava tão propício para uma caminhada de 40 minutos até nossa casa. Como sempre, logo que o coletivo chegou ao ponto, tomei um lugar perto da porta, esperando que todos descessem. No momento, não havia muitas pessoas para competir por um assento. O motorista desceu por uns cinco minutos e isso bastou para que todos os bancos fossem ocupados, deixando muitos em pé. Novamente as portas se fecharam e entramos em movimento. Já estávamos deixando o terminal, quando uma senhora acompanhada por uma garotinha deu sinal para que o ônibus parasse.

Assim que bati os olhos naquela menininha, eu me identifiquei. Lembrei muito de mim mesma quanto tinha cinco anos, idade que ela devia ter. Seus cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo bagunçado e sua pele morena era realçada pelo vestido vermelho de bolinhas. Seus pés ainda pequenos calçavam uma sandália branca, agora não tão fiel à cor original, apresentando algumas partes mais acinzentadas. Percebi que não fui a única a sorrir ao notar aquela garotinha, ainda nova demais para ter o equilíbrio que um ônibus em movimento requer. Com todos os lugares ocupados, senti-me na obrigação de ceder o meu àquela que nem sabia o quanto lembrava minha própria infância.

Agora ela estava sentada no colo de sua avó, no banco ao lado da janela. O que atraía sua atenção, no entanto, não era o movimento das ruas e o andar apressado daqueles que estavam do lado de fora. Ela olhava encantada para o algodão doce que levava em suas mãos. Nada parecia capaz de tirar sua atenção. Mesmo no meio de tanta gente, ela arranjou um momento só dela, só para ela. Ninguém precisou avisar a ela que deveria aproveitar o momento, ela simplesmente se achegou no colo da avó e se deixou encantar por aquele gostinho que ainda vai dar saudade.