Oito ou oitenta
“Meio-termo” definitivamente nunca fez parte do meu dicionário e, muito menos, da minha vida. Sempre fui mais habituada a pecar por excesso que por falta. É necessário admitir que isso já me trouxe alguns problemas, nada muito sério — felizmente.
Na Filosofia o tal “meio-termo” equivale à temperança, virtude cardeal muito estudada por Aristóteles. Na visão dele, ela seria a responsável pela moderação, pela justa medida das coisas. Não poderíamos nos deixar dominar pelas paixões, as quais nos conduziriam para cada vez mais longe da razão. Até aí, tudo bem. Nas aulas eu não faltei, mas quem diz que consigo aplicar isso no meu dia a dia?
Acontece que eu não sei ser sutil. Minha sinceridade ultrapassa os limites na maioria esmagadora das vezes. Discrição também não é um dos meus pontos fortes. Se for para observar algo, observo descaradamente. Sei também passar reto, sem nem perceber o que me cerca — embora isso seja bem raro. Quando me entrego, é para valer. Não sei me doar pelas metades. Não consigo parar na metade de uma frase e fingir que nada havia saído da minha boca momentos antes. Alterno entre momentos de extrema indecisão e de extrema decisão. Enorme é meu espanto quando tudo isso não afasta as pessoas. Então, considero como uma espécie de tratamento de choque. Quem passar por ele, com toda certeza, já tem um espaço especial no meu coração.
Conseguir entrar em contato com meu lado excessivamente agradável e carinhoso é algo bem difícil. Antes preciso me certificar de que não corro tantos riscos de me magoar depois. Um “eu te amo” descuidado às vezes escapa pelo meu teclado, em mensagens trocadas com pessoas especiais. No entanto, ouvir isso em alto e bom som é raro, beira quase o impossível ouvir isso vindo de mim. Somente tenha consciência de que para quem é oito ou oitenta assim como eu, é improvável que algo não tenha sido cuidadosamente pensado ou que algo possa ser descuidadamente gritado.