Capítulo 7: Oração para Odete
Oi, Odete! Sou eu.
Faz um tempo que não faço uma oração só pra você, procuro não te atrapalhar aí do outro lado. Mas sabe o que é? Hoje é dia de finados: já estamos em novembro, fim do ano tá chegando e já se passaram 19 meses desde a sua partida.
Tenho muita coisa pra falar.
Esse ano minha vida girou: participei da semana de treinamento na mahikari, colei grau, mudei de casa e sai da Anhembi, acredita? Você tinha que ver. Eu me sinto uma nova Larissa, cada dia é uma surpresa, tenho feito de tudo pra tentar me aproximar de Deus .
Lembra daquele livro que me deu? Tô tentando ler de novo e nessa altura do campeonato, tem sido fundamental pra tentar ultrapassar as coisas que tem acontecido.
Um dos desafios, por exemplo, é quando o assunto é seu filho.
Não preciso nem te dizer que ele tem se esforçado no mahikaritai e ontem mesmo disse que quer mudar a postura lá no trabalho pra ser um bom tutor e ajudar a equipe, né? Imagino que você esteja orgulhosa disso, assim como eu fiquei.
Já entre ele e eu, as coisas estão difíceis: nos reaproximamos em agosto, usei aquele seu lenço pra dar sorte no primeiro dia que saímos, ele se emocionou com coisas que falei dias depois, mas tudo saiu do controle e mesmo depois de pedir uma resposta pra Deus e sermos orientados, estamos um pouco distantes.
Eu nunca imaginei que isso aconteceria.
Conhecendo seu filho, eu poderia jurar que a origem disso talvez seja raiva por tudo estar tão diferente sem você.
Por exemplo: o Flávio tem passado por altos e baixos, trabalho do Vitor tava difícil, mahikaritai puxando bastante, ele descobriu que precisa cuidar mais da saúde dele e não conseguiu ser feliz no último relacionamento que teve mesmo tentando aquele famoso amor puro que você e eu tanto falamos e que ele nunca tentou de verdade comigo.
Eu já cheguei a pensar que ele se sente perdido e sem conseguir definir o que quer pra vida por não ter mais a sua união com o Flávio como referência, que ele se perdeu de quem é e de onde veio. Cheguei a pensar até que ele tem medo de casar comigo como sempre sonhou porquê você não estará lá pra nos assistir (lamento por isso, eu não tinha maturidade de casar com seu filho antes, tinha medo).
Agora depois de tudo o que aconteceu, mesmo me redimindo e deixando o orgulho de lado, eu não sei mais nada, não consigo prever as atitudes ou sentimentos do Vitor, posso estar enganada de tudo o que acho, sei lá.
A verdade é que tá tudo muito complicado. Eu sei que você sempre teve grandes expectativas em mim, antes mesmo de você partir me fez um pedido. E eu cuidei dele, cuidei mesmo. Cuidei dele fazendo oração dia após dia para que fosse feliz, incentivei amigo aqui e ali, falei com a a líder do mahikaritai, mantive distância por um tempo e agora que tentamos nos reaproximar, ele hesitou.
Sim, eu escutei quando você me chamou de cabeçuda no dia do jantar que ele me deu, eu juro que a partir dali me esforcei pra entender o motivo do vazio que sentimos anos atrás — que coincide com o seu pedido igual quando conversamos aquele dia de manhã durante 2 horas na sua sala, há 6 anos atrás.
Só agora eu consegui entender a profundidade daquela conversa e a importância de tentar fazer certo. Pena que foi só agora, Odete.
No fundo eu queria mesmo é que seu filho e eu tivéssemos mais tempo para experimentar algo novo, leve, diferente… Que saíssemos pra nos divertir, rir e aos poucos nos conectar novamente, sabe?
Se tudo isso desse certo, eu sei fazer do seu filho o cara mais feliz do mundo, você e o Flávio sentiriam orgulho do que nos tornaríamos. Mas como a realidade é outra e ele disse que desejava não ter me conhecido, é aí que as coisas apertam: como ter gratidão diante disso tudo e não enlouquecer?
Sendo bem sincera, é muito difícil ouvir isso ou de repente ouvir que ele não quer tentar mais, quer conhecer outras pessoas, sendo que mostrou o contrário poucos dias atrás.
Tudo isso pode ser medo, pode ser confusão da cabeça dele, pode ser que ele não goste mais de mim mesmo, ou nada…
Por fim, Deus sabe que eu finalmente entendi e que me arrependo por não ter me esforçado antes: tive que passar por tudo o que passei para abrir os olhos e enxergar as coisas com mais clareza, entendendo que amar é sagrado e que exige responsabilidade. E mesmo com a dor, eu tenho refletido bastante e conseguido gerar gratidão pensando no quanto Deus tem sido paciente comigo. Mas confesso: não é fácil.
Talvez eu continue cuidando do seu filho a distância já que não tenho condições de ser amiga dele. Eu sempre amei seu filho e não suportaria ver ele com outra pessoa, é demais pra mim.
Se eu puder te resumir o que sinto no meu coração agora, eu tenho é medo da decisão que tô prestes a tomar... E essa é a decisão mais difícil da minha vida.
Se não for pra fazer seu filho feliz, eu quero seguir o caminho de cuidar dos outros com o amor e luz de Deus — que é a uma das únicas coisas que fazem sentido pra mim. Ou eu construo uma história e família que agrade Deus, ou eu dedico meu tempo e minha energia pra formar outras pessoas. Deus quer me ver feliz e depois que o Vitor disse não, talvez seja isso, seguir esse outro caminho.
Segunda-feira vou tentar tomar coragem e buscar me preparar, seja lá pro que for. Eu vou tentar tomar coragem.
Enfim, sinto muito não te trazer boas notícias entre seu filho e eu, mas saiba que neste dia de finados penso em você com muito carinho, oro para esteja bem e forte do outro lado, oro para que sinta o amor e a luz de Deus a todo instante.
Obrigada mais uma vez por me ensinar tanta coisa, acreditar na união entre Vitor e eu, confiar e tentar cuidar de mim todos esses anos.
Encerro a minha oração aqui.
Sinta falta de você, seu filho mais ainda.
Com amor, Larissa.

