2020: ao invés de vermos carros voadores no céu, temos um vírus letal no ar

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De repente a Terra parou. Todas as engrenagens que a faziam girar subitamente travaram. Tudo estava indo rápido demais. Sem freio, sem controle. Quase atingindo a velocidade da luz. Foi preciso recuar. Foi preciso redefinir a rota. Talvez para sempre. Há mais de 100 dias o mundo se tornou um lugar inóspito para se habitar. O chamado é claro: estamos em guerra. E antes que apontemos um culpado, calma, o inimigo não é nenhum dos que previamente explodiram bombas ou saíram armados determinados a atacar. Dessa vez, o inimigo é invisível, mas nem por isso silencioso. Ele tem feito um barulho ensurdecedor aliás. No entanto, ele ecoa mais nos hospitais do que nas ruas. Ele conseguiu habitar cada espaço, circulou até pelas frestas mais improváveis. Nosso adversário, que não tem aparência exata, nunca viu sua face ficar tão conhecida. Ele estampa jornais e capas de revista em cada esquina. Só se fala dele. A notícia atingiu o ápice de alcance porque a propaganda boca a boca, literalmente, foi a mais eficaz. Também pudera. Até via tosse, espirro e aperto de mão ajudaram a sua fama a se propagar — se prolongar — ainda mais. Quem diria! O significado de perigo foi reavaliado, reprogramado; r-e-i-m-a-g-i-n-a-d-o. O ano é 2020. Ao invés de vermos carros voadores no céu, temos um vírus letal no ar. Usar máscara cirúrgica virou dress code necessário. Coisa que nem a Moda conseguiu prever. Por outro lado, parece ficção escrita por Stephen King e dirigida por Quentin Tarantino — trama daquelas em que a fantasia supera todos os limites da imaginação e quiçá da crueldade. Por vezes a realidade consegue ser mais quimérica do que qualquer história genialmente inventada. Em tão pouco tempo vimos esse vírus se teletransportar e dominar territórios; possuir corpos e deixar para trás além de feridos, mortos. Ele atravessou fronteiras, da China ao Chile, deu a volta ao mundo. Não há um país sequer onde possamos estar seguros, a não ser em nossas próprias casas. Até quem se achava soberano foi afetado. O vírus não discrimina ninguém, exceto pela fauna e a flora. Seria essa uma vingança contra a humanidade? A mãe natureza está enfurecida. Por hora, ficou firmado por decreto que o inimigo é mais poderoso e perigoso do que previamente pressuposto. E assim, de repente, ele fez com que o medo ficasse tão denso que pode ser pego com as próprias mãos — essas que devem ser lavadas frequentemente mais do que o normal. Fique esperto, o toque é arma fatal! Eis que essa é a maior vantagem do inimigo. Em contrapartida, o afastamento é o melhor contra golpe: lembre-se só o distanciamento salva. É preciso que todos se alistem no exército para termos êxito nesse duelo. A batalha tem sido longa e dura. O tempo não é mais medido via calendário, nem tampouco está sendo o mesmo para todos. Contamos os dias sem saber quantos serão ao fim. A humanidade se isola por completo. Sem praia ou viagem pro Himalaia. No entanto, apesar de estarmos longe, estamos juntos. Lembrem-se: o afeto é igualmente invisível como o inimigo — ele é capaz de atravessar qualquer superfície e acalentar a pele sem o menor dos toques. Veja bem, o amor perdura sempre não importam as barreiras. Nessas horas, a internet é a extensão de nossos corpos; portanto, abrace, beije, e ame digitalmente também. Eu sei que, conforme esse texto chega ao fim, com ele surge a pergunta que não quer calar:
— “Quem então sobreviverá à isso tudo?” Ora, sem titubear eu aposto, vai ser ela, a esperança! Porque, afinal, ela é a última que morre. Aproveite, porque a esperança é ainda uma das poucas coisas em que podemos nos agarrar à vontade.

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Frequentemente escrevo sobre mim, o outro; nós. E, sempre que possível, mistura astrologia nessa soma aí. Siga meus devaneios no @literaturaconfessional

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