A viagem do autoconhecimento é longa…

Há muitas rotas possíveis, paradas, trechos cheios de lombadas, buracos e curvas sinuosas. Porém, uma vez que decidimos desbravar o caminho com obstinação, descobre-se que o destino final se torna apenas outro ponto de partida; pra um lugar onde tudo pode ser ainda mais instigante. Por Larissa Xavier

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Greg Rakozy on Unsplash

Existem mil e uma maneiras de um sujeito passar a se conhecer, e existem até os que nunca o farão. Sim, há muita gente que acha que o autoconhecimento é papo furado, conversinha mole, fiada. E eu não os condeno, pelo contrário. Para nós que vivemos em uma sociedade onde cada vez mais se prioriza o “aquilo que você tem”: doutorado, carro, casa, passaporte carimbado, sapato caro e por aí vai; tudo que é interior passa a ser assunto de gente que não tem mais nada a fazer (ou a ganhar) no mundo exterior. No entanto, acredito que o autoconhecimento nunca deixou de ser algo universal e que sempre esteve disponível para todos. Como tudo na vida, o primeiro passo vem do querer, ainda que o cotidiano camufle essa necessidade.

Mesmo a gente habitando essa casa que chamamos de corpo e que é comandada por uma mente, ainda sim isso não quer dizer que alguém se conheça propriamente como muitos acham. Ainda mais para aqueles que acreditam que já se conhecem o suficiente. Aliás, o suficiente precisa ser constantemente reavaliado, pois ele pode facilmente cair na armadilha do “tá bom do jeito que está”. E o “tá bom” tem o péssimo hábito de não querer ser melhorado.

A começar do começo, a palavra conhecimento (do latim cognoscere, “ato de conhecer”) significa o entendimento sobre algo; ação de entender por meio da inteligência, da razão ou da experiência; ou em última instância, o ato de se relacionar com uma ou mais pessoas. Logo, autoconhecimento entende-se por se autocompreender seja por meio do intelecto, da motivação, de vivências, e quiçá pelas lentes de outrem.

O conhecimento interior e o exterior são como yin e yang, além de se complementarem, eles pedem muito equilíbrio entre um e o outro. Metaforicamente falando, ter conhecimento interior e exterior se compara a um carro onde o motorista sabe muito além de dirigir. Ele conhece tudo sobre o que compõe aquele veículo. Sabe como manobrá-lo ou até como capotá-lo. Por isso, caro motoristas, fiquem bem atentos ao seu carro; nem só o amassado de fora precisa de reparo.

Na prática, independentemente de ser de si mesmo, da vida, de algo, ou de alguém, possuir conhecimento é muito valioso.

Lembre-se que as pessoas podem tirar tudo de você, menos o seu conhecimento. Einstein

Ser, não ser, ou quem ser? Eis a questão

Quem somos, de onde viemos e para onde vamos?

Essa complexa e intrigante pergunta pode ser respondida, felizmente, através de diferentes e fantásticas narrativas, seja pelos olhos da ciência, da história, da filosofia, da religião, da psicologia, e da arte. Ou seja, cada um tem a oportunidade de encontrar a que mais se identifica.

Do ponto de vista da ciência, tudo começou com o Big Bang. Segundo a mitologia grega, a origem do homem se dá ao feito dos titãs Epimeteu e Prometeu. Já do religioso cristão, como a maioria sabe, Deus é o responsável por criar o céu e a terra, Adão e Eva, e assim por diante. No entanto, há um outro viés que ultimamente tendo sido o que mais me identifico: o da filosofia Hermética.

Segundo o livro Caibalion (que li por duas vezes pra realmente entender), o universo é uma criação mental, onde tudo que há nele, galáxias, dimensōes, buracos negros e, claro, o planeta Terra (e tudo que existe nele), foram criados pelo o que eles chamam de O TODO. Assim, Cabalion é sobre os 7 princípios herméticos (Mentalismo, Correspondência, Vibração, Polaridade, Ritmo, Causa e Efeito e Gênero) ensinados por Hermes Trismegisto, que na mitologia egípcia foi associado ao deus Toth, considerado o inventor da alquimia e o fundador das escolas ocultas ao longo da história. Como esse assunto é um tanto quanto complexo, ele vai ficar como pauta para outro texto.

Por hora, se há tantas versões disponíveis, possíveis caminhos, razões e explicações para estarmos aqui, enquanto humanos, e, principalmente, temos a oportunidade de questionarmos todas elas, por quê, então, não tomarmos um tempo para nos questionarmos e nos auto compreendermos enquanto indivíduos?

“Não existe uma fórmula única para se autoconhecer ou tampouco alguma que funcione sempre para todo mundo. Na verdade nem poderia existir. Nem eu gostaria que existisse, porque assim perderíamos muitas discussões e trocas saudáveis que são essenciais para a construção de nosso ser. O autoconhecimento entra na lista do pessoal e intransferível”.

Tem ficado cada vez mais claro e necessário que o autoconhecimento não se limita ao trabalho ou nossos relacionamentos. A vida, de modo geral, tem nos desafiado a enfrentar situações das quais é preciso estar consciente de primeiramente de quem se é e do papel que se tem no todo. É só olhar para a pandemia atual. Gradualmente, nos vemos reagindo às mais complexas situações e emoções que viver implica. E para estarmos melhores “preparados” para enfrentá-las, é preciso estar forte espiritualmente ou ao menos tentarmos criar uma fortaleza que nos ajude a ter melhores mecanismos de ações e reações. É por isso que a inteligência emocional também deveria ser matéria ensinada senão na escola, pelos pais. Não há também autoconhecimento que não comece à partir de incentivo, bons exemplos e boas estruturas de aprendizados.

“Evolução é um caminho de ida, e não se pode evoluir sem desafio, sem dor, sem desprendimento. O novo só vem quando o velho, senão deixado para trás como memória, história, for ao menos posto de lado”.

Não é sobre ser perfeito, mas sim, sobre ser melhor

Acredito que a maioria de nós quer se orgulhar de quem se é. Ponto. Pra isso, porém, distinguir o que é desejo do ego e o que é desejo da alma é fundamental. O ego comanda os quereres superficiais que muita vezes são os que mais mexem com a gente (alô competitividade!). Já a essência, por sua vez, nunca requer muito, apenas o que é necessário para nutrir sua alma de modo saudável, sem pressionar .

“Ter autoconhecimento é como possuir uma camada extra de pele; uma aura complementar que nos envolve. É sentir que nossa alma se acomoda melhor na mente e no corpo que possuímos. […] Foi assim, observando o universo afora, como uma teia composta por tanta veias, que comecei a sentir necessidade de ir atrás de minhas raízes, das minhas ânsias, dos meus medos, pra entender o sistema solar individual que a pessoa Larissa é, e veio a ser nessa dimensão que habito”.

Literatura: um divã público

Inegavelmente, a ficção tem tido muito êxito ao criar personagens dos quais as pessoas se identifiquem ao ponto de até se influenciarem na vida real por aquela história ali contada. Porém, a melhor história e o personagem mais cativante ainda será nós próprios, cada um com suas particularidades e diferentes backgrounds. Ainda que seja difícil de enxergar, há muita pauta em nossas próprias vidas, por mais miserável que a julguemos. Tudo é ponto de vista, ângulo. Quantas historias verídicas que se tornaram inspiradoras ao longo dos séculos. Logo, criar um olhar mais criativo e articulado pode fazer sua história ganhar vida como muitos tiveram.

Expor-se, principalmente na era da internet, tem sido cada vez mais difícil, pois o julgamento (ou linchamento) virtual sempre é massivo, imperdoável. Porém, talvez mais do que selfies de cara limpa ou hashtags engajadoras, seja preciso usarmos nossa humanidade em toda sua capacidade, que são infinitas. Escrever aqui, tem me mostrado toda minha capacidade em ser vulnerável e ao mesmo tempo destemida. Tem me mostrado toda minha vitalidade. Tem me mostrado que estou no caminho do melhor, e não do perfeito, e que sou capaz de trocar ou promover experiências enriquecedoras tanto para mim quanto para o outro(s).

O Retorno de Saturno — ou o começo de mais uma jornada

Tecnicamente, o planeta Saturno leva cerca de 29 anos para completar uma volta em torno do Sol, enquanto a Terra leva seus conhecidos 365 dias, um aninho apenas. Saturno é conhecido como o senhor do tempo, do limite e da maturidade. Assim, na Astrologia entende-se que a idade entre 28 e 30 anos trata-se de uma época onde precisamos fazer uma avaliação minuciosa de nossas vidas, seguida de mais provas práticas (desafios), para adquirirmos consciência e maturidade necessária para viver dali em diante.

Apesar de eu ainda estar percorrendo a “estrada do Retorno de Saturno”, confesso que desde o início tudo tem sido como uma montanha-russa, especialmente interna. Porém, dia após dia tenho me sentido cada vez melhor preparada pro futuro; pro imprevisto, pro novo, pro desconhecido, pro o que tiver que vir. No entanto, vale frisar que de nada vale astrologia, filosofia, ou quer que seja a matéria se a mente não estiver saudável. Inclusive, a consciência (que pode ser resumida a saber viver consciente no presente) abre as portas para autoconhecimento. Pequenas epifanias podem trazer muitos momentos de iluminação.

No mais, existe uma Larissa no forno sendo assada lentamente, como tem que ser, respeitando meu ritmo e do tempo, não do alheio. E depois do dia 7 de maio, essa mesma Larissa poderá [re]surgir modificada. Até porque pra definir os próximos passos, é preciso considerar os pontos de partida e chegada.

Viajar para dentro pode não ser tão confortável e prazeroso quanto viajar por superfícies tenras. A jornada é insólito. Além de nos vermos em inesperadas situações e lugares, o mistério acaba sendo a única garantia ao longo do caminho. Aliás, não se resolve enigma nenhum com olhares óbvios.
O Autoconhecimento começa em não saber o que se está tentando saber.

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Frequentemente escrevo sobre mim, o outro; nós. E, sempre que possível, mistura astrologia nessa soma aí. Siga meus devaneios no @literaturaconfessional

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