Literatura Confessional…

Não é apenas sobre escrever. É sobre criar uma ponte entre meu eu interior com o mundo exterior. É sobre fazer com que outras almas se debrucem no colo acalentador que é a literatura. Porque tanto a escrita quanto a leitura são como um espelho, onde todos de alguma forma buscam se identificar. Por Larissa Xavier

Nove de março de 2020 marca o dia em que finalmente resolvi “sair do armário”. Talvez a expressão cause um certo espanto por estar ligada à sexualidade, no entanto, quero falar sobre a possibilidade de estarmos reprimindo uma ou mais facetas de nós que, por qualquer que seja a razão, acaba sendo guardada num “armário”.

O termo “sair do armário” pra mim coube em um diferente contexto quando eu percebi que estava escondendo algo que de nada tinha a ver com minha sexualidade, mas que, do mesmo modo, sempre fez parte de quem eu sou (e sempre quis ser), e que estava ficando grande demais para caber em um espaço demarcado — e escondido do mundo.

A paixão por escrever é o que genuinamente me move. Eu escrevo
‘publicamente’ há um tempo, mas eu, Larissa Xavier de Lima, demorei 29 anos para me sentir uma escritora.

A ideia de começar expor minha escrita, meu tom de voz, minhas ideias, pensamentos, opiniões e até sentimentos vem sendo processada há tempos. No entanto, eu precisei de horas, dias e anos; precisei chegar ao meu Retorno de Saturno para entender o que estava faltando e, principalmente, o que de fato eu queria comunicar como escritora.

Assim, este post é só um começo de múltiplas e longas histórias a serem contadas através do Literatura Confessional.

“No meio do caminho eu percebi que quanto mais tentamos buscar fora algo que está dentro, mais frustrados ficamos. O conhecimento e a inspiração vem de fora, sim, mas o aprendizado está em como você os absorve e os transforma em constante fonte de sabedoria”.

Nem sempre o julgamento do outro é maior que seu julgamento interno

Eu sou do tipo que é extremamente crítica consigo mesma e, ao contrário de muitos que buscam validação fora, para mim sempre faltou uma aprovação interna para que eu levasse a profissão de escritora a sério. Faltava um atestado interno de que eu era uma ou, como muitas vezes eu pensava, estava pronta pra falar de boca cheia “sou escritora”. Faltava constância na escrita para me reconhecer como alguém que escreve. Faltava de fato eu compartilhar muito dos meus anseios filosóficos-psicológicos-literários. Faltava criar uma ponte entre meu eu e tantos outros “eus” que estão por detrás da tela que nos separam.

Como toda a profissão que requer aperfeiçoamento, foi preciso muito estudo na tentativa de achar o estilo de escrita “perfeita”. Se é que existe um. Mas no meio do caminho eu percebi que quanto mais tentamos buscar fora algo que está dentro, mais frustrados ficamos. O conhecimento e a inspiração vem de fora, sim, mas o aprendizado está em como você os absorve e os transforma em constante fonte de sabedoria. Basicamente o que eu precisava para começar eu já tinha.

Eu já escrevi de um tudo: texto sobre look do dia, história da moda, mitologia grega, entrevistei gente famosa etc., mas me demandou muita reflexão e tempo para que eu refinasse minha escrita e chegasse a um tom e a uma forma de apresentação onde eu me reconhecesse por inteiro — ou que reconhecesse partes de um quebra-cabeça gigante e complexo que sou, que somos como almas. Eu queria que as pessoas conhecessem outra imagem da Larissa; uma imagem que só poderia ser vista através de palavras. E para isso, eu também tinha que me ler como um terceiro, com olhos distantes.

“Quando se quer ser artista (ou se sobressair em sua área de atuação), a insegurança tem que ser engolida goela abaixo ou posta para dormir. Se tal atitude não for tomada, a sombra dela sempre ocultará a sua luz”.

Além do que se vê

Pra mim o processo da escrita não poderia ter sido simplificado ao pensar + escrever + publicar, eu queria criar e firmar meu terreno criativo de forma singular. E aí que entra Astrologia no meio.

Ter Sol e Mercúrio na casa de Leão e Meio do Céu em Virgem, me fazem assim, como disse minha astróloga: “alguém que necessita comunicar de forma única assim como quer deixar sua marca registrada em tudo que faz {…} e que essas características sejam colocadas em um trabalho que contribua para o bem das pessoas”. Então, além de ir em busca da minha verdadeira voz, eu tinha que encontrar um caminho em que ela fosse de alguma forma útil para a sociedade.

A astrologia tem atuado como um norte, um conselheiro e até um vidente que tem me guiado. Então, se havia esse chamado astrológico, divino, extradimensional, por trás da minha jornada na Terra, eu não poderia ignorá-los. Precisei escutar meu sinal interior e dos cosmos para então tomar partido.

“Literatura Confessional é um reviver poético das emoções, dos pensamentos, das memórias — da realidade. É sobre mim, é sobre quem se identifica.

Eu, o outro, e a vulnerabilidade que nos assola

“O que os outros vão achar?” , “O que será que eles vão pensar?”, ou frases do tipo me fizeram incontáveis vezes adiar estar aqui. No entanto, eu felizmente aprendi que quando se quer ser artista (ou se sobressair em sua área de atuação), a insegurança tem que ser engolida goela abaixo ou posta para dormir. Se tal atitude não for tomada, a sombra dela sempre ocultará a sua luz. Por outro lado, saber diferenciar a insegurança do medo, este que invariavelmente vai nos acompanhar (mas que não deve nos impedir), é necessário para continuar seguindo em frente.

Se alguém quer ser reconhecido de alguma forma pelo seu trabalho, elx inevitavelmente também terá que lidar com algum tipo de plateia seja minúscula ou imensa. E foi aí que eu me vi sem escapatória.

“Possivelmente todos os textos que virão daqui pra frente serão vistos por conhecidos e desconhecidos de uma forma jamais expressada por mim antes. Porque uma escritora [re]nasce e porque àquele armário que um dia estive, não me aprisiona mais”.

Meu background literário vem da poesia, do romance, da não ficção e da narrativa confessional (termo que na literatura classifica textos com alto grau de intimidade e honestidade — leia-se autobiografia, memórias, diários, etc.). Juntos eles conseguiram dar sentido à minha eterna tentativa de tornar palpável o que vivencio e presencio.

Nessa busca incessante de também querer encaixar minhas palavras em algum lugar (aka algum veículo) sempre fracassei. Porque que nenhum deles me faziam estar em casa, estar confortável em minha própria pele. Porque também, na verdade, não existiria mesmo espaço nenhum externamente que não fosse uma extensão de mim mesma — criado pelas minhas próprias mãos.

Então para estabelecer minha voz de um jeito único e ela que servisse como um afago para os outros (assim como designado pelo Universo) e de fato me sentir como uma verdadeira escritora, criei o Literatura Confessional; um projeto, blog, coluna, ou o que simplesmente acredito ser meu verdadeiro lugar de fala. Literatura Confessional é um reviver poético das emoções, dos pensamentos, das memórias — da realidade. É sobre mim, é sobre quem se identifica.

Possivelmente os textos que virão daqui pra frente serão vistos por conhecidos e desconhecidos de uma forma jamais expressada por mim antes. Porque uma escritora [re]nasce e, porque àquele armário que um dia estive, não me aprisiona mais.

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Frequentemente escrevo sobre mim, o outro; nós. E, sempre que possível, mistura astrologia nessa soma aí. Siga meus devaneios no @literaturaconfessional

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