Mudança: uma breve análise

Existe uma linha tênue entre tentarmos mudar, achar que mudamos e, de fato, termos consciência de que mudamos. Por Larissa Xavier

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Foto: Unsplash

Alterar hábitos e evoluir pessoalmente não é um processo fácil, tampouco rápido; leva tempo e, principalmente, requer muita consciência sobre “o eu”. Apesar disso, ainda sim mudamos de aparência, de conceitos, de opiniões, e até de características relacionadas à personalidade. E mesmo que muito disso venha com certo (ou muito) esforço, e que a idade cronológica tenha majoritariamente responsabilidade por impulsionar esse quesito, mudar quase sempre é necessário, gostemos ou não.

Seja por meio de fotografias ou por meio de uma simples conversa com alguém próximo, pelo menos uma vez você já reparou e/ou discutiu alguns desses desdobramentos relacionados à mudança em um terceiro também. Pelo menos para mim isso é relativamente natural já que tenho certo apreço por observar pessoas e seus traços comportamentais.

Novembro do ano passado (sim, a vida simplesmente voou de lá pra cá e este texto quase que não saía do rascunho) comprei uma edição da incrível revista New Philosopher onde o tema da capa não poderia ser mais provocante:

“Você pode mudar quem você é?

De cara a pergunta ficou martelando na minha cabeça.

De acordo com a publicação, assim como diversos estudos, sim, é totalmente possível mudar quem si é. (Spoiler: o tempo, pra variar, tem grande função nesse processo). Existem, inclusive, diversos meios e técnicas para se chegar lá. Por hora, não venho falar sobre esses métodos, mas sim sobre o que permaneceu em questão pra mim desde então:

Em que momento a sensação de mudança, de fato, chega? Ou melhor, é alcançada? […] Você, por acaso, se lembra da última vez em que se sentiu realmente mudado; uma versão melhorada (assim espero) de si mesmo?

No meu caso, venho nessa onda de tentar mudar certos hábitos e comportamentos faz algum tempo, e me deparar com a revista foi o insight que faltava para levar isso mais a sério. Entretanto, esse período de reflexão (quiçá iluminação) calhou justamente com a minha chegada ao Brasil depois de quase 4 anos morando nos Estados Unidos — período esse sem direito a nenhuma visitinha em terras tupiniquins. Ou seja, tempo suficiente para dar uma sacudida na cabeça alheia e, claro, na minha própria.

Como nada é por acaso, após poucos dias de estadia me deparei com traços perdidos de uma personalidade em questão: a que vos fala. Sem querer querendo, pesquei comentários e ouvi, ainda que distraidamente, conhecidos apontando ditos e feitos relacionados à minha pessoa no passado.

“Lembro que você dizia que não queria casar tão cedo” […] “Mas você sempre foi tão apaixonada por Moda” […] “Quando foi que você ficou tão generosa?”

…entre outros de cunho mais complexo.

O mais esquisito não foi minha falta de memória quanto a esses e outros fatos, mas sim a inconfortável sensação de não me reconhecer [mais] em tais frases ou ações. Foi quase como se eles estivessem falando de outra pessoa, que no caso não era eu de jeito nenhum.

Dos menores aos maiores questionamentos, paralelamente eu refletia comigo mesma:

“Em que momento eu mudei minha ideia sobre casamento? Ou que eu perdi o interesse pela moda? Ou que eu passei a ser menos egoísta?”

Não que esteja transformando o que seria apenas uma reflexão natural num big deal — até porque a gente muda de ideia, de gostos e de atitudes o tempo todo — , mas senti como se eu tivesse sofrido um blackout.

“Quando foi que eu deixei de ser aquela Larissa? Ou melhor, quando foi que me tornei a Larissa ‘de agora’? A que tenho consciência sobre?”

Foi um choque, confesso.

Engraçado que antes mesmo dessa questão filosófica-psicológica surgir, eu já vinha documentando constantemente meu “eu” por pelo menos 5 anos. Quase como um chamado divino, me veio a ideia de registrar via um balanço geral importantes situações vividas e, principalmente, como eu reagi a cada uma delas. Mais luz nesse fim do túnel.

“Por outro lado penso que essa sensação de blackout talvez seja mais um truque do cérebro para deixar registrado apenas aquilo que “convém”, ou um truque danado do tempo que ajuda a nos renovarmos constantemente sem deixar espaço para uma consulta de backup de vez em quando”.

[…]

— Ou na pior das hipóteses, eu esteja “viajando”. E tá tudo bem também.

O X da mudança

Daí que nesse embrolho todo, resolvi tentar “decupar o DNA da mudança” pra ver se eu encontrava o personagem principal que me fez rever os conceitos citados lá em cima. E, assim, cheguei a seguinte conclusão:

Se por trás de cada mudança há sempre um porque (motivo), consequentemente há um período (tempo); um cenário (espaço; lugar); e um(s) sujeito(s) (pessoa ou situação). Todos eles juntos ou individualmente são os responsáveis por impulsionarem uma mudança de atitude ou hábito.

Quem/Onde/O que/Quando impulsionou minha vontade de mudar tais questões?

Apesar do tempo ser o maior meio de medir nossa evolução, no meu caso, entendi que ele teve menos influência nessas mudanças de conceito. Pra mim, foi por “culpa” de um sujeito.

“Creio que somos frutos de nossas próprias experiências. Somos ao mesmo tempo o ovo e a galinha. Mesmo a vida sendo cíclica, tudo que vivemos tende a ir e voltar em diferentes formas e aprendizados. Razão, tempo, espaço, e sujeito(s) operam como uma orquestra, mas idem brilhantemente separados”.

O desfecho

Pude concluir também que a resposta para a minha primeira pergunta (quando de fato sentimos que a mudança aconteceu?) não seja objetiva, difícil de rastrear. Até porque não tenho certeza de que isso seja um sentimento que possa ser sentido instantaneamente, como:

“Hey, Larissa, sua transformação acabou de ser alcançada com sucesso! Parabéns!”

Nah! Mas penso que idem possa ser alcançada se tivermos mais consciência, que por sua vez pode ser efetiva se vivermos uma vida mais presente no presente.

“Acho que toda a transformação precisa ser analisada com certa delicadeza. Não dá pra ir simplesmente no flow sem saber de fato o que te fez cair no canto complicado que é a mudança. Afinal, depois dela, você passa a ver e a sentir tudo de outra forma.”

De modo geral, toda essa longa reflexão me levou a outro três pontos finais:

  • Em tempos de self-care, nos falta sensibilidade para acompanhar nossos próprios processos como um telespectador. Porque na maioria das vezes em que resolvemos fazer algo, ficamos tão imersos que não saímos da bolha nem para dar uma olhadinha panorâmica — e, claro, dar aquela respirada necessária. Muitas vezes é preciso se afastar de uma realidade, adentrar em outra, para no fim ver o arranjo como um todo. #FicaADica
  • O que de fato me deu essa “eureca” de analisar a mudança foi porque alguém que me conhece mencionou uma alteração no meu comportamento. Então, isso me fez pensar e notar que muitas vezes quem percebe ou aponta primeiro que mudamos acaba sendo outra pessoa. Pergunte a alguém próximo sobre seu “eu” de tempos atrás. Aposto que elx vai te dar insights sobre sua personalidade do qual você mesmo nem lembrava. Se por outro lado você estiver em vias de mudar algo agorinha mesmo, tente colocar então sua consciência em total alerta. Nada como ser dominante no próprio jogo da mente, pra evitar truques de “blackout”.
  • Além do quesito maturidade (tempo) fazer toda a diferença, na mesma proporção pessoas e/ou experiências transformadoras (nascimento de um filho, perda de alguém querido, ou nomeie a sua aqui) tem um grande peso nesse processo. Ser humano é um bicho que é influenciado pelo seu habitat; não se esqueça dessa lei básica da vida.

No mais, precisamos ficar carinhosamente atentos às nossas frequentes e/ou longas metamorfoses. É preciso se ver de absolutamente todos os ângulos. Aliás, terapia oferece também uma boa visão 360 graus.

Quanto à mim mesma, eu já havia mudado, eu já tinha me tornado uma nova pessoa. Só não tinha me dado conta ainda.

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Frequentemente escrevo sobre mim, o outro; nós. E, sempre que possível, mistura astrologia nessa soma aí. Siga meus devaneios no @literaturaconfessional

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