eu nunca soube o que era amor

descobri o que era beleza naquele par de olhos.

ela sentava frente a frente comigo e assim foi durante meses; mesmo quando a mudaram de lugar e se sentou duas fileiras além, seu olhar hipnotizante ainda encontrava com o meu em alguns segundos felizes do meu dia. aquele par de olhos grandes me atingiam em cheio, fossem para trocar uma confidência sem palavras, fossem para rir sem sorriso, fossem para o que fosse: gritantes, certeiros e enlouquecedores.

descobri o que era loucura naquelas curvas.

todas. desde o cabelo que se ajeita no meio dos dedos, para o lado-assim, quando ela fica ansiosa ou imperativa. do ombro repleto de sardas como o céu da chapada e colorido por aquela tatuagem que eu sempre tentei decifrar, mas nunca entendi direito. da boca desenhada em seu limite, nem grossa, nem fina; só dela. dos seios perfeitos que eu mal via, mas imaginava quando me deixava distrair e levar pela ousadia de imaginar. até o quadril que se movimenta como aquela dança que te chama, te atrai, e quando você vê já está no meio da roda, cercada e sem saída.

descobri o que era insensatez quando falei teu nome alto pela primeira vez.

ela mexe comigo. ela sempre mexeu comigo. ela é mulher. eu sou mulher. eu sou casada. eu não sei o que isto significa. precisa significar algo? não, não. nunca senti isto antes. ela falou que namora uma mulher. ela beija mulheres. eu quero beijá-la. era ela quem eu esperei esse tempo todo. 26 anos para ser exata. eu tentei, enganei outros, mas, pior, eu me enganei. vinte e seis anos é tempo demais, é repressão demais, é negar demais. só que não dá mais. e ela não chegou, ela surgiu. e por ela eu me disponho a largar tudo, a virar o mundo de cabeça para baixo, a gritar para quem quiser ouvir, inclusive para mim mesma.

descobri o que era paixão quando me deixei sentir.

quando decidi arriscar tudo. quando admiti que aquilo ali era real, que eu sentia, que estava ali. quando aceitei encontrá-la naquela balada e me embebedei e apresentei outra menina a ela quando só queria me apresentar. quando passei um show inteiro olhando aquela nuca e estudando mil abordagens. quando não estudei nenhuma e simplesmente fui. porque, no final, o que a gente precisa mesmo é de 10 segundos de coragem. quando ela me olhou hesitante e não hesitou. me incendiou e deixou queimar…

descobri o que era tesão quando parei de respirar.

quando eu tinha 10 anos eu quis muito ir em uma montanha russa e minha mãe não queria deixar. mas eu quis tanto e sempre que eu quis algo, muito mesmo, eu acabava conseguindo. daquela vez não foi diferente, e eu passei mal o resto do final de semana, adoeci. depois de um médico que não deu jeito nenhum ao meu mal estar, fui à benzedeira que me diagnosticou com “borboletas no estômago” e me curou. nunca mais tive borboletas no estômago, nunca mais senti aquele frio na barriga, que congela, sobe e entorpece. até tê-la ali naquele sofá, que virou cama, chão, mesa, parede, pia, até voltar a ser sofá. onde eu a quis em cada segundo, em cada toque e quis muito, quis demais, quis tudo, até sentir as borboletas se libertarem e invadirem meu corpo de novo, finalmente — e não tem cristo que me faça pisar numa benzedeira, nunca mais.

descobri o que era amor quando joguei tudo fora.

quando toda-aquela-imagem dela, perfeita e inalcançável, ficou de lado. quando larguei convicções, medos, verdades, tudo. quando ouvi sobre medos e contei os meus. enxerguei todas ranhuras, remendos e vi tijolo sobre tijolo, deixando minha construção à mostra também. quando fui sem saber como ia voltar, voltei e a encontrei lá. quando a vi ali, inteira. ela que, como água, me invadiu e transbordou; como o meu sonho onde não restava mais nada da casa inundada, só ela. dançando, livre, linda e feliz na chuva que ainda caia.

porque se eu sou furacão, ela é tsunami.

descobri o que era eternidade a cada novo dia me sabendo dela.

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