Wanderlino da Silva Marinho

A gente escreve para não esquecer. Desdes os primeiros diários em que nós contávamos as rotinas da infância, até os relatos nas redes sociais compartilhando o nosso dia a dia. Mas, às vezes, acabamos esquecendo certas partes de nós mesmos, sem nem mesmo perceber. O mundo pode ser muito pesado, muito barulhento, muito escuro. São tantas possibilidades capazes de nos incapacitar, que se torna extremamente difícil lembrar o que realmente importa. Nessas horas, é importante relembrar quem você é. Saber que você é o conjunto de inúmeras experiências, conexões e ensinamentos de pessoas que passaram na sua vida e acabaram te moldando.

O Wanda foi uma dessas pessoas. Interiorano, analfabeto e deficiente auditivo, ele era uma presença constante na minha vida. O meu tio-bisavô, que ninguém sabia o que fazer com ele após que seu genro que o abrigava (mesmo após da morte da esposa, Maria), Constantino, morrera. Ele tinha sido esquecido pela família. Mas não pela minha mãe, que lembrava e o levou para morar com a gente.

Em todo o período que ele morou comigo, o Wanda sempre foi companhia. Seja nas idas à padaria, no dinheiro que ele me dava escondido para comprar coca-cola, ou nas vezes que ele ficava na varanda só olhando o movimento da rua. Lembro do violão, feito por ele, tocado sem a menor pretensão em sua rede no meio da sala. Eram tempos mais simples, porém felizes, mesmo que nem sempre eu era capaz de perceber isso.

Hoje fazem cinco anos que o Wanda morreu. Meu pai, sempre esquecido, ficou surpreso quando falei que já se passou todo esse tempo. Meu irmão era tão pequeno quando ele faleceu, que nem se recorda dele. Minha mãe já se foi e nem pode chorar mais comigo essa perda. Só restou eu.

E eu lembro do Wanderlino da Silva Marinho, irmão de Maria Marinho Nogueira, nascido no mês de novembro, em Muaná, que adorava tocar violão e que eu amava muito.

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