Querido diário

Eu tenho, de fato, um diário. Um caderninho (na verdade ele é meio grosso e e tem páginas demais para ser chamado de caderninho, mas diminutivos dão uma conotação sentimental para as palavras) preto onde escrevo algumas coisas, não há linhas em suas folhas e isso me da uma liberdade maior para escrever como eu quiser, nunca fui de me encaixar em moldes, muito pelo contrário: sempre me esforcei para romper os moldes que me eram impostos, odeio imposições! Nele eu posso escrever da maneira que quiser e desenhar junto ao texto.

Mas eu não costumo escrever exatamente sobre o meu cotidiano nele, narrar acontecimentos do meu dia-a-dia… Só de vez em quando. E de maneira que eu possa relacioná-los à sua verdadeira proposta. Para ser sincero eu nem escrevo diariamente nele, odeio ter que manter uma rotina ou atividade diária por muito tempo, afinal, esses também são moldes. Então um diário para narrar os acontecimentos do dia-a-dia não daria certo para mim, até porque minha vida pode ser repetitiva, chata e monótona.

“Para quem um diário então, Laro?”

A poesia e a fantasia me ajudam a fugir da monotonia e do desespero quotidiano. Eu não escrevo narrativas sobre o meu dia-a-dia, mas escrevo meus sentimentos e segredos mais profundos e internos que sentem a necessidade gritante de fugirem de mim mas não encontram quem possa ouvi-los. Eu acho que essa é uma das propostas dos diários, não é? Partilhar segredos e sentimentos mais pessoais, então não há nada de extraordinário no que eu faço, inclusive os títulos do que eu escrevo são a data de quando escrevi, como de costume. Exceto pela atitude de ter um diário, algo que caiu e cai cada vez mais em desuso.

Eu já tentei ser do tipo que escreve “Querido diário, hoje vi o garoto que eu amo na rua, mas ele me ignorou” porém sinto que isso é muito vago, qualquer garoto poderia ter me ignorado na rua, o que diferencia este dos demais garotos é o que eu sinto por ele, portanto minha escrita acaba se tornando “Querido diário, eu o amo, mas sou invisível para ele”. O drama e a hiperpoesia ajudam minha vida chata a se tornar mais interessante.

O foco do meu diário então é transmitir para mim mesmo o que eu sinto (já que ninguém se interessa em ouvir ou ler), registrar as demais nuances efêmeras das minhas emoções. Escrever sobre o que senti ontem, hoje, e amanhã e não só sobre as atividades que fiz nesses dias, pois sei que apesar de odiar ter que manter rotinas, provavelmente farei amanhã basicamente o que fiz hoje, mas eu nunca sentirei amanhã o que senti hoje. Não da mesma forma. Meus sentimentos não se repetem, apesar de encontrarem semelhantes. Isso porque eu sou uma pessoa nova cada vez que sinto algo. O que senti, o que sinto, o que sentirei… Eu preciso registrar cada mudança. É para isso que tenho um diário, sei que ele quer me ler, e eu quero lê-lo também.

Como eu adoro uma metalinguagem, escrevi este texto nele primeiro para então digita-lo aqui. Assim como a maioria dos textos aqui publicados saem de lá.

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