A mulher negra e a síndrome de Alcione

Whitney Houston, Elza Soares, Toni Braxton, Alcione, Tina Turner, Beyoncé, Rihanna, e agora Sza. Todas elas cantam fielmente a relação da mulher negra com o amor. Letras que beiram à loucura e o desequilíbrio, afinal, somos sempre as loucas, as mais fáceis e descartáveis.

Depois de enfrentar a dor da solidão, a mulher negra ainda tem que lutar incansavelmente pra que alguém permaneça sem se cansar. Alguém que esteja ali por que quer, e não por apelo. Eu tô longe de ser expert em relacionamentos, mas a real é que a gente tem medo. Medo de não corresponder as expectativas do parceiro, medo de ser trocada, e não só por mulheres brancas, mas também por uma preta mais clara, ou outra que a gente julgue ser mais atraente. Estamos cansadas. Calejadas pela vida, o mundo já é pra lá de cruel com as nossas e quando chega na hora de amar, somos golpeadas. Sem dó.

Nunca nos sentimos suficientes, e não só por que não temos o corpo escultural da Iza, ou nos achamos inferiores intelectualmente, mas também por que aprendemos num processo estrutural que a mulher preta é a que cobra demais, é a que luta pra construir uma plantação sólida num solo infértil. É a que perdoa tudo, e é taxada de agressiva quando explode. É a corna do rolê, que sabe das traições mas permanece ali. Seja como a “de fé” que deve aguentar até o último soco, ou a amante que espera ansiosamente pra ser a única na vida do cara.

É a preta quem deve andar na linha e não pode apressar as coisas, é a que demora meses (ou até anos) pra conhecer a família do cara. É a que ele só chama pra sair na calada da noite, e a que ele não anda de mãos dadas nos passeios durante o dia.

E até quando?

Me pego pensando no que Alcione quis dizer em “Faz uma loucura por mim” e de fato, cês conseguem acreditar quando ele diz que sentiu saudades? É necessário um ato de loucura pra que a gente se sinta amada? Isso não é nada saudável. Não é normal, mas é o que de um jeito ou de outro, nós, mulheres negras esperamos: O ápice, o extremo. Uma prova de amor.

Mendigar afeto e se culpar só nos mata ao pouquinhos, nos enfraquece, nos deixa reféns de homens que nos querem só pra eles, mas não querem ser só nossos. E tudo bem não querer, mas não aceite migalhas, você merece um banquete inteirinho.

Outra música que resume bem o que quero dizer é “Pior é que eu gosto” também da Alcione, onde ela vive o famoso relacionamento iô-iô, são as fases típicas desse tipo de relação, muito comum na vida de uma mulher negra:

“De repente é mais uma vez
Que você me procura, eu nem acredito
Esse tipo de amor qualquer dia
Me leva à loucura, eu já não duvido
Eu não sei se o que eu fiz
Foi pior do que voce me fez
As palavras doeram tão fundo, que eu disse pra mim
É a ultima vez”

Depois das 785 tentativas de reconciliações, você ainda insiste numa relação sem perspectiva alguma. E continua achando que vai ser diferente. E você jurou de pé juntos na última briga que não perdoaria, mas vai lá e perdoa. E tenta de novo. E desgasta até o último fio de cabelo pra fazer dar certo. Seja por medo da solidão, ou por que ama mesmo.

“Mas teu corpo, teu cheiro e teu gosto
Tem qualquer mistério que mexe comigo
Você chega, me pega de um jeito
Me tira do sério, parece um castigo
Hoje eu digo que não volto mais
E amanhã ou depois eu aposto
Se eu não te procurar você vem me buscar
E o pior é que eu gosto”

Você acha que só ele vai te querer, e que nenhum outro vai ter o mesmo toque que o dele (e não vai mesmo, mas follow the baile, virão melhores) E de novo, você quebrou a promessa de não voltar. Mas se você não for atrás, certamente ele vem. Ele sabe onde te encontrar. Ele gosta de você, mas na cama. E o pior é que a gente não gosta, Marrom! A gente aceita.

“Não dá, você não vai mudar
E se eu me aborreço não sei segurar
Sei lá, se é você ou sou eu
Só que um sem o outro não pode ficar
Hoje eu digo que não volto mais
E amanhã ou depois eu aposto
Se eu não te procurar
Voce vem me buscar
E o pior é que eu gosto”

É aí que você deveria por um ponto final, cê sabe que não vai mudar, né? Você tentou, fez o impossível. Quantas vezes já perdoou? Quantas vezes você já se culpou por ele não querer ficar?

Nós já vimos esse filme, até mesmo dentro de casa. Com as nossas avós, mães, tias. Não precisamos sentir na pele a dor de viver a vida em busca de relacionamentos afetivos, dê um tempo pra você, estude, trabalhe, foque em projetos pessoais. Gaste o seu dinheiro consigo mesma, invista em você. Ponha-se sempre em primeiro lugar. Ninguém ama mais a mulher negra do que ela mesma. Faça isso por você.

Seja a sua prioridade, abandone a síndrome de Alcione.