O bicho-da-seda e o seu sacrifício no processo da sericicultura

Ouvir falar sobre o bicho-da-seda todos nós já ouvimos, mas saber como funciona o processo de fabricação da seda poucos sabem. Se falam muito da indústria do couro e da pele de animais, toda a toxidade vinda através dos curtumes, e da injusta e sofrida matéria-prima animal. Porém muito pouco se escuta sobre o bicho-da-seda e de tudo o que ele sofre nos procedimentos da sericicultura (produção da seda).

O bicho-da-seda (Bombyx mori) é original do norte da China. Há mais de 4.000 anos, na Ásia Central, descobriu-se que esses bichos são excelentes fontes de matéria-prima para cordões e tecidos. Nessa ocasião se iniciou um processo degenerativo, no qual essas lagartas tecedoras perdem seu ambiente natural e são introduzidas em recintos, onde passam todo o seu pequeno ciclo de vida.

Atualmente, o bicho-da-seda não coexiste mais em seu habitat natural e se desconhece a época em que a espécie sumiu das florestas da China. Hoje, existem mais de 400 espécies do bicho-da-seda. Eles já foram submetidos a inúmeros testes e cruzamentos artificiais com a intenção de fortalecer ainda mais o cordão que fabricam e, inclusive, de modificar a cor desses fios. As mariposas do gênero Antheraea, umá espécie de bicho-da-seda que veio depois dos tradicionais Bombyx, também são grandes produtoras de seda.

A indústria da seda transformou o bicho-da-seda em um animal degenerado e incapaz de ser introduzido novamente na natureza. Além de modificações genéticas, as lagartas ficam protegidas de seus inimigos naturais nos viveiros e param de desenvolver a auto-defesa de um sistema imunológico comum. As asas das mariposas se atrofiaram durante o processo de domesticação a que foram submetidas por vários séculos, sendo assim, não podem mais voar.

O bicho-da-seda alimenta-se exclusivamente de folhas de Amoreira em toda a sua fase de vida em lagarta — nesta fase são alimentadas em excesso para que cresçam rapidamente e forneçam mais fio. No fim de um período de pouco mais de um mês, a lagarta ganha uma cor amarelada e começa a soltar um fio para formar o casulo do qual se cobrirá para se tornar uma mariposa (o estado adulto do bicho-da-seda). É esse o fio utilizado no processo de fabricação da seda, um animal produz sozinho um único fio de seda, que pode chegar a 1,3 km de extensão.

Ocorre que, para retirarem esse fio, a grande maioria das mariposas ainda dentro de seu casulo são mortas, assadas em um forno aquecido em até 105° C. A crisálida (casulo) tem que ser sacrificada antes de seu amadurecimento, no intuito de preservar a integridade do fio. As poucas mariposas que não passam por esse procedimento são as que estão destinadas a reprodução em massa, para a geração de novas lagartas. Cada mariposa do bicho-da-seda bota, em média de 400 a 500 ovos, que repetem todo esse processo e sacrifício aos novos animais.

A indústria da seda é tratada no mundo como ecologicamente correta, teoricamente com baixo impacto ambiental e pouquíssima concentração de substâncias tóxicas inseridas na natureza. Porém, como pudemos observar, essa dita sustentabilidade é mascarada. É hora dos ambientalistas, ativistas e protetores de animais darem mais atenção ao bicho-da-seda. É hora, também, de todos se conscientizarem sobre o extermínio do bicho-da-seda e sobre o consumo desse produto, um tecido tão luxuoso, confortável e caro, mas que leva com ele uma carga de tortura e extinção de uma espécie animal inofensiva e sensível. Nunca é tarde de rever nossos conceitos e nosso consumo.