porque todo mundo precisa de algo pra chamar de seu

Eu sempre tive o costume de me colocar para baixo.

Todas as vezes em que eu me arriscava a conhecer uma pessoa, um lugar, uma nova atividade ou tentar criar algo novo, sempre esbarrei no maior obstáculo que alguém pode ter nessa vida, para tudo: a si próprio. E mesmo que eu tentasse trabalhar isso, e mesmo que eu sempre tenha sido o tipo de pessoa que valoriza os atributos e trabalhos alheios, eu simplesmente não conseguia me ver sendo boa em nada. Não conseguia me imaginar apresentando algo bom que eu tenha feito sozinha pra alguém.

Nesse meio termo, passam muitos momentos e pessoas em nossas vidas. E por trás do “oi-tudo-bem-o-que-faz-da-vida”, dos copos de café ou cerveja e do interesse (genuíno ou não) por outrem, conheci pessoas que me ensinaram coisas novas, que me soavam tão autênticas por terem hobbies legais, por serem cheias de si, inteligentes e bonitas. E quanto mais eu as admirava, mais me colocava para baixo, como se eu não tivesse nada para oferecer.

Bem, há alguns anos atrás eu conheci uma coisa nova que me encheu de vida: a fotografia. Comprei uma câmera, arrisquei uns cliques com uns amigos, um deles inclusive me presenteou com uma câmera analógica. E mesmo amando toda a experiência, era inevitável me sentir péssima ao, simplesmente, abrir o Instagram ou qualquer outra coisa do tipo e ver as fotos de outras pessoas. Me fazia fisicamente mal. Naturalmente acabei deixando isso um pouco de lado, até o começo do ano passado.

Quando eu voltei a praticar fotografia, meus amigos me chamaram para fazer as fotos do nosso trabalho de conclusão de curso, o que me fez chorar de nervoso e pensar “meu deus, eu não vou conseguir fazer isso, jamais”. Mas fui. Desde então, muitos me procuram pra saber algumas coisas do assunto, para fazer fotos deles, e até cheguei a trabalhar com isso como freelancer.

Onde eu quero chegar com esse texto quase autobiográfico?

Você precisa de algo só seu.

Essa semana eu conversei com um amigo sobre a fase de mudança que ambos estão enfrentando. Nisso, citamos nossos parâmetros para conhecer pessoas novas, e como nos incomodava quando conhecíamos alguém que nos causava tanta admiração que nos fazia questionar nossas próprias qualidades. E isso me fez pensar numa coisa.

Quando a gente descobre o que ama fazer, essa coisa, esse hobby, ele reflete em quase tudo na nossa vida. Eu, por exemplo, me tornei muito mais crítica após minha fase sem fotografar, vendo tudo com outros olhos (quase literalmente). E quando a gente sabe que faz bem o que ama fazer, a gente não se menospreza. A gente não se sente inferior. A gente não se deslumbra.

Tudo bem, é realmente muito bom admirar alguém, seu trabalho, sua arte. Mas quantas vezes você fez algo e ficou satisfeito com o resultado, com o que você se propôs a fazer?

Quando você passa a se admirar em primeiro lugar, todo mundo que é incrível continua incrível, mas você sabe que tem algo que é só seu pra oferecer pro mundo.

Quando você tem algo que faz e que admira muito em si próprio, você tem “a sua coisa”. Não importa o quão maravilhosa a outra pessoa seja, se pinta, se canta, se dança, se consegue fazer dois cavalos selvagens dançarem tango no meio da Avenida Paulista — você tem a sua coisa. E você é bom nela. E isso te torna alguém foda.

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