Kurt Cobain, Jim Morrison, Amy Winehouse, Janis Joplin. Você provavelmente os conhece do clube dos 27: músicos cuja vida fora interrompida cedo demais, e que deixaram um gosto amargo na boca da certeza que poderiam ter sido muito mais, poderiam ter nos dado muito mais. Porém, a mística ao redor de artistas que nos encantaram e nos deixaram não se resume ao talvez enfeitiçado número 27: River Phoenix, Judy Garland, Amelia Earhart, entre outros, são também alvos das cartas de Laurel, adolescente estadunidense que recentemente perdeu a irmã, tão jovem, tão bela e tão trágica. Assim como cada uma dessas celebridades.

Logo após entrar no Ensino Médio, Laurel recebe uma tarefa da sua professora de inglês: escrever uma carta a um famoso já falecido. A lição, aparentemente cotidiana a um estudante de literatura, toma um valor especial para Laurel: sua irmã, May, bela e popular, tudo o que Laurel aspirava ser, morrera no semestre passado, de maneira abrupta, deixando cicatrizes e culpa na sua irmã mais nova. Laurel, então, encara a tarefa com mais seriedade que seus colegas: ela começa a escrever não somente uma carta, mas várias, ao longo de um ano letivo, funcionando como diário e maneira de superar seu passado.

“Cartas De Amor Aos Mortos” tem uma maneira fascinante de intercalar a vida de Laurel com a vida do famoso a quem a carta está sendo destinada. Quando se trata de uma pessoa nova, a quem ela nunca escreveu antes, Laurel conta uma sinopse da vida da pessoa, o que levou ela à esse caminho, o que aconteceu de errado na vida da pessoa para terminar dessa forma. Como se trata de um livro de cartas, é escrito na segunda pessoa, então vemos uma conversa, unilateral, entre Laurel e a celebridade em questão. Após a vida da pessoa em questão ter sido contada, ela começão, então, a falar da sua própria vida, de como ela se identifica com o problema da pessoa e, funcionando como um diário, o que aconteceu na sua vida desde que ela escreveu a última carta.

Apesar de bem psicológico, o livro não se resume a reflexões. A vida de social de Laurel é movimentada, impulsionada pela sua chegada ao Ensino Médio e a novidade de tudo aquilo. Apesar da alegria de ter amigos descolados, e até um interesse amoroso, a sina de Laurel é constantemente se comparar à sua irmã, a qual ela a coloca num pedestal, idealizando sua imagem, o que fica comprovado na certeza interna de que sua irmã seria uma fada.

Laurel carrega uma culpa enorme dentro de si, não só pela morte em si de sua irmã. O divórcio dos pais, os segredos dos amigos, a situação de seu relacionamento amoroso, a tristeza de sua irmã, tudo, em seu subconsciente, carrega uma parcela de culpa, e, durante o livro, a vemos aprendendo a lidar com esse sentimento, e buscar, dentro de si, o que causou todos esses traumas e medos enraizados.

A trama possui também um mistério, que se dá na causa de morte de May. Todavia, esse não é o foco, o interessante é perceber o quão deturpado um acontecimento pode ficar, aos olhos de uma adolescente, a ponto de se culpar por algo que, em olhos de terceiros, não faria sentido. Temas pesados são tratados, porém tudo com muita sutileza, com tons pastéis, deixando, sobretudo, a sensação de estarmos lendo um livro bonito. A capa, então, é muito apropriada.

Mais do que qualquer coisa, “Cartas De Amor Aos Mortos” é um retrato da adolescência, com flashes de glitter, música, culpa, angústia, primeiras vezes e traumas. Nada mais humano.