Sobre o hábito de (não) ler

Hoje percebi que, no semestre em que eu resolvi parar um pouco no quesito “faculdade” logo após de formar, eu ainda não li nem 1(um) único livro. Nenhumzinho. Aquele sonho do tempo livre não me deu retorno algum.

Já estava aqui me culpando por ser uma péssima ex-estudante de Letras e que isso não tá certo, eu pego em um livro e não consigo ler por 15 minutos, será que desenvolvi DDA?, etc etc

Mas caras: eu leio bagarai. Pra caramba. Muito.

Explico: eu corrijo redação de pré-vestibular e dou monitoria de redação. Basicamente, em um dia normal, eu leio por volta de 30 textos em uma rotina saudável de trabalho. 50, nos dias de correria.

Então eu acordo, vou trabalhar, no ônibus da ida eu leio uns artiguinhos que salvo no celular, daí chego no trabalho, leio redações, descanso 5 minutos lendo meu feed do Twitter, salvo mais alguns artigos pra ler, volto ao trabalho, leio redação, almoço, volto ao trabalho, leio redação até a hora de ir embora, no ônibus de volta eu leio mais alguns artigos salvos, chego em casa, como enquanto leio outras coisas no computador, vejo uns vídeos do TED, deito na cama…

e resolvo pegar um livrinho bobo pra ler, sei lá, um Saramago, Evangelho Segundo Jesus Cristo, por que não? E aí, surpreendentemente, eu não aguento ler nem 10 minutos e minha atenção já vai embora e eu resolvo dormir. Frustrada. Arrasada.

Nos fins de semana, eu tento diminuir a rotina e durmo até mais tarde, mas outro dia o meu namorado me viu no celular há mais de meia hora e perguntou, claramente num tom de brincadeira que não percebi:

-Que que cê tá leeeendo aí?

-Ah, um artigo mó massa sobre feminismo que salvei no Pocket, quer que eu te mande?

-…

Cansada de (não) ler e de dormir frustrada, obviamente eu não pego o bendito do Saramago no fim de semana. É óbvio que não.

Tô tentando dizer pra mim mesma que isso tudo não é uma desculpa muito elaborada que resolvi criar pra ler menos que deveria mas sim um texto, um desses interessantes que falam sobre como as coisas estão diferentes na modernidade e que ler é uma atividade que não se performa mais da mesma maneira que antes.

Mas vocês já sabem disso. Ou são que nem eu que ainda acha que lê pouco porque lê numa tela que brilha? Ou caem no conto do vigário de que os smartphones fragilizam as relações?

Me poupem.