A dor e a delícia de estar só

Estar sozinho pode ser desespero ou liberdade. Só depende da saúde mental

Escrevo este texto sozinha, em uma cafeteria – que não me dá muitas opções já que não posso tomar cafeína e sou intolerante à lactose. Adele e “set fire to the rain”, minha música de tacar o foda-se toca no local. Um sorriso, daqueles que andam quase desaparecidos, surge.

Fiquei de encontrar uma grande amiga aqui, para tocar projetos parados numa mente negativa por anos. A nova Laura em construção não permite mais isso.

Pedi para os meus pais para que me trouxessem até aqui antes do horário combinado. Desconfiados, me perguntaram mil vezes se eu estava bem para ficar sozinha. Desde que tentei tirar minha própria vida, sempre estou com alguém – seja minha mãe, meu pai, minha irmã ou meu namorado. Entendo a preocupação deles. E até admiro. Poucos pais largariam suas vidas em outra cidade para cuidar de uma filha de 26 anos em depressão e transtornos de ansiedade que quase geraram consequências fatais. O fato é que eles concordaram. A nova Laura precisa disso.

Estar só pode ser dor. Quando comecei a sentir a depressão entrar, eu — que moro sozinha, o que sempre foi meu sonho — me peguei deitada, chorando no chão no banheiro sem conseguir levantar e fazer a coisa mais simples que eu precisava fazer para começar meu dia: um banho. Eu chorava e gritava por socorro. Só levantei quando meu namorado chegou quase uma hora depois para me acolher.

Quando comecei a escrever neste diário (todos estes textos são escritos em um caderno que carrego na bolsa. Publico os que acho que podem ajudar alguém). Há um mês, escrevi isto daqui: “Como pode alguém se sentir tão sozinha com tantas pessoas dispostas a ajudar? Não há explicação para a minha dor. A vida é feita de contradições: querer estar isolada e sofrendo a minha angústia no meu cantinho, ou, estar acompanhada e, da mesma forma sentir a solidão em meus pensamentos”.

Os únicos momentos em que fico só há cerca de dois meses são no meu ritual de ir para a cama. Cedo, depois de tomar o meu chá e esperar até que os remédios me tragam o sono. Enquanto isso, com a porta fechada, leio todos os livros que sempre adiei ler. E quer saber? tem sido ótimo. Comprei várias outras obras para auxiliar na descoberta dessa nova Laura. Nada de autoajuda, mas histórias que mexem comigo, aquela mulher que luta, que não se abala, que, não se matar diante da angústia e culpa das obrigações e pressões da vida.

A cura tem altos e baixos. Hoje eu estou no meu alto. A angústia parece dormir e por vezes sinto ela se mexer no meu peito. Nada grave. Estou aqui há meia hora, escrevendo, lendo, com um leve sorriso de quem alcançou uma vitória. Pequena, mas uma vitória. Desde que a depressão escancarou o meu ódio por mim mesma, foi impossível ficar sozinha comigo e com meus pensamentos. Hoje isso aconteceu.

A solidão existe mesmo na multidão. Resta a nós saber viver com as dores e as delícias dela, aprendendo a nos amar para que a solidão não seja um sofrimento todo tempo. É assim que a nova Laura vai ser — sozinha quando precisar, sofrer com as equivocidades da vida e saber estar acompanhada sem se sentir só.

Vou passar a terminar meus textos com um costume argentino. Enquanto a gente deseja tudo de bom, eles jogam direto: Sorte!

Então, Suerte!