O dia em que eu acordei querendo ser outra pessoa

Na minha cabeça, a felicidade virá quando eu me transformar em outra Laura

Hoje eu acordei querendo ser outra pessoa. Totalmente diferente — talvez não de corpo e alma, mas de atitude. Fico pensando em ter tomado outros caminhos na vida, que tivesse ido para lugares diferentes e que não tivessem me feito parar nesta cama, com esta angústia importunando todos os meus dias.

Essa outra Laura teria coragem e segurança pra segurar a mulher que ela sente que é não ficar se escondendo atrás de medos e da angústia. Até queria ser eu mesma, mas em outro lugar. Um lugar onde eu colocasse a cara da rua pronta pra enfrentar o mundo e com segurança pra aguentar todas os problemas que vem com essa confiança.

Queria estar escrevendo sobre o que eu sempre sonhei, fazendo a diferença, colocando a cabeça no travesseiro realizada. Queria dormir o sono dos justos e não me esconder atrás das pílulas que me apagam, para que a lembrança latente dos meus fracassos não me mantenham acordada.

Meu sonho é sair de casa com confiança, com o cabelo que eu quiser, e sentir um poder que acho que está escondido em mim em algum lugar. Queria honrar a máquina de escrever tatuada no meu braço esquerdo e fazer com que as coisas mudem um pouco pelas minhas palavras.

Também queria que o balão tatuado no meu outro braço me levasse para outro lugar, em que eu possa ser tudo isso. Sentir a coragem de chegar mais perto, ver atrás dos muros, chegar mais perto e sentir tudo o que está dentro dele, até encontrar a razão de viver. Sentir. Eu queria sentir algo que não fosse angústia, dor, desespero e a falta de tudo isso que eu queria ser.

Essa Laura sim é a que eu sonhei em me tornar desde pequena. Não essa, que tem tanto medo de sair na rua, de enfrentar o que ela precisa enfrentar. Queria sentir orgulho das minhas conquistas e sair de casa de cabeça erguida, com o intuito de conquistar o mundo.

Mas, como eu estou presa sendo eu, com meus medos e minhas dores, me agarro na bailarina tatuada no meu braço direito, que se equilibra na palavra livre, que está ali para me lembrar de tudo isso, mesmo que eu já tenha caído ela um par de vezes. Mas ela veio para a minha pele com o intuito de me lembrar de outra coisa — nas palavras de Aldir Blanc e João Bosco, que sempre vem aos meus ouvidos (e aos de todo mundo) na voz de Elis Regina, que eu admiro tanto. “Dança, na corda bamba de sombrinha e em cada passo dessa linha pode se machucar. Azar, a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar”.

Assim, como sou, com as minhas fraquezas, inseguranças e medos. Um dia, quem sabe, eu seja a moça tatuada em meu ombro, que tem os cabelos soltos, os olhos fechados e o sorriso despreocupado de quem sabe que tudo passa. Um dia, quem sabe, eu acorde a pessoa que eu acordei querendo ser hoje.

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