Olá, eu sou a depressão

Please to meet you, hope you guess my name. Me perdoem pelo trocadilho besta com as palavras dos Rollings Stones. Até porque muitos de vocês me conhecem por outros nomes: falta de Deus no coração. mimimi, falta de louça para lavar, falta de lote para carpir e assim vai. Sou muitas vezes confundida por todos esses nomes, o que só atrapalha quem vive comigo diariamente.

A verdade é que eu sou uma doença que entra lentamente na cabeça das pessoas, mostrando que o mundo é ruim e que a vida não vale a pena. O desespero, a angústia e o abandono serão eternos companheiros. Não importa o tipo de vida que essa pessoa leve: ela pode ter a melhor família do mundo, ser cheia de amigos, ter uma casa só dela ou que não tenha perdido ninguém importante. Eu chego de mansinho, como um sentimento de culpa por ela não ser boa o suficiente, descarrego fortes crises de ansiedade, não a deixo respirar nem dormir. Trago a eminência da morte. Crio sentimentos de abandono, de solidão. A solidão é tanta que faço questão de tentar fazer com que ela desista de tudo, já que nada que ela possa fazer vai mudar a vida de alguém — quem dirá o mundo. Não há amor, não há carinho, não há sol. Só há garoa, tristeza e solidão.

Eu faço as pessoas paralisarem. Elas não conseguem produzir, trabalhar, estudar, pensar em nada se não em mim, que, como um martelo faço a culpa, a ansiedade, a tristeza e a solidão permanecerem todos os dias, todas as horas dentro delas. Não as deixo dormir.

As pessoas tentam ajudar, pedem pra ela me deixar de lado, “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”, como se isso fizesse com que eu desaparecer. Eu estou nas entranhas, eu corro nas veias. Eu sou o desespero, eu faço a respiração acelerar, crio crises de choro sem mais nem menos.

Mas não me culpe por tudo isso. A cabeça das pessoas, assim como a sua, é uma máquina complexa, que guarda coisas que você nunca imaginou que ainda estariam ai, martelando comigo na sua cabeça. Por mais que eu seja responsável por tirar milhões de vidas todos os anos, não acho que eu seja a vilã desta história toda. Até porque não acredito em vilões e mocinhos.

Você, que abandonou um amigo quando ele precisava de você, que forçou uma situação para qual a pessoa não estava preparada, que jamais deixou ela falar sobre os seus sentimentos — interrompeu, silenciou, falou que era besteira. Você só me deixou mais forte, mais desesperadora.

Se um dia você ver alguém precisando de ajuda, não suma. Uma mensagem de carinho pode evitar uma tragédia. Esteja ao lado dela, outras coisas podem esperar. Faça ela perceber que a vida dela vale a pena quando ela não vê nada além de um vazio imenso que a puxa cada vez mais. Eu não sou falta de Deus do coração. Eu sou falta de paciência, de compaixão, de conhecimento, de ouvidos. Se você mudar, talvez eu deixe de levar tantas vidas. Talvez um simples apoio, um “estou do seu lado” pode mudar uma história inteira.

Antes de eu me despedir, gostaria de fazer um único pedido: paciência. Quem está comigo, as vezes não sabe, não consegue perceber que não há saída. Diga a ela constantemente o quanto ela é especial. Tente fazer com que ela encontre razões para estar aqui. A ajude a procurar ajuda. Se não pode ser tarde demais.

Agora, preciso me despedir. Outras vidas me aguardam.

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