O que aconteceu com o Pink Vader?

Há quase dois anos a URL do Pink Vader foi redirecionada para o Tumblr e o site desligado sem maiores explicações. Nada de texto de despedida ou nota de esclarecimento, apenas uma tomada sendo puxada e a luz apagada sem olhar para trás.

Muitas pessoas vieram me questionar o que aconteceu, se o site voltaria, mas falar sobre nunca foi fácil para mim. Olhando para trás percebo que nem eu mesma sabia explicar o motivo, apenas que precisava me afastar disso tudo. Algo que eu amava fazer, escrever, tinha se tornado um fardo. Por esse motivo acho mais fácil explicar três acontecimentos importantes que me marcaram bastante e fizeram tomar a minha decisão.

Antes de irmos andando pela rua das memórias gostaria de deixar claro que este não é um muro das lamentações nem espero em troca que pessoas venham passar a mão na minha cabeça. Apenas um relato do que aconteceu, ok? Eu tô bem agora. Tanto é que do nada veio esse ímpeto de botar no papel qual foi o problema. Essa necessidade de escrever e publicar ao ponto de não me deixar dormir, é algo que não acontecia tem uns três anos.

Vou relatar os acontecimentos na ordem cronológica tentando enxugar detalhes desnecessários mantendo o centro dos acontecimentos.

PONTO UM: escrevo e publico um texto chamado Party Poopers onde desabafo sobre a sensação do público nerd andar numa vibe meio de sentir prazer em estragar a festa dos outros, de não ser mais possível postar um “gostei desse filme” sem receber de volta alguma resposta bastante mal humorada de alguém que está te julgando muito inferior só porque ele discorda de você. Explicava a diferença de crítica e diálogo para “minha opinião é melhor que a sua”. Aparentemente escrevi algo muito ofensivo já que uma galera achou esse texto uma ótima justificava para ficarem me perseguindo falando que sou contra a crítica e liberdade de expressão (oi?…) e chegaram ao ponto de ir atrás da minha família para pedir para me internarem. Lembro também claramente de ter recebido de uma menina a seguinte frase “se você anda depressiva porque sei lá algo muito babaca tipo o seu papagaio morreu se mata e muda de profissão” e também de terem criado um fake falando sobre como sou babaca. Ok, acho que essa reação toda só provou o meu ponto sobre ter gente que não sabe lidar com opinião contrária de forma madura… Lembro de ficar vendo toda essa reação com a maior preguiça do mundo achando essa comoção bastante desnecessária.

PONTO DOIS: aniversário da minha mãe. Estou lá de boa em um restaurante celebrando a data quando recebo a mensagem de um amigo preocupado avisando que o Pink Vader teve seus comentários invadidos por trolls… De novo. Mais tarde abro o site para descobrir lá duas centenas de xingamentos e coisas bacanas de ler do tipo “sua gorda escrota, pq vc não morre?” e “lugar de mulher é na cama e calada” espalhado pelas mais diversas postagens. Algum bug ou hack, não sei até hoje, desabilitou os filtros de segurança e simplesmente possibilitou ser publicado sem aprovação comentários que já estava acostumada a ler com uma certa frequência. A sensação foi de cansaço com um misto de questionamento. Por qual motivo era legal ter um blog mesmo?…

PONTO TRÊS: a cereja no sundae de cocô foi o dia em que o Jovem Nerd resolveu discutir feminismo comigo no Twitter. O resultado disso foi parar no Trending Topics Brasil, ganhei uma postagem do Bobagento (já apagada) cheia de ofensas a minha pessoa ao mesmo tempo que essa trupe gigante de seres famosos e não famosos acharam bacana ficar me xingando, me transformando em piada e me atacando. Tudo isso por ter tido a ousadia de dizer que o Nerdcast é bastante machista e não concordar que é ok assediar uma mulher só porque ela está de decote. Roupa não é consenso. Nossa. Que sacrilégio ousei digitar. Qual a reação do Jovem Nerd a tudo isso, um cara que já conhecia pessoalmente há alguns anos e cuja admiração pelo trabalho deixei clara mais de uma vez? Rir publicamente com a galera sendo escrota enquanto me mandava e-mail pedindo desculpas sem ninguém ver. Apesar de saber que o grupo de “amigos” do Twitter estavam fazendo algo bastante feio, achou melhor não ir contra e fez vista grossa. É. Que bacana. Muito legal ver alguém que você admirava te largando no covil do monstro sem o menor remorso. Foi nesse momento em que finalmente veio a realização de algo que já sabia tinha algum tempo: por mais que eu trabalhe, por mais que eu me esforce, eu NUNCA vou fazer parte de verdade desse grupo pelo único motivo que eu tenho uma vagina e bros before hoes.

“Ah, você está exagerando. Só porque não gostaram de algo que você falou não significa que seja por causa do seu sexo”. Olha, confesso que pensei como você, senhor voz não identificada, por um bom tempo. Tive a sorte de ser criada por um pai e uma mãe que nunca disseram aquelas babaquices de isso não é coisa de menina ou me julgaram menos capaz por causa do meu genêro. Quando finalmente comecei a interagir com esse mundão sem o filtro da família foi difícil entender porque raios algumas pessoas ficam tão ofendidas quando expresso a minha opinião ou sou eu mesma.

Por exemplo, em paralelo de toda essa coisa ruim acontecendo em momentos associados ao Pink Vader, a minha vida profissional ia muito bem. O que tornava todo esse lance de ter blog cada vez mais sem sentido. Me orgulhava (e ainda me orgulho) de na época estar trabalhando como community manager da Coca-Cola. No ápice do furor não é que o Tenso Blog e o Bobagento acharam de bom tom entrar no LinkedIn e começar a publicar no Twitter parte dele? De acordo com os tweets nunca que a Coca-Cola contrataria uma feminista mal comida como eu para algo tão importante. Magina se uma mina com opinião ia ter um curriculum assim pffffff…. Sério, foi nesse nível que a coisa toda chegou. Então sim. É por causa do meu gênero. Esse é apenas um dos diversos exemplos que deixa bastante claro o quão machista o público nerd brasileiro é.

Enche a caralha do saco ter de lidar com homens que viram criança toda vez que você ousa dizer que não curtiu o final de Mass Effect 3 ou que gostou de Prometheus. Existem essas ideias que a massa nerd elege como correta e se você fala um isso fora do script pré-aprovado pela alta cúpula, pronto, é justificativa para receber umas mensagens bem horríveis pelos próximos anos.

“Magina, caras também leem respostas mal criadas. Você que está exagerando”, diz novamente a vozinha que se recusa a acreditar. Só sei que nunca conheci um cara que CINCO anos depois de ter participado de um podcast e dito que a HQ de Kick-Ass não tem um final melhor que o filme ainda tem de lidar com trolls que acham que isso é prova o suficiente sobre o meu (mal) caráter justificando assédio, ameaças de estupro, ameaças de morte e piadas sem graça no geral. Caras que produzem conteúdo também leem respostas escrotas? Com toda certeza! Mas duvido que seja um feedback com a mesma maldade com o que fazem para mulheres. Ou que invalidaram algo que ele disse na base do “ah, mas é gorda” ou “ah, deve ser tpm”.

Enfim. Não estou aqui contando tudo isso para sentirem dó de mim não. Estou contando porque acho importante deixar claro que esse tipo de coisa acontece sim e também por que simplesmente faz parte da história do fechamento do Pink Vader.

Engraçado que vejo o pessoal que começou a produzir conteúdo na mesma época que eu ficando cada vez mais seguro de si enquanto todo o processo comigo foi o contrário. Cheguei num ponto em que só sei que nada sei e não acho minha opinião melhor ou mais relevante do que ninguém, foi uma experiência que ensinou bastante humildade no sentido que aprendi que o mundo é muito maior do que pensava e que sou apenas uma migalha nesse marzão de gente. Ao mesmo tempo que tudo isso aconteceu, o fogo de escrever foi apagando. Não tinha mais vontade nenhuma de publicar, parecia sem sentido. Só queria ficar na minha sendo feliz sem ter de justificar nada para ninguém. E foi assim que o site fechou do dia para a noite. Eu precisava desse espaço. Cansaço resumia bem o que sentia em relação a tudo.

Agora me encontro aqui, quase dois anos depois escrevendo esse texto às oito da manhã de um sábado. Do nada veio esse ímpeto de contar a minha história, de publicar e ser ouvida. O tempo passou, as feridas fecharam, eu mudei, a internet mudou.

Por favor, não ouse pensar que todos esses acontecimentos me tornaram uma pessoa amarga. Pelo contrário, fico MUITO feliz em saber que hoje em dia essas situações gerariam uma reação diferente das pessoas. Agora existem comunidades de minas nerds que cansaram de passar pelas mesmas coisas que eu e juntaram forças. E agora também existe uma consciência maior sobre esse sexismo tão intrínseco na nossa sociedade. Fora a questão básica que sou uma pessoa diferente que lidaria de outra forma com todas essas situações.

Me enche de esperança ver pessoas como a Malena fazendo sucesso em um campo que me tratou tão mal. São pessoas como ela que me fazem acreditar que dias mais felizes estão por vir e que estão me ajudando a reacender o meu interesse por produzir publicamente. Sim, publicamente. Eu nunca parei de fazer conteúdo apesar do Pink Vader estar aposentado. Entre tantos trabalhos que fiz nesse meio tempo, existe o Quarto da Cowzação. Um projeto de conteúdo para publicidade que ainda estou me convencendo que é verdade de tão legal que acho que é.

Então é isso. Esse é o texto que ficou por meses, ouso dizer anos, procurando as palavras certas e que do nada foi parido. Bem-vindo de volta, inspiração para escrever. E obrigada a você, que leu até aqui e ainda se importa tanto anos depois.

Importante: o Pink Vader é uma das coisas mais importantes que já me aconteceu e mudou totalmente a minha vida. Não ouse pensar nem por meio segundo que todas essas experiências ruins anulam o tanto de coisa legal que vivi e ainda vivo por causa dele. Meu monstrão rosa é algo que vejo com muito carinho ❤
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.