bom retiro, colônia sem dono

quem faz um bairro vivo?

conheci o bom retiro em 2006, quando comecei a estudar na etesp (escola técnica estadual de são paulo), que fica bem na entrada do bairro, na ponta da rua três rios. e me encantei. ao contrário de outros bairros com histórico de imigração, mais homogêneos, o bom retiro possui marcas de diversas comunidades ao mesmo tempo: sinagogas e escolas judaicas, igrejas e mercados coreanos, um restaurante grego tradicional. os rostos nas ruas têm olhos puxados — que podem tanto ser de coreanos quanto andinos, porque os bolivianos também são numerosos por ali — ou usam quipá. existem cartazes e placas em pelo menos três idiomas diferentes. tudo isso, somado ao comércio têxtil, faz do bom retiro um dos dos bairros mais ricos e genuínos de são paulo. por isso causa um pouco de surpresa a notícia de que o prefeito joão dória, como parte de um acordo com empresas coreanas, pretende classificar o bairro como “little seul”, em referência à capital sul-coreana. não ficou claro o que seria “classificar”, mas o prefeito da cidade foi convidado para vir ao brasil na inauguração das melhorias patrocinadas por lg, samsung e hyuindai. as multinacionais pagariam obras de iluminação, recuperação de áreas verdes e sinalização para celebrar a relação de são paulo com a sua comunidade coreana, concentrada no bairro.

raquel cunha/folhapress

dória é publicitário, e parece estar encarando a prefeitura como uma agência que encontra clientes para “parcerias” com a finalidade de estabelecer um novo branding para a cidade. uma provável justificativa (para o apelido “little seul”, não para o toma lá-dá cá com as empresas) talvez seja o fato de que, em cidades como nova york e londres, os enclaves asiáticos se chamem “china town”, o que ajuda na identificação local e atrai turistas. mas não é preciso ir longe para buscar inspiração: em são paulo, a liberdade nunca precisou alterar o seu (bonito e significativo) nome para se tornar o nosso bairro japonês. primeiro lembrete para quem quer que ache que, para que uma cidade se transforme, são necessários grandes aportes de capital, empresas gigantes, pompa, circunstância e branding: a cidade existe, se sustenta, se reinventa e firma sua cultura com seus agentes orgânicos. no caso da liberdade, graças ao trabalho, cuidado e dedicação de gerações de comerciantes e moradores japoneses. no bom retiro, graças aos coreanos, bolivianos, paraguaios, judeus e gregos que abrem as portas das suas lojas, fábricas e restaurantes diariamente.

se o bom retiro é também o bairro dos coreanos — como de fato é —, o mérito é dos imigrantes, que começaram a se estabelecer no bairro há 50 anos. é simples oportunismo que multinacionais coreanas deem uns trocados (a troco de quê?) e, de repente, graças a elas, o bairro ganhe a “marca oficial” de bairro coreano. quem faz do bom retiro o bom retiro? certamente não são essas empresas. o bom retiro não é o que é graças a elas, nem vai se tornar mais rico e digno depois da revitalização prometida.

“mas é bom se juntar com a iniciativa privada para resolver alguns problemas”, podem dizer, e é verdade. por isso é importante lembrar que existem formas de envolver a comunidade local em um processo desse tipo, não só como quem vai dizer o que realmente faz falta no bairro, mas também como investidora. se é bom ter capital privado, por que não recorrer aos empresários locais? aos coreanos (e pessoas de outros locais, inclusive brasileiros) que, de fato, fazem o bom retiro funcionar? será que a prefeitura não pensou em consultar as associações locais em busca de parcerias, ainda mais se tratando de questões simples como as mencionadas pelo prefeito? talvez elas se interessassem, afinal, faz mais sentido que comerciantes e industriais locais se preocupem com as calçadas da rua josé paulino do que um diretor da samsung no seu escritório em seul, que teoricamente não tem nada a ver com o bairro. em troca a prefeitura poderia conceder desconto em impostos ou alguma isenção fiscal por tempo determinado. não existem instrumentos para isso — e, acima de tudo, não seria um arranjo desejável para todas as partes?

vender a cidade é mais fácil do que conhecê-la e se propor a resolver seus problemas. e a impressão que dá é que o prefeito não tem muito conhecimento sobre o que está falando. o bom retiro é, desde o século 19, um local que nunca deixou de receber gente de todo canto do mundo. italianos, árabes, gregos, coreanos, bolivianos. o bom retiro nunca parou e é muito mais do que um bairro coreano. é vivo demais pra ser uma coisa só. e não é, muito menos, uma pequena (nem grande, nem média) seul. não é uma cópia, miniatura e nem um simulacro de nada, e sim um bairro paulistano com a sua própria (e rica) história e vida atual. sorte de quem o conhece e admira na sua diversidade. azar de quem só vê um outdoor vago.