Confiar

Você confia nas pessoas? Você confia no mundo? Qual é o seu grau de confiança em alguém?
Para muitas pessoas é muito difícil mensurar, porque já foram decepcionadas no campo sentimental, familiar e profissional. Ah! E tem também os meios de comunicação que despejam notícias nada animadoras sobre política, corrupção e tragédias.
Todos esses acontecimentos servem para você ficar com medo ou criar um bloqueio na sua mente. E se é complicado confiar em uma pessoa próxima, imagine em um desconhecido que você nunca viu na vida. Mas desde que eu fiz sozinha a minha primeira viagem internacional aprendi a confiar no meu coração, acabar com esse preconceito e pré-conceito e que é possível sim, confiar na bondade das pessoas. Existe muita gente boa no mundo.
Eu acredito muito que atraímos as pessoas pelo que somos. A vida é sincronizada, assim como o Universo. Toda movimento tem uma reação. Você escolhe se essa ação será boa ou má.
Ter medo não é um problema. É natural do ser humano. O que não podemos permitir é que ele seja uma barreira para caminhar por novas estradas e conquistar os nossos sonhos.
Quando comentei com algumas pessoas que iria para a Europa sozinha, muitas me respondiam: “Nossa! Você é corajosa. Eu não teria essa coragem”. Outras: “Você é louca. Como vai sair do Brasil sozinha e colocar os pés em um país que não conhece ninguém?”. Para essas eu simplesmente respondia: “Vou porque preciso vencer meus medos e realizar os meus sonhos. A vida é muito curta. Precisamos ser felizes!”.
Não julgo essas pessoas (principalmente mulheres) que me chamaram de louca. Talvez, elas tenham até razão. Nós mulheres temos medo de viajar, de sair, de andar na rua depois das 21h sozinha, porque o machismo e a violência existem e as consequências vão da cantada ao estupro. É importante saber essa realidade e tomar alguns cuidados. Mas não podemos trazer o negativo e esse tipo de energia para nossas realidades e vivermos aprisionados pelo medo, porque ele só irá atrair coisas ruins.
Ao enfrentar os meus medos, o positivo surge de uma forma inesperada. Quando estava viajando, peguei um trem de Veneza para Bolonha. Para não ficar presa em alguns lugares com diárias de hospedagem acabei optando por reservar somente em algumas cidades. Bolonha eu não havia reservado. Cheguei cedo e comecei a bater de porta em porta em hostel, B&B e hotéis. Acho que procurei em cinco locais, mas todos estavam cheios, porque a Universidade de Bolonha (considerada a universidade mais antiga do mundo ocidental fundada em 1088) estava realizando um evento de arte universitária.
Continuei procurando e entrei em uma lan-house. Lá consegui fazer a minha reserva no Albergo Centrale. Mas eu não sabia como chegar até lá. Perguntei ao atendente com o meu italiano básico onde ficava o hotel e ele me respondeu. Naquele instante, um ragazzo (rapaz em italiano) que estava na lan disse: “Olha, eu estou indo para aqueles lados. Posso te acompanhar se você não se importar”.
Confesso que demorei um pouco para assimilar a proposta gentil daquele rapaz muçulmano. E com os meus pensamentos medrosos já fiz um julgamento: “Bom, eu estou numa cidade grande. Ele irá me acompanhar na rua. O que pode me acontecer?”. Esse pensamento passou como um tiro e surgiu um novo: “Ótimo. Vou poder conversar em italiano (que é um idioma que eu amo) com um muçulmano”. Fitei os olhos dele e senti uma confiança.
Respondi: “Grazie. Andiamo!” (Obrigada. Vamos!). E assim fomos caminhando cerca de dois quilômetros. Jalal foi puxando a minha mala que estava mega pesada. E eu dizendo que não precisava fazer isso, mas Jalal muito gentil fez questão de levá-la por todo o percurso. Foi contando a sua história e da sua família que vive no Marrocos. Ele morava há cinco anos na Itália a trabalho.
Chegamos no hotel. Ele me acompanhou até o check-in. Naquele dia não havia almoçado e estava com muita fome. Perguntei sobre algum restaurante próximo ou café. Jalal disse que tinha uma cafeteria excelente há três quadras.
Lá fomos nós de novo para um fim de tarde divertido, recheado de muitos doces italianos e de um delicioso capuccino. Tudo isso sem nada em troca. Apenas confiança. Ganhei meu dia, pois como jornalista adoro ouvir histórias e me permiti vencer meus medos.
Antes de nos despedirmos no café, não sei por que cargas d’água comecei a ficar emocionada. Lágrimas começaram a molhar o meu rosto. Jalal assustado segurou na minha mão e perguntou: “Laura, tu sta benne? Perché piange?” (Laura, você está bem? Por que chora?). Sabe…meses antes de aterrissar na Itália eu tinha passado por um momento muito difícil na minha vida. Então, respondi ao meu amigo: “Porque o que você fez por mim hoje, nunca ninguém tinha feito. São lágrimas de alegria e emoção.”
Jalal deu um beijo na minha mão e escreveu em um guardanapo o meu nome em árabe. Até hoje guardo esse presente em uma caixinha com lembranças da viagem.
Se tem algo que jamais esquecerei na vida foi essa lição que aprendi com Jalal: Confiança não se impõe. Conquista-se.