O machismo e outras situações no ambiente de trabalho

Mulheres durante manifestação (Google Images)

Nas últimas semanas um assunto que voltou à tona — na verdade nunca saiu, mas que ganhou discussões amplas nas redes sociais — foi o machismo. Isso aconteceu devido a um reality show de televisão exibido pela Band: Masterchef Profissionais.

Não vou me atentar aqui sobre as qualificações dos dois semifinalistas Dayse Paparoto (campeã) e Marcelo Verde, afinal de contas, ambos são talentosos e criativos e mereciam disputar o troféu. Mas vou escrever sobre o machismo escancarado que o programa exibiu nas noites de todas as terças, principalmente no último mês.

Sei que a partir do momento que você escolhe uma profissão e está num ambiente de trabalho, se você é mulher, infelizmente, já sofreu, sofre ou sofrerá algo relacionado ao machismo. Pode ser uma brincadeirinha dos seus colegas homens e que você até leve na esportiva, mas não deixa de ser insulto, porque a piadinha machista nada mais é que uma simples forma de agredir as mulheres.

Não posso afirmar 100% de certeza, mas a maioria dos ambientes de trabalho são machistas sim! E se você está lendo meu texto, ao refletir, poderá lembrar de algum comentário machista que já ouviu no trabalho ou conhece um fato que aconteceu com uma irmã, amiga ou colega de serviço.

Acontece que o reality show fez questão de exibir (afinal de contas, os programas são gravados e editados) três participantes homens não acreditando no potencial de uma mulher que no futuro seria a vencedora do programa. E ainda mais, a desmereciam como profissional. Achavam Dayse fraca demais.

Só que quanto mais eles tentavam atingir o emocional da concorrente, mais a jovem crescia naquele ambiente cheio de dificuldades pela própria competição. Por incrível que pareça, tinha um concorrente que Dayse já havia trabalhado num restaurante em São Paulo. Era o Ivo. Ele era chef e ela subchef.

Por ter sido chef, Ivo conhecia bem as habilidades de sua pupila. Em vez de ficar orgulhoso, de trabalharem juntos, o que ele fez? Ivo ressaltava em alto e bom som que não acreditava nela, fazia de tudo para desmerecê-la dizendo que Dayse “não é uma competidora a minha altura”. Inclusive numa prova junto com Dário pediu para ela varrer o chão. Veja o vídeo abaixo:

Apesar da campeã afirmar que não levanta a bandeira do machismo ou do feminismo, infelizmente não podemos fingir que nada aconteceu. Até mesmo porque é uma questão que vai muito além do machismo. É uma questão de respeito ao ser humano.

Se apenas fosse uma questãozinha qualquer ou apenas palavras mal colocadas, o assunto não teria ganhado as discussões nas redes sociais e nem ganhado destaque nos discursos da apresentadora do reality Ana Paula Padrão e da chef Paola Carossella. Talvez, Dayse não perceba isso, porque como mulher já enfrentou muitas situações na cozinha e isso a levou a criar um casco, uma forma de proteção para não se abalar mais.

Tenho certeza que muitas mulheres se identificaram com o abuso que Dayse sofreu naquele ambiente de trabalho e de competição. Eu mesma sou uma! Eu trabalho com jornalismo desde os 16 anos. E infelizmente, o ambiente do jornalismo é machista também. Isso é algo cultural e que ainda, em pleno século 21 precisa ser quebrado, porque por muitos anos, as redações eram dominadas por homens.

Passei por várias redações em algumas editoras e acreditem o machismo ainda impera. Por isso, a vitória da Dayse ontem no Masterchef tem um significado a mais pra mim e para muitas mulheres.

Não deixem nenhuma pessoa e principalmente, nenhum homem falar que você não vai conseguir, que você não tem potencial ou que não é inteligente. Não permita isso, mesmo que venha de um homem que você ama: pai, irmão, tio, primo, amigo, namorado, marido. Muito menos de um chefe ou colega de trabalho.

Não deixe nenhum homem pisar em você mesmo que isso custe o seu emprego. As vezes o emprego dos sonhos se torna pesadelo. Já passei por essa experiência de enfrentar muitas situações machistas num ambiente predominado por homens. Não desejo isso para ninguém, porque por mais que você seja forte isso dói. É uma dor na alma.

Homens machistas, que usam o poder para qualquer tipo de assédio ou àqueles que fazem de tudo para diminuir uma mulher não merecem viver. Na época, eu tinha vinte e poucos anos, era inocente demais, tinha medo de perder o emprego que tanto amava.

A situação foi a seguinte. Todos nós da redação tínhamos que participar de um curso oferecido pela editora. Quem oferecia esse curso era um profissional bem gabaritado na área de comunicação e relações humanas.

O curso abrangia dois dias da semana e tínhamos que ficar após o expediente. Aliás, era um curso que eu achava engraçado, porque o editor-chefe participava também, mas ele não fazia os exercícios. Só estava lá para nos acompanhar e tirar sarro da nossa cara em algumas dinâmicas.

Um dia o exercício era ler um texto e interpretá-lo com suas emoções. Como atores mesmo. Eu que gosto de artes, tentei fazer o melhor, mesmo nunca frequentando um curso cênico. Mas um exercício desse tipo deixaria qualquer um tímido na frente dos seus colegas de trabalho, ainda mais do seu chefe.

Enfim, respirei fundo e fiz. Ao terminar o professor disse: “Uau! Não disse que não iria doer? Tem coisas que doem mais!”. Terminada a frase ele deu aquele sorrisinho sarcástico e safado em minha direção. A turma toda, a maioria formada por homens riu! E as mulheres olharam pra mim com uma cara incrédula que não estavam ouvindo isso.

Minha reação foi recolher o meu material e ir embora. No outro dia, eu ainda tentava entender o que aconteceu. Será que eu tinha entendido errado? Conversei com as colegas de trabalho que presenciaram o fato, mas elas me diziam que sentiam o mesmo que eu. Um caso de machismo e assédio moral com cunho sexual. Mas não poderiam fazer nada pra me ajudar, pois tinham medo de perder o emprego.

Eu fui procurar o diretor da editora (um senhor de uns 60 anos) para relatar o ocorrido. Ele me ouviu com atenção e disse que procuraria saber o que houve para tomar as providências. Eu até sai da sala com o coração mais leve, pois achava que tudo iria se resolver da melhor forma. No outro dia, fui convocada para uma reunião com ele e com o meu ex-chefe escroto (aquele que ficava só observando as performances dos funcionários no treinamento). Simplesmente, o ex-chefe alegou que eu que levei para a conotação errada. E não adiantou eu argumentar sobre os risinhos dele e dos demais. Mas nós mulheres sabemos que a nossa intuição nunca falha e que sentimos quando algo é pura brincadeira ou não, vindo de um homem.

Infelizmente esse trabalho que até então era prazeroso para mim foi perdendo o significado. Não escrevia mais meus textos com paixão. Era tudo automático.

Passado um tempo, aconteceu outro fato dentro da redação envolvendo três homens. Essa união de trabalho e amizade deles foram quebradas. Um deles chegou a se desculpar comigo, pelo fato de que na época não ficou ao meu lado. Afinal, ele presenciou a cena que para mim estava claro que não era machismo, e sim, assédio moral com conotação sexual. Mas quando ele quis reparar isso ao ficar do meu lado já era tarde.

Um tempo depois, soube que uma das minhas colegas conseguiu fazer com que o assunto chegasse à diretoria da empresa, pois ela também já havia sofrido o mesmo tipo de assédio dele. Felizmente, eles romperam o contrato com esse professor, mas por envolver pessoas poderosas e uma organização muito conhecida ficou por isso mesmo.

A minha inexperiência e o meu medo fez com que o sofrimento ficasse por isso mesmo. E é lógico que isso era tudo o que eles queriam. Mas se fosse hoje, claro que faria tudo diferente. Afinal temos todo o respaldo da justiça e as discussões sobre machismo e qualquer tipo de abuso contra às mulheres estão sempre na mídia.

Sinto que muitas têm medo, assim como eu tive. Porém, nos últimos anos percebi que muitas já mudaram a forma de pensar, de agir e de se colocar em qualquer tipo de ambiente. Com certeza, o empoderamento feminino ajudou nisso e também as redes sociais. As mulheres estão nas ruas, lideram movimentos e fazem questão de deixar claro suas opiniões.

Não podemos ter medo. Não podemos deixar que nenhum homem se aproveite de nossas ideias ou dos nossos sonhos. Aliás, não podemos deixar que ninguém pise em nós!

Temos que usar o trecho abaixo do discurso da cantora Madonna na Billboard, após ser eleita a mulher do ano pela conceituada revista para nos empoderar:

“Mulheres têm sido oprimidas por tanto tempo que elas acreditam no que os homens falam sobre elas. Elas acreditam que elas precisam apoiar um homem. E há alguns homens bons e dignos de serem apoiados, mas não por serem homens, mas porque eles valem a pena. Como mulheres, nós temos que começar a apreciar nosso próprio mérito. Procurem mulheres fortes para que sejam amigas, para que sejam aliadas, para aprender com elas, para se inspirarem, se apoiarem e se instruírem”.

É triste concluir dizendo que em pleno século 21 temos que lidar com certos tipos de homens e com situações inacreditáveis em qualquer ambiente. Que tal nos unirmos para acabar com o machismo e com qualquer tipo de abuso contra a mulher?