A filosofia chestertoniana presente no Pequeno Príncipe

Laura Cintra
Jul 30, 2017 · 5 min read

[Contém spoilers]

Como muitos sabem, sou uma chestertoniana apaixonada e, certa feita, ocorreu-me que perdia a justa medida da razão por encontrar referências à filosofia de Chesterton em todos os lugares, até mesmo nos mais improváveis. Estaria meu nível de fascínio pelo autor passando dos limites?

No entanto, ao compartilhar com um amigo filósofo a minha teoria sobre a filosofia do escritor inglês estar muito presente no conto de Antoine Saint-Exupery, percebi, com a ajuda dele, que, de fato, minha suposição tem certa consistência. Por esta razão, resolvi dividí-la com mais pessoas. Então, vamos lá!

O primeiro ponto em comum entre Chesterton e “O Pequeno Príncipe” é a defesa de que, ao preservarmos o mistério, preservamos o encanto das coisas. Estão muito presentes no conto francês, as duas seguintes ideias do Gordo: “o poeta apenas pede para pôr a cabeça nos céus. O lógico é que procura pôr os céus dentro de sua cabeça. E é a cabeça que se estilhaça.” e “enquanto se tem um mistério se tem saúde; quando se destrói o mistério se cria a morbidez. O homem comum sempre foi sadio porque o homem comum sempre foi um místico”, pois o livro de Saint-Exupery não explica coisa alguma: por que o príncipe morava sozinho num planeta? Como fora parar lá? Como viajou para outros planetas? Pode uma criança se apaixonar por uma flor? Por que o príncipe precisava morrer para voltar pra casa?

Certa feita, cometi o grave erro de sugerir a um amigo um tanto quanto racionalista que lesse o meu livreto favorito. Eis que ele, ao finalizar, perguntou-me: “O Pequeno Príncipe era uma ilusão do piloto?”. Dramática pergunta que tem o poder de acabar com todo o encanto da narrativa. Fiquei abismada com tanta insensibilidade! É tão claro que o autor quer que apreciemos a história, sintamos seus sabores (doces e não tão doces) e que empreendamos uma viagem pela aventura das duas personagens principais, ao invés de ficarmos fazendo perguntas desnecessárias! Chesterton e Saint-Exupery convidam-nos a apreciar, mesmo quando não é possível compreender tudo. Este é um dos segredos para bem viver. A vida é um mistério que nos escapa, mas, nem por isso, deixa de ser maravilhosa!

O segundo ponto em comum entre os autores é o seguinte: ambos exaltam o valor das pequenas coisas e a sabedoria das crianças em detrimento das futilidades dos adultos. Exupery, na pessoa do piloto, afirma: Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas [pessoas grandes] jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: “Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que coleciona borboletas? […] Assim, se a gente lhes disser: “A prova de que o principezinho existia é que ele era encantador, que ele ria, e que ele queria um carneiro. Quando alguém quer um carneiro, é porque existem” elas darão de ombros e nos chamarão de criança! Mas se dissermos: “O planeta de onde ele vinha é o asteroide B 612” ficarão inteiramente convencidas, e não amolarão com perguntas. Elas são assim mesmo. É preciso não lhes querer mal por isso. As crianças devem ser muito indulgentes com as pessoas grandes.” Chesterton, por sua vez, comenta: “É desde o vale que as coisas parecem grandes; é da planície que as coisas parecem altas. Eu sou um filho da planície e não tenho necessidade daquele grande guia montanhês. Erguerei meu olhar para as montanhas, de onde virá o meu auxílio; mas não erguerei minha carcaça às montanhas, a menos que seja absolutamente necessário. Tudo é uma posição da mente, e neste momento estou em uma posição confortável. Vou sentar-me e deixar que as maravilhas e aventuras pousem em mim como moscas. Há muitas delas, garanto. O mundo nunca sofrerá com a falta de maravilhas, mas apenas com a falta da capacidade de se maravilhar”. Chesterton também escreve: “O que quero dizer pode ser observado, por exemplo, nas crianças, quando elas descobrem algum jogo ou brincadeira com que se divertem de modo especial. Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia”.

Outro ponto comum é o fato de os autores frisarem as diferenças entre sexos, obviedade esquecida nos tempos de hoje. No livro do Pequeno Príncipe, a rosa representa as mulheres e o principezinho tem dificuldade para lidar com ela: “Não deveria tê-la escutado, bastaria olhar e aspirar o perfume da flor, mas eu não me contentava com isso. Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras.Ela me perfumava e iluminava… Não deveria jamais ter fugido.Deveria ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias nas flores!Mas eu era jovem demais para saber amar”. Chesterton também notava isso e assegurou: “Conheci muitos casamentos felizes, mas nunca um compatível. O objetivo do casamento é lutar contra o instante em que a incompatibilidade torna-se inquestionável, e sobreviver a ele. Pois um homem e uma mulher, tais como são, são incompatíveis.” Apesar disso e, ao contrário do que poderia parecer, os dois autores concordam que a fidelidade é uma grande virtude, mesmo quando a convivência não é perfeita. Chesterton destacava que “ser fiel a uma única mulher é um preço pequeno demais se comparado a algo tão grande, como ter uma mulher.” e Exupery, por meio do principezinho também o atesta, ao notar que o amor pela sua rosa, a tornara única e especial: “Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa”.

As semelhanças continuam: Chesterton criticava certos tipos, por suas ideias loucas: Antoine criticou outros tantos tipos por seus absurdos. Representou-os nas figuras do homem de negócios, do bêbado, do rei, do vaidoso, entre outras personagens um tanto malucas, mas que, no fundo, apontam para pessoas que são vistas como comuns. Os dois escritores parecem concordar em muitos aspectos.

(texto em construção…continua…)

    Laura Cintra

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    Católica, chestertoniana, apologista amadora, pró-vida, professora de Literatura.