1º de Janeiro. Eu não vou ficar milionária esse ano. Quase não tenho chances de salvar uma vida doando minha medula. É meio improvável que eu tire 1000 pontos na minha redação do Enem. Não há possibilidades de que eu evite algum assalto ou um grande acidente. Tenho total certeza de que esse ano eu não vou encontrar o amor da minha vida durante aquele intercambio que eu com certeza não vou ganhar do sorteio do meu blog preferido de viagens. Muito provavelmente eu não farei uma viagem ao futuro, eu não vou ficar super magra e meu cabelo não vai crescer mais do que 12 centímetros esse ano mas eu tenho certeza de que eu vou ficar de exame final em todas as matérias durantes os próximos semestres. Eu também sei que minha renda não vai aumentar muito esse ano.

Tá meio claro que eu não corro o risco de sofrer uma grande “mudança de vida”, então, o que eu posso fazer com essa?

A resposta é muito menos decepcionante do que eu pensava que seria: eu posso me importar.

Eu posso amar ainda muito mais os meus entes queridos, eu posso abraçar mais os meus pais e sair mais com os meus amigos. Eu posso fazer mais brigadeiros pro meu irmão comer junto com o meu sobrinho, eu posso gastar menos dinheiro com o governo e mais com as pessoas que realmente me interessam. Mesmo ganhando pouco, eu posso dar muitos presentes pra quem eu amo e não só nos aniversários, porque eles precisam saber que eu amo eles nos outros dias do ano. Eu posso demonstrar o quanto eu me importo sem gastar dinheiro também.

Eu posso ir mais ao cinema mesmo sem ter companhia, apenas porque eu gosto de ver filmes. Eu posso comprar mais flores pra mim mesma, porque parece burrice depender de alguém pra me dar. Ainda tenho a chance de não me importar esse ano, por exemplo, posso não me importar com algumas pessoas que não tem nada a acrescer na minha vida ou eu posso ignorar a irrelevância e toxicidade dessas pessoas e continuar meu vínculos com elas só que sem me prender as partes feias delas, só aproveitar as coisas boas que eles conseguem me proporcionar em raros momentos.

Eu posso animar as festas de família, posso fazer mais piadas e assistir mais séries com minha mãe. Eu devo abraçar mais meu cachorro, mesmo nos dias em que ele está mais fedido do que eu posso aguentar.

Eu posso fazer um óculos novo e ler mais. E acho que eu devia ter mais critérios nas minhas leituras desse ano.

Eu posso visitar minha tia Flauzina, sem nenhum razão, só porque ela é legal e eu gosto muito dela. Eu devo ir mais ao asilo da minha cidade porque os idosos me fazem feliz e comprar os artesanatos que os idosos fofos de lá fazem, eu poderia passear mais pelo meu antigo bairro porque eu sinto falta disso. Eu posso tirar mais fotos das pessoas que eu gosto porque elas valem mais do que as fotos de paisagens sem graça que eu posto no Instagram.

Se em 2015 eu quase não fui em festas chochas da minha cidade em 2016 eu devo ir menos ainda. Não é por nada, só que elas são ruins demais.

Eu só devo sair de casa se eu realmente quiser mesmo, porque eu não perco nada ficando mais tempo com meu cachorro, na rede, tomando vitaminas de banana.

Esse ano vai ser bom, porque eu vou fazer o que é prático e o que interessa, se eu por acaso ficar milionária, não vai ser tão ruim também.