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O final da sétima tempora de Game of Thrones e o machismo nosso de cada dia

ATENCÃO: TEM ALGUM SPOILER DA SÉRIE POR AÍ, MAS TALVEZ NADA MUITO RELEVANTE

Aviso dois: se você tem sensibilidade com termos que se referem a genitais, poupe a si mesmo da leitura a seguir e vá trabalhar seus tabus na terapia.

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Prossigamos:

Quando eu ouvi o Jaime na final da sétima temporada de Game of Thrones dizer “talvez tudo seja sobre pintos, no final” (em tradução mega livre de “maybe it really is all cocks, in the end”), me peguei pensando se os produtores e roteiristas resolveram, deliberadamente, largar a mão na construção dos diálogos e tramas da série após tantos anos ou se, ao contrário disso, tinham ficado ainda mais afiados.

Jaime pareceu ser a personagem escolhida como porta-voz das maiores babaquices dos últimos episódios mas, como em quase toda babaquice, essa sua fala marcante, que abriu o último episódio da temporada, teve algum fundo de verdade. Dando um rápido salto para os dias atuais, mesmo em dias de feminismo em pauta e em contextos sociais privilegiados nos quais as mulheres conseguiram se provar capazes — ainda que, pessoalmente, eu acredite que esse “provação” nunca realmente termine — de alguma forma tudo sempre se resume a pintos.

Quer privilégio maior do que ter um pau? Frente ao exército dos Imaculados, constituído exclusivamente por eunucos, o escudeiro de Jaime zomba da inutilidade que é ganhar uma guerra se você não tem um pau — afinal, com o ouro conquistado, seria possível pagar para que as mais desejadas mulheres se deitassem com você, prostitutas ou não, porque parece que mulheres só pensam em dinheiro, homens e poder, não é mesmo?

É tanto problema junto que eu nem sabia por onde queria começar essa treta. O primeiro deles é aquele velho lembrete de que sexo não se resume a peru ou pepeca, como nos recordou Verme Cinzento há pouquíssimo tempo. O segundo é a objetificação insana e constante da mulher. E o terceiro — e real tema desse texto — é a supervalorização do pau.

Vou falar aqui de pau no figurativo, ok? Porque, para mim, é aí que mora o perigo. Acompanhem: sabe quando uma mulher “vira” chefe ou alcança uma posição de poder e destaque e dizem que ela “bota o pau na mesa”? Ou que ela é “do caralho”? As expressões cotidianas relembram o quanto é “masculinizante” uma posição de poder e, muitas vezes, o quanto uma mulher precisa se “masculinizar” para alcançá-la. A linguagem evidencia no dia-a-dia aquilo que já foi internalizado pela sociedade: para mandar, no final das contas, é preciso ter um pau — mesmo que ele seja imaginário.

E eu explico o motivo para tantas aspas: é porque a ideia de masculino é construção nossa. Alguém ou vários alguéns tiraram não-sei-de-onde que ser macho é ser violento e agressivo e fortão e que ser mulher é ser fofinha e delicadinha e boazinha e sensível. Resumidamente, claro, é meio isso.

Aí, quando temos uma mulher numa posição de poder, basicamente duas coisas podem acontecer: ou ela “vira macho” (por favor, mil aspas aqui) e tenta se provar o tempo todo imitando comportamentos reconhecidamente masculinos, emblemáticos até, repetindo um padrão patriarcal que foi consolidado ao longo dos últimos séculos — e pode, inclusive, ser manifestação da personalidade dela e não apenas imitação — OU ela lidera de um jeito “feminino”, ou assim considerado, sendo sensível, promovendo colaboração e generosidade, buscando empatia com funcionários e colaboradores e sendo tolerante, por exemplo, com quem precisa de flexibilidade por questões familiares. E também tem que se provar o tempo todo. E, se faz isso, nossa, é péssima chefe. É péssima líder, é fraca, é vulnerável e “ai, só falta chorar na reunião agora”. É, não tem muita saída.

Proposta: vamos tentar diminuir — se parar for difícil e abrupto demais — com essa binaridade, amiguinhos? Entre homem e mulher existem tantas, mas TANTAS opções. Em Nova Iorque já temos, desde o ano passado, 31 gêneros reconhecidos. A gente é tão mais complexo que o que está — ou não — no meio das nossas coxas.

Então vamos lá, uns exercícios de GoT para começar: a Brienne não luta “como homem”.Theon ou os Imaculados não são “menos homens” pela falta de um membro, assim como Jaime não é menos humano por não ter uma mão. Cersei não é ou deixa de ser uma puta líder porque “aprendeu com o pai”. A Daenerys não tem obrigação de dar ou deixar de dar pra homem nenhum. Aliás, nenhuma delas — nem nenhuma de nós — tem. Nem “merece” ter o corpo violentado. Ou usa uma roupa porque “está querendo”. Nem “devia estar acompanhada” quando saiu à noite, para se proteger. Nenhuma mulher deveria ter valor medido pelos homens à sua volta e pela influência que eles tiveram em sua vida. Para cada mulher — com vagina ou não, ok? — que você menospreza, ironiza e diminui, há um desejo imensamente simples de poder escrever a própria história e cometer os próprios erros sem precisar ouvir paralelos com o que homens teriam feito no lugar dela.

Essa dicotomia besta não ajuda ninguém. A ideia do pau abstrato é bem mais preocupante a meu ver que a nudez feminina gratuita das primeiras temporadas. É o pau que mora na cabeça de cada um, independente de gênero. É a ideia fálica de que para ter poder eu preciso interiorizar algum grau de masculino, seja lá o que isso signifique. Nesse sentido, o exército de Jaime vê os Imaculados como “menos homens” e, portanto, menos importantes e mais desprezíveis, do que eles, os “com pinto”. Por essa lógica, também as mulheres são menos, pela mesma falta. Talvez a frase tenha sido uma crítica, uma ironia, não tenho como saber — e não quis ler a respeito ainda para não ser influenciada nessa escrita. Só sei que se, no final, tudo se resumir a pintos, quem não tem um — real ou não — vai ter que continuar a se provar todos os dias, para dar um baile mostrando que há força e beleza além do que o pau imagina.